Contas negras
Para meu menino
Seus olhos,
duas contas negras,
das que carrego no pescoço como guia,
ornando peito, ornando vida.
Meus lindos olhos, minhas contas negras.
São seus olhos tintos
que busco à noite quando o dia se desfaz,
e o mesmo brilho que vejo atravessando o céu
é aquele que se esconde no limite de sua íris.
Há quem diga que são castanhos,
mas tenho eu licença poética
para colorir suas janelas com a cor absoluta,
que a tudo traga, luz e cor,
feito buraco negro a engolir estrelas.
Meus lindos olhos, minhas contas negras.
Eu, Narciso, me perco todos os dias
no profundo espelho líquido de suas janelas,
janelas que mostram um mundo
que eu havia desacostumado a ver.
Ah, essas portas distantes do chão,
escancaradas quando as quer,
entreabertas como quem não se entrega,
feita de matéria daquilo que não se mostra.
Ainda te descubro, ainda te decifro,
encontro a intensidade do seu querer.
Meus lindos olhos, minhas contas negras,
orno meu peito com sua imagem,
caminho cega, como o amor dita,
só seu brilho como guia.
Tropeço e sigo,
sigo…sempre.
