Arquivos dos posts

Drogaria

March 28th, 2007 by jana

Meu riso é como bala de morango,
sabor artificial,
testado em tubos de ensaio,
manipulado, dosado,
indica-contra-indicação.

Meu riso chega em pílulas coloridas,
cápsulas com cor e tamanho,
vendidas sob prescrição,
bula, indicação, uma-vez-ao-dia,
copo-gole-espera-reação.

Meu riso eu tomo em conta-gotas,
misturando gosto amargo e saliva,
esperando um brilho nascido das alterações químicas.

Eu rio e todos riem,
corpos dependentes de frascos e receitas,
dos rabiscos do médico,
da tinta azul-preta de sua caneta.

Somos corpos irradiando cores fabricadas
em laboratórios brancos entre luvas e guarda-pó,
aparando lágrimas com cápsulas abertas,
comprando felicidade em balcões.

E enquanto meus olhos não fecham,
tomo meus pontos coloridos,
para dormir, para as pernas, para o coração,
para o esquecimento, para os lamentos, para a solidão.

Tomo uma por uma,
gota a gota,
engulo tudo e espero,
a noite passar tranqüila,
o dia acordar azul,
e a vida funcionar no automático.

(Publicado em 15 de setembro de 2006 no Noturnando)

Arquivos dos posts

O Civilizados está de volta!

March 27th, 2007 by jana

d_civilizados.gif

 

O Civilizados, o blog do Selva voltado para colaboradores, está oficialmente de volta, já com um novo texto para ser devorado, ou melhor, degustado, porque os civilizados usam mais de cinco pares de talheres, guardanapos de linho e pelo menos três taças, enquanto nós devoramos mesmo com as mãos e limpamos a sujeira no colarinho das túnicas.

Você é nosso leitor e quer se tornar nosso colaborador? Então mande seu texto para o endereço civilizadosnaselva@gmail.com

Enquanto isso, passe lá e veja o que está sendo produzido do outro lado da jaula.

Beijos

Jana

Arquivos dos posts

Happy hour

March 24th, 2007 by jana

Não sou mulher de frequentar happy hours. Nada que seja sorridente demais me atrai. Aliás eu tenho um lema: “Cuidado com os excessivamente felizes”. Eles sorriem demais, cospem demais enquanto sorriem e toda aquela saliva vai parar em dois lugares certamente: ou no meio da sua cara ou no seu copo de vodka. Quando você trabalha no entanto em um lugar em que as pessoas estabeleceram que nas sextas-feiras todos precisam estar excessivamente sociáveis e com uma predisposição acima de 70% para o agrupamento em bandos, eu não tive muita escolha. Durante anos eu consegui me livrar destes encontros naturalmente forçados usando diversas desculpas e um pouco da experiência teatral herdada da observação das novelas mexicanas. Eu poderia muito bem escrever um manual extenso do tipo “69 maneiras de você se livrar do efeito Happy Hour”. Você, caro leitor, pode ter uma crise de baço quando der cinco e trinta da tarde. Além do mais você pode assassinar ficcionalmente (óbvio) vários parentes, inclusive aqueles distantes. Só tome cuidado para não repetir o óbito, porque acredite… Sempre há alguém que presta atenção às coisas que você diz, inclusive às suas desculpas. Já fugi desses encontrões usando desculpas como por exemplo: minha hamster vai parir e eu vou ser a parteira. Como eu sei que ela vai parir hoje? Eu sei e pronto! Há também as desculpas de cunho afetivo. Meu ex marido me ligou e disse que a atual mulher dele enfeitou sua calva cabecinha com uma fileira de galhas. Por que eu não vou com vocês? Prefiro comemorar este evento sozinha com minha hamster. Mas houve um dia, no entanto, que nada disso, por mais convicente que tenha sido, conseguiu me livrar de uma maravilhosa noite regada a cerveja barata e a amendoim torrado. Eu até resisti, mas algo foi mais forte do que eu. Para ser mais exata a culpa foi do meu estagiário, que há alguns meses atrás estava sofrendo crises devido à praga do politicamente correto e que agora resolveu querer me salvar da minha crise anti-social.

O grupo era composto de mais ou menos umas doze pessoas, contando com a desesperada mulher que vos fala. O primeiro grande problema que atinge a maior parte dos Happy Hours é que ninguém sabe dizer para onde todos irão. Um sugere um barzinho da moda, outro sugere uma bodega decadente que fica quase na fronteira com outro estado. No fim, todos decidem ir ao bar que fica a um quarteirão do trabalho.

