Junina

June 24, 2008 por jana

Há um cheiro de saudade,
invadindo as paredes frias deste inverno cinza.
Há um cheiro de saudade
no café que faço
e no leve adoçar das fotografias,
espalhadas no espelho quieto da xícara.

Minha cidade mora longe
e tão perto ao mesmo tempo.
Ela mora em mim, viva e quente,
lembrança sensorial,
gosto e imagem.
Minha cidade ferve quieta e silenciosa no peito.

É dia das fogueiras, olha só!
Bandeirolas coloridas enfeitando de cores vivas
as ruas e vielas da minha cidade,
que chora todo meio de ano,
estação triste-feliz das águas.

Como eu queria estar longe daqui,
caminhando entre essas cores saudosas,
sentindo o cheiro amarelo do milho invadir minhas narinas,
tão agora desacostumadas com o cheiro bom
das coisas que alimentam a alma.

Minhas narinas agora sentem cheiro de multidão e indiferença,
são as regras mudas do concreto,
com as quais convivo sem pestanejar,
enquanto longe minha cidade brilha na chama
das fogueiras e nas chuvas de prata,
que desenham formas no ar
pelas mãos pequenas das crianças.

Talvez hoje eu durma ao som de Luiz Gonzaga,
enquanto ouço buzinas lá fora,
frutos da costumeira impaciência.
Talvez eu sonhe com roupas vermelhas de chita,
embrulhada no meu edredon verde,
sufocada pelas lembranças de menina,
festejando sozinha o meu São João.

 

A praça

June 9, 2008 por jana

Sol embaçado pelas nuvens de sempre,
o cinza escondendo claridade e riso,
e os dois lá,
sentados no banco duro e igualmente cinza,
abraçados, rosto-ombro-rosto-ombro.

Ao lado, um cobertor tão cinza quanto as nuvens
ou quanto o concreto-matéria do banco que ocupavam.
Abraçados, unindo silenciosamente a fome física
e a fome inquietante da alma, eles estavam.

Eles estavam lá, sentados, amarrados,
entrelaçados,
matando um a fome do outro.
Fome de pele e de calor,
fome de olhos que não se desviem,
à vista daquilo que não quer ser visto.

As pessoas circulam calmamente
com seus tickets de refeição
e seus terninhos cheirando a amaciante e a sabão.
Eles, dois iguais, dois homens-meninos,
são como estátuas antigas,
que se confundem à paisagem,
tão cinzas que são,
que quase ninguém lhes nota a presença
e a dor esculpida nos olhos e na face.

Eles não se apartam,
olhos fechados, queixo no ombro,
imitam as cenas dos amantes,
que vêem ao passar em frente das lojas de eletros.
Eles querem ser algo,
se destacarem do cinza,
deixarem de ser imagem estática,
a quem ninguém presta atenção.

Talvez nem seja isso que eles realmente queiram,
talvez um busque no outro um toque suave
que a vida todos os dias lhes nega.
E eu a dar voltas, como um moinho,
sem sair do meu eixo,
olho aqueles corpos de olhos cerrados,
pego meu ticket de refeição,
mato a fome do meu corpo,
enquanto vejo os amantes de longe,
segurando firme um ao outro,
como a linha frágil
que sustenta um corpo
diante do sem fim das quedas,
diante dos dias em reprise,
diante da vida,
que não é, meu bem, novela.

 

Não ser

May 8, 2008 por jana

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(Imagem: Janaína Calaça)

Ofereceu a carne viva,
um punhado generoso daquilo que não é dito a ninguém.
O caminho do seu corpo,
suas camadas escondidas,
a entrada dos seus sonhos,
o afago dos seus dedos.
Mas tem que deixar de ser…

Cada vez mais viaja por dentro,
tentando encontrar a sensação perdida
de rodopiar livre sobre o chão duro dos dias.
Queria caminhar novamente com os dedos soltos,
cabelos desgrenhados,
tempo escorrendo e ela sem ver.
Mas agora tem que deixar de ser…

Pássaro vermelho de asas cortadas,
raízes enterradas em vaso de barro pintado,
escamas brilhantes cerradas em um aquário,
acreditando ser aquele o seu mar.
Não a concebe mais na beleza do desenlaço,
concebe a menina agora na rede tecida de laços.
E ela tem deixado de ser…

Tem agora que tapar os ouvidos,
os olhos e a boca.
Recolher restos de papéis ensaiados
exaustivamente por tantos.
Tem que ser igual,
seguir o fluxo,
não desviar.
E ela deixa mais e mais de ser…

Do outro lado do espelho,
aquele corpo amado está,
querendo ser extensão dela,
sem entender que já é,
mas que mesmo morando entre paredes de vidro,
óleo e água não se misturam,
e quando acontece,
não pertence mais ao limite deste mundo.
É licença poética e nada mais.
Continuarão sendo dois.

Enquanto isso, o peito entoa canção triste,
notas sufocadas e jorradas para dentro.
Não há como fazer-se entender.
Pássaro vermelho de asas cortadas,
raízes enterradas em vaso de barro pintado,
escamas brilhantes cerradas em um aquário.
E ela silenciosamente deixando de ser…

 

Destoante

April 24, 2008 por jana

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Sou cores destoantes nesta cidade,
em que o cinza reina com cetro e nariz em direção ao céu.
Sou os passos lentos caminhando,
enquanto todos impacientes correm.
Correm tanto para quê?
Para encontrarem todos sempre o mesmo limite?

Sou o bom dia em mão única,
perdido nas manhãs que amanhecem quase sempre frias.
Meu bom dia morre na minha boca,
sem respostas, sem um esboço de sorriso qualquer.
Sigo então destoando,
como a nota que insiste em mudar
o ritmo constante da música que se repete.

Destoante, sou assim, destoante.
Sou o riso, enquanto a sisudez impera,
e alguém um dia me disse no metrô
que se boca desse cãimbra,
a minha já dura estaria.
Só porque rio, só porque deságuo dentes,
querendo extrair da vida alegria.
Alegria demais incomoda, minha gente!
Cerremos os dentes então.

Alguém me atropela na calçada,
a dona da casa onde moro
manda bilhete cobrando conserto
do ralo do banheiro que entupiu.
Deve ter sido a sujeira clara das minhas lágrimas,
o choro de quem não se adapta,
escoando e incomodando,
sufocando garganta e tubos brancos hidráulicos.

Meu coração agora dói,
dor física, verdadeira,
dor que machuca mais que arranhão depois de queda.
Destoante, sigo calada engolindo minhas lágrimas,
fingindo ser a dureza um tapete de flores coloridas.
Sigo disfarçando minha dor,
abafando minhas mágoas,
continuando e caminhando lentamente,
enquanto ouço alguém gritar: “sai da frente!”.
E é o que eu faço,
deixo o mar aprisionado e inconsciente passar.

 

Contas baratas

April 1, 2008 por jana

Adorno meu colo com contas baratas,
roubadas graciosamente das coisas de minha mãe.
São contas baratas, de brilho falso, colorido intenso,
mas trago enfeitando a carne como lembrança
deste retorno à terra que me fez de filha
e que me recebe novamente como estrangeira,
cega dos olhos diante dos dias cinzas,
enchergando nesta volta apenas o brilho.

Meus olhos ganham a umidade fértil do mar diante de mim,
é lindo ver a imensidão se derramar no limite de minha visão falha,
diante de minha existência frágil,
do meu hoje ignorando sempre o amanhã.
Voltar à minha terra é como caminhar atrasando os relógios,
deixando a correria virar pó
e as lembranças darem as mãos,
como as contas coloridas reunidas em minha nuca.

Tudo é tão velho e novo,
tão novo e ao mesmo tempo familiar,
é como conhecer o que já se sabe em sonho,
é como um dejávu, que te surpreende sempre atrás de respostas.
Voltar sempre atiça minhas lembranças
e também me faz ver que o tempo não desacelerou por minha ausência.
Tudo continuou e meus olhos não acompanharam.

Meu pai continua a brincar de manhã cedo com os macacos,
minha mãe corre sempre quebrando a lentidão-clichê dos que olham de fora,
meu irmão ganha olhos mais profundos e crescidos a cada dia.
E para eles estou diferente, mesmo sabendo que mudo constantemente,
sinto-me igual a todos os dias,
meio criança-antiga buscando o mundo-limite do velho quarto
como refúgio, como toca, como fonte onde beber a vida.