Depois da confusão de para-onde-vamos-finalmente, conseguimos chegar ao tal bar. O bar era até interessante, se não fosse a disposição das mesas. Não sei se o dono do lugar tinha como objetivo principal a interatividade entre os clientes, mas o fato é que para poupar espaço e dobrar a capacidade da casa para os clientes, as mesas estavam tão grudadas umas nas outras, que eu precisei encolher minha bunda para passar entre uma mesa e outra. Sei que encolher a bunda parece algo improvável, mas você certamente nunca passou então por situações constrangedoras que te fizeram inovar até seus mais sólidos conceitos. Pedimos uma mesa para doze, mas o garçom só conseguiu para o oito, o que significa que quatro de nós acabou sendo instalado com a perna da mesa entre as pernas, nada obviamente confortável. Eu fui uma das felizes congratuladas com este presente dos deuses. Sentei e mal consegui esticar o braço para mexer na bolsa, à procura de um lugar onde pôr minha cara e minha impaciência.

O segundo grande problema é decidir o que vai ser consumido. O esquema é mais ou menos o seguinte: é mais fácil todos beberem cerveja e comerem amendoim, assim no fim da noite a conta é dividida igualmente e todos saem felizes. Eu, no entanto, já não bebia cerveja há anos, quando descobri que a vodka demora menos pra te fazer criar coragem pra fazer certas coisas. Pedi uma vodka e uma coca-cola. Os onze se olharam com aquele ar cúmplice de “ela fez isso para nos agredir. Ela fez isso pra mostrar que ganha mais”. Como se adivinhasse o pensamento deles, disse: “Gente, eu vou pagar minha vodka a parte, ok?”. Desconfiados, descrentes, magoados, enfiaram os dedos na vasilha de amendoim.

A conversa era interessante. Os temas variados. Os mais jovens, o que significa 95% da mesa, conversavam sobre o último jogo do time tal, dos celulares vermelhos com textura aveludada, sobre enlarguecedores de pênis e fórmulas milagrosas para fazerem sua barriga e suas celulites desaparecerem. Eu conversava silenciosamente com o ponteiro de meu relógio, que resolveu se arrastar por pura birra. Para piorar minha situação, eu sou o tipo clássico que prefere beber um copo atrás do outro para não ter que conversar ou para ter onde pôr as mãos. O garçom me trouxe cinco doses de vodka em menos de uma hora, até que tive a brilhante idéia, até o ponto que me recordo, de ir ao banheiro retocar o batom. Esta minha decisão certamente foi provocada pela pureza alcoólica de meu copo, pois em meu estado normal eu não teria me atrevido a levantar e passar por mesas que estavam tão simpaticamente grudadas umas às outras. Respirei e levantei. Alguém da mesa me olhou com uma cara de “ela vai se esborrachar no chão e eu vou rir”. Para contrariar às expectativas, consegui, meio cambaleante chegar até o banheiro sem muitos problemas. Na volta, no entanto, é que sofri o já previsível vexame. Não, não foi uma queda. Não, eu não me esborrachei no chão como em uma comédia pastelão. Estava eu, andando por linhas tortas (se Deus escreve em linhas tortas, por que eu não posso andar por linhas tortas também?), quando tive que passar pela mesa de executivos que estava logo atrás da nossa, para poder me sentar. Antes de eu ir ao banheiro, esta mesa estava ainda vazia e agora meia dúzia de engravatados se amontoavam logo atrás de nós. Fui passando de mansinho entre as cadeiras, quando consegui tropeçar no meu próprio pé. Não caí, porque obviamente não havia espaço para isso, mas minha bunda, minha bunda safra 40 anos, passou deslizando na cabeça de um jovem executivo, que obviamente não perdeu a piada. “Pô, tia, a senhora é saidinha, hein?”. Em primeiro lugar, pensei, tia é a irmã de sua mãe e em segundo lugar, vodka por favor, garçom!!! Virei a piada da mesa e antes que eu completasse uma dezena de doses de vodka, me colocaram no táxi, depois do rapazinho do tia ainda me soltar beijinhos. Eu saí do bar pisando em um chão mais distante do que meus pés podiam alcançar. Saldo da noite: saí sem pagar as vodkas, fui colocada no táxi pelo meu estagiário, que ria a cada olhada para minha cara e ainda ganhei a fama de loba, caçadora de rapazes executivos de vinte anos. Aspirinas, aspirinas, por favor!

Arquivos dos posts

Vitrine

March 22nd, 2007 by jana

meu corpo se abandona cansado
no sofá antigo e nas almofadas acumuladas,
enquanto a cidade e os outdoors me dizem
que tenho que beber coca-cola,
fazer pós-pós em teologia
e trepar em motel caro-café-da-manhã-grátis.
a cidade me diz que botas devo usar
nesse pseudo-inverno-moda-preto-veludo,
o que assistir no cinema-12-salas,
o que querer-sem-querer.
fecho os olhos,
o ônibus ainda continua entranhado
nos meus poros, no meu sexo,
na minha roupa-ponta-de-estoque,
na minha necessidade de corpo,
seja apenas esbarro,
seja apenas propósito,
seja-o-que-for-toque.
tudo o que tenho
é esse macio-tecido-sofá,
esse controle remoto violentado de dedos,
essas imagens coloridas
de homens e mulheres-manequim-loja-grife,
de bancos, títulos-de-capitalização,
de cerveja-gelada,
e de corpos
pedindo minha língua-dedos-profanação.
tudo o que tenho
é aquilo que dizem ser necessário
pra que eu considere aquilo que vivo
vida,
pra que eu não sente todas as noites aqui,
nesta arquibancada luxo-decadente,
contemplando, ombros frouxos,
todas as possibilidades-do-ser-em-liquidação.
fecho os olhos
e meus dedos tateiam a tela fria
e a lembrança-ônibus-outdoors.
abro os olhos
e minhas mãos continuam vazias,
dedos estéreis,
sem pós-pós, sexo-pago-motel-café,
sem nada deveras concreto,
só projeção-imagem
e esse querer-sem-querer-dedo-na-testa.

(Publicado em 25 de abril de 2006 no Noturnando).

Arquivos dos posts

Politicamente incorreto

March 21st, 2007 by jana

Herdei de um primo meu uma coleção de vinis e fitas VHS. Ele chegou em minha casa com duas caixas grandes e disse: “Cara, tô mudando. Arrumei um trampo fora da cidade e não tenho como levar. Cuida pra mim?”. Até hoje tento descobrir se ele me deu de presente as duas caixas ou se elas ainda esperam pelo seu D. Sebastião. Por muito tempo mantive as caixas fechadas. Deixe-as fechadas por tanto tempo que até tive que policiar meus pensamentos quando resolvi assistir a um dos vhs, onde meu primo gravou vários clips da década de 80 e 90. O clip que passava era Safety Dance do Men without hats. Um anão começa a pular na tela da minha tv de 20 polegadas e eu penso automaticamente: “Anão não, cara! Indivíduo verticalmente prejudicado”. Não, eu não sou um personagem de uma série de ficção científica. Não, eu não tenho plugs enfiados em partes do meu corpo, como ouvidos, bocas e até mesmo na minha bunda e nem meus pensamentos são exibidos em um telão no meio da cidade para que um grande irmão meta seu grande dedo em minha cara espinhenta e diga: “É indíviduo verticalmente prejudicado, seu, seu, seu portador de uma imagem alternativa”, para não dizer gordo obviamente.

Inconscientemente o anão pulando na tela da minha tv, herança de meu primo, desencadeou em mim mais uma neurose moderna ou pós-moderna. Aliás, uma das minhas grandes neuroses é decidir o que é moderno, o que é pós e se é pós mesmo. Mas deixemos esta discussão para os teóricos da academia. Não a academia de ginástica e nem a do Oscar, obviamente. Outras das minhas neuroses também é tentar não me perder nos meus pensamentos, coisa que raramente consigo. Retornando ao meu momento de epifania esdrúxula, o anão saltitante acabou despertando em mim a neurose do “seja-um-indivíduo-politicamente-correto”. Se ainda a política fosse correta, mas nem isso. Sei apenas que o meu super-ego politicamente correto começou a agir em mim como uma influência nefasta, como Anakin Skywalker, que foi sendo conduzido para o lado negro da força, ou seria o lado afro-descendente da força? Apenas lembro do indivíduo verticalmente prejudicado pulando e da minha dificuldade em não cometer gafes a partir disso.