Entre as roupas amarrotadas na mochila,
deslocamento meu tecido de pano,
lá está meu travesseiro velho e as contas coloridas que guardei junto.
É como levar da praia as conchas, para lembrar do seu som
ao colocá-las perto dos ouvidos.
Trago esses objetos sem valor diante do mundo,
riqueza minha, brilho e cheiro que me acolhem.
E é neste travesseiro roto onde deito minha cabeça todas as noites
e são essas contas que adornam meu peito,
que me trazem a sensação de um abraço distante,
de um colo que me recebe a cada retorno,
de um afago que busco em minhas viagens de volta.

 

Pele

March 10, 2008 por jana

Descobri, logo cedo, que para renovar a pele queimada pelo sol,
teria que enfrentar a dor primeiro,
deixar que ela surrasse a carne, ardesse vermelha e explícita,
para aos poucos ver a pele nova crescer por cima,
à espera de outras dores possíveis e das novas camadas finas,
que depositam-se ao corpo silenciosamente.

Deixei minhas dores arderem a carne o quanto podiam
e agora vejo esta pele nova nascer fina e brilhante.
Talvez se eu metesse a unha impaciente
e quisesse arrancar a pele velha de uma só vez,
nunca esta pele, que se forma agora, nasceria.
É preciso deixar a dor se pronunciar por completo
para que um ponto qualquer não se abra mais em novas feridas.

Vejo esta pele nova, uma camada entre as tantas que há em mim,
se formar e fechar mais este ciclo,
trazendo a certeza de que por mais que tenha ardido, cicatrizei.
Estou pronta para novas quedas, arranhões profundos nos joelhos,
e pedaços do que pulsa espalhados pelo chão.

Agora renovo-me como qualquer limite entre margens,
que inundou-se de chuva e fez-se oceano,
a espalhar vida pelos cantos e estar pronto para correr,
rejeitando o tédio das águas paradas.

O sol surra esta pele nova, mas como deixei-a cicatrizar por inteiro,
vejo-a hoje mais resistente,
tão distante daquela camada fina e frágil,
que imaginei carregar por toda a vida.
Não ganhei a impenetrabilidade risível das armaduras medievais,
pois não renuncio o que faz de mim sempre humana,
a dor, seguida da certeza do prazer.

Carrego ordenadamente por fora então
esta camada fina renovada,
que esconde e reveste o caos silencioso que há em mim.
E é esta pele fina, feita de palmas abertas às carícias e às rasteiras,
que se lança ao mundo, à sua velocidade, à sua impaciência,
aos seus cafunés e a tudo que se derrama
pelos dedos certeiros e retos do tempo,
que esmaga, que arranha,
mas que traz a chuva, que leva tudo embora
e que ainda faz o que está inerte renascer.

 

Matéria-prima

February 22, 2008 por jana

Descubro-me filha da combinação das palavras
e não da junção aflita de duas carnes.
Não importa à rotina a história do ventre que me abrigou,
o que conta é aquilo que é dito
e digerido como verdade, como história linear.

A palavra antecede
desde o sabor sentido na língua
à aspereza firme e fria do chão durante a queda.
A palavra antecede o azul profundo deste mar que não vejo
e me antecede ao mundo
como cartão de visita desbotado e ultrapassado.

O conforto mora nas definições,
nas certezas feitas de tecido frágil e finito.
Sou feita de transição,
sou rio e chuva,
que passa, segue seu curso e desvia-se.
As palavras são estes recipientes vítreos decorados,
que me oferecem na intenção fria
de conhecerem o início e fim das minhas águas.

Enquanto buscam palavras para definir aquilo que é gerundismo,
meu corpo segue sendo e vivendo
aquilo que escolhe ser e viver.
Minha única bússola é o desejo,
que tanto faz chamar-se desejo ou não,
é o estímulo primeiro, o que faz meu corpo ser movimento.
As palavras… Guardo-as para o meu mundo falho,
o sentir eu lanço na carne como guia,
e sigo livre no bater frenético dos meus olhos
nus de palavras e de suas definições.

 

Do lado de dentro

February 16, 2008 por jana

Só te peço, meu bem,que despeje nossas rotinas nas almofadas espalhadas pelo chão,junto às nossas peças surradas de rua
e da correria da multidão,
que mora entranhada nas solas de nossos sapatos,
divididos em suaves prestações.