Peguei o metrô para o trabalho e não sentei nos bancos cinzas, afinal eles são reservados para os velhinhos, as grávidas e os deficientes físicos. Piiiiiiiiiiiiiiiiiii. “Que velhinho, seu marmanjo gordo, ops, seu marmanjo portador de uma imagem alternativa?”. Apitou meu super-ego em sinal de alerta. Não são mais velhinhos, são indivíduos da melhor idade e as grávidas são gestantes. E cuidado para não cometer a gafe de oferecer seu lugar a uma portadora de imagem alternativa achando que ela é gestante.Você pode levar uma bela bolsada ou será um golpe de objeto revestido de couro na cara? Um dia eu ofereci meu lugar no metrô pra Jana, uma mina que conheci no trabalho, e ela me olhou torto achando que eu tinha chamado ela de gorda, mas eu não achei que ela estivesse grávida. Apenas quis ser educado, porra! Porra, eu não posso xingar. E se alguma criança estiver lendo este texto e se tornar um deliquente infantil por ter lido porra? Minha cabeça está doendo, meus dedos estão tensos e eu preciso de sorvete.

Minha irmã namora com um cara estrábico. Será que ainda posso dizer que ele é estrábico ou terei que chamá-lo de homem jovem com olhar desviado em 45º? Meu chefe é careca, mas tenho que pensar, pensar apenas, que ele é calvo! E aquela recepcionista cheia de curvas? Chamo de gos… Não, chamo de linda mulher dotada de curvas dignas de uma pista de automobilismo. Minhas mãos estão suando. Mudo o canal da tv e está passando uma matéria sobre as profissionais do sexo, antes garotas de programa e no tempo de meu avô, meretrizes. “Os nomes mudaram, meu filho, mas ninguém deixou de ser quem realmente é”. Meu avô me diria sorrindo, apagando o cigarro por estar no meio do shopping, tomando água com gás e não mais pinga. Ligo o ventilador e está fazendo um calor infernal, ou melhor, um calor vindo das profundezas vermelhas da crença cristã. Os nomes mudam, mas tudo continua exatamente como é. Fizeram até uma cartilha anos atrás, eu lembro. Uma cartilha politicamente correta que nos dizia como deveríamos nos referir corretamente ao outro, mas ninguém deixa de me olhar torto na catraca do ônibus, achando que vou entalar na entrada por causa da minha barriga apenas por me chamarem de indivíduo portador de uma imagem alternativa. Minha mãe toca a campainha. Sei que é ela pelos três toques contínuos. Peeeeeeeee, peeeeeeeee, peeeeeeeeeee. Não, não era meu super-ego gritando comigo. Era apenas minha mãe trazendo um bolo de milho. “Tava dormindo, filho?”. “Acho que sim”. O anão já tinha parado de pular e ninguém em sã consciência vai mudar o título de Branca de Neve e os Sete Anões para Branca de Neve e os Sete indivíduos verticalmente prejudicados. Agora toca Like a virgin na tv e eu como o bolo de milho. A cartilha não vingou e eu continuo portador de uma imagem alternativa, ou melhor, gordo. Perguntei a minha mãe sobre meu primo D. Sebastião e ela apenas disse: “Ah, filho. Joga essas tralhas fora. Teu primo não vai vir buscar esse lixo não”. “Tá, mãe. Vou vender no sebo então e ganhar em cima da reciclagem”.

Arquivos dos posts

Simbiose

March 15th, 2007 by jana

onibus1.jpg

Fonte

O sexo e o nariz alimentam uma relação simbiótica. Eu só havia pensado nisso depois que ela desceu do ônibus. Meus pés estavam cansados. Sentei em um assento para idosos. Idosos de alma valem? Sentei do mesmo jeito. Se alguém chegasse e se seus pés parecessem mais cansados que os meus, eu levantaria. Ou não. Na verdade, não levantei.

Atrás de mim, uma senhora carregava um ramo e cantava algo como “Jesus é maravilhoso e olha por mim”. Como ela sabia que Jesus olhava para e por ela, se era cega? Notei pela muleta e pelas mãos estendidas, tocando o nada. Ignorei. Abri meu saquinho de jujubas. Dois por cinqüenta centavos. Sou trouxa, mas ganhei minha jujuba. Um rapaz senta ao meu lado com sua caneta azul e seu lápis verde. Eu não pensava em nada. Ela chegou e parou ao meu lado. Quando estamos sentados, o sexo do outro interage com o nosso nariz. Falo por mim, que sou baixa e tal. Blusinha preta, decote proposital, casaquinho jeans para disfarçar o decote proposital. Saia jeans, com rasguinho fechado por zíper de strass. Saia curta. Pernas. Salto. E o cheiro de sexo, apagando o perfume. Era o tipo de mulher clichê, que passa e desloca atenção e cria volumes. Sempre acreditei que o cheiro de sexo não tem sexo. É cheiro apenas.