Deitemos nossas costas-pele-nua
neste chão mais tarde lavado por nosso suor,
que seja mar e rio onde navegaremos nossos sonhos,
onde misturaremos nossas pernas,
onde perderemos os pontos
em que você acaba e eu começo.

Quero apenas o vento frio adentrando as janelas
para ver você se aninhar na extensão dos meus braços,
na canção que toca suave,
nas palavras ditas como prece.
Saiba apenas o momento de calar
e fazer da língua tocando meu céu fibroso
a única canção que tocará firme para mim.

Só te peço, meu bem,
que enquanto você se despe de suas roupas batidas,
leve junto com a poeira suas negativas,
seus pudores fabricados,
seu medo de extravazar o limite dos rios.
Se vier para meus braços
que venha sem nada a cobrir corpo e vontade,
que o querer seja sua única direção,
a nortear seus passos no caminho entre minhas pernas.

E que esse chão que tem seu fim
ou a vida que um dia será ponto
sejam esquecidos como limite que são
e se tornem apenas palco e platéia,
onde apresentamos em carne nosso ato
e de quem não esperamos nem um aplauso.
E do lado de fora só esta brisa fria de fim de dia
adentra os espaços vazios entre nossas carnes.
O resto continua lá,
morando na velocidade diária das ruas.

 

Chuva

February 14, 2008 por jana

Como a chuva que se derrama pela cidade
e nunca retornará novamente como a mesma chuva,
assim sou eu, que me derramo pelos dias,
construindo meu passado,
vendo o agora ser notícia de ontem
logo quando me distraio a pensar demais
no que vem depois.

Como a chuva que se derrama pelas calçadas,
também sou movimento que um dia cessará,
mas enquanto isso transbordo até o limite,
sou excessiva,
busco vida em cada fresta que se abre,
em cada corpo que se faz de concreto
e dureza aparente.

Sou oblíqua como estas gotas que caem surrando minha janela,
minha retidão é apenas aparente,
mas sigo sempre direções contrárias àquelas
que esperam de mim.
Eu dou a direção das minhas águas,
eu escolho onde desembocar.

Não tente me aprisionar no limite das suas mãos em concha,
conceba-me como este rio vertical que só quer correr livre.
Então beba de mim, sacie-se,
carregue no seu sangue um pouco de minhas águas,
mas não queira ser as margens que limitam os meus braços.
Pois sou esta chuva oblíqua, que molha e acarinha sua carne,
que se faz beber pela sua língua fibrosa,
mas que nem sempre cai vertical,
da mesma forma, na mesma direção.
Sou a chuva que descarta qualquer retidão,
que cai livre e que nunca mais será a chuva
que você vê agora.
Serei sempre uma queda diferente.

 

Terra-carne e semente

February 7, 2008 por jana

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(Imagem: Janaína Calaça)

Hoje eu rasgo, semente, essa terra-carne
que me cobre olhos e narinas.
É hora de crescer,
ele me disse sem mexer os lábios,
e eu apenas sujei minhas mãos de vida.

É hora de crescer, baby.
O óbvio por ser explícito demais é posto de lado
como constatação menor,
mas não é.
E eu sujei ainda mais minhas mãos de vida.

Então ele foi arrancando as rodas da bicicleta velha
e me fez andar só, por mais que as quedas viessem,
por mais que a carne doesse,
por mais que eu pedisse pra parar.
A dor é fina, mas um dia passa,
nada permanece tão igual,
nem aquilo que fere.

Então eu quis rasgar a terra-carne de uma vez só,
e ele me disse, sem mexer os lábios,
que basta receber a primeira gota de luz,
que o restante vem com o tempo.
Tudo é produto do impulso primeiro,
das mãos cruzadas por baixo dos pés finos,
a ajudar a escalada pueril das mangueiras.
Vai, ele disse,
e eu quis sujar ainda mais minhas mãos de vida.

Semente rompendo a terra,
inseto quieto rompendo casulo,
seio minando as blusas cor de infância.
É hora de crescer.
E agora que a luz já aponta, mesmo tímida,
guardo-a no meu vidro velho de perfume
e faço dela vagalume,
a me guiar no caminho para romper de vez a terra,
pra deixar de ser semente,
pra crescer e me cumprir
como filho que sou do tempo.

 

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