Virei o nariz para o lado do menino do lápis verde. Mas aquele cheiro de lycra molhada atravessava a saia. Ela segurava um caderno e dois livros. No outro braço, uma bolsa imitação barata. Perguntei se ela queria que eu segurasse os livros. Ela me entregou o volume como se me fizesse um favor. Aceitei.

Um caderno com paisagens paradisíacas e um livro de Direito Romano. Mais uma aspirante a advogada, que sonha vestir terninhos. O nariz e o sexo têm uma relação simbiótica. O cheiro transforma o sexo em cheiro de sexo. Tentei imaginar as possibilidades. Ela tinha saído com um cara para pagar a faculdade? Não. Geralmente, esses caras não transformam o sexo em cheiro. Pensei também no carinha do bairro. Tênis Nike e boné. Talvez. Quem sabe também aquele era o segundo ônibus? Quem sabe no primeiro, ela estava sentada em um banco de idosos e duas pernas trouxeram o cheiro entre a ilusão da roupa. Não sei.

O cheiro do e de sexo transformaram meu sexo em cheiro. Não podia levantar mais. Se entrasse um idoso, eu não levantaria. Eu tinha a desculpa dos pés cansados e de minha jujuba inacabada. Cheiro de sexo não tem sexo. Os livros estavam assentados nas minhas pernas. Meus dedos começaram a deslizar para dentro do livro de Direito Romano. Ela me olhou de um jeito estranho e eu percebi que estava atravessando um livro com minha mão. Recuei. Não toquei mais nos livros. Fiquei pensando que se eu escrevesse um conto sobre isso, provavelmente diria que meus dedos tocavam o meu sexo por debaixo do livro de Direito Romano, mas eu apenas introduzi meus dedos nas páginas das verdades questionáveis.

O trajeto não era longo, mas a lógica do transporte coletivo urbano era estranha. Se seguíssemos por linhas retas, eu chegaria em casa sem ter que visitar quase todo o centro da cidade. Ela pediu os livros e saiu. Desceu com seu gloss nos lábios, com seu salto e seu casaquinho jeans, terceira pele que escondia o decote pensado distraidamente. Ela desceu e deslocou as atenções. Riso de canto de lábio. O menino do lápis verde acompanhava com os olhos o tipo de mulher que nunca teria nas mãos. Ele chegaria em casa, tocaria uma e dormiria seu sono relaxado. Eu levantei apenas quando o ponto chegou. O cheiro de sexo transformou o sexo em cheiro. Banho, sabão e dedos.

(Texto publicado em 5 de abril de 2006, no Brutti).

Arquivos dos posts

Língua

March 14th, 2007 by jana

vejo você chegar
com todo seu poliglotismo-de-boutique,
fabricado em curso-por-correspondência
ou nas suas aulas de três-aulas-preço-de-uma,
que você frequenta com caderno-caneta-roupa escolhidos,
achando tudo muito promissor.

eu passo a língua entre os dentes
e digo que não há língua mais universal
e unaminamente entendida
do que a língua que mora
no céu-pátria-vermelha-fibrosa
da minha boca,
umidecendo-umidecida-salivante.

você se ofende com meu desdém necessário,
mas entende quando minha língua
força entrar pelas suas pernas,
misturando-se aos seus pêlos,
invadindo seus lábios mudos e tão vermelhos como
aqueles que formam-deformam sua boca.

minha língua, meu bem,
desconhece sintaxe,
desconhece léxico,
nunca precisou de normativização,
mas conhece todos os seus pontos de articulação,
e são neles que ela se movimenta agora.

minha língua sabe exatamente
o que dizer-silêncio-apenas-toque,
pra fazer você se diluir
em seu gozo-maquete,
em suas mãos-tensas-segurando-meus-cabelos,
em suas pernas suspensas,
em seu grito-quase-grito-abafado.

espero você chegar com seus livros,
apostilas e fitas de conversação,
tudo reunido para aliviar sua tensão-fetiche
pelas línguas articuladas de vozes-sem-rosto.

espero pacientemente cada linha preenchida a exaustão
pra depois, livros e pernas fechadas,
eu te deitar neste chão-branco-papel-caderno
e te ensinar,
com toda minha pretensão de língua única e pulsante,
a sensação, o toque, o gozo,
atravessando a pele,
sem que para isso eu precise
nomear o gozo de gozo,
o prazer de prazer,
seu sexo de sexo.

a minha língua, meu bem,
é a língua universal
de um mundo-fase que rejeita todas as formas de se nomear
aquilo que, de olhos fechados e lábios entreabertos,
sabemos-conhecemos o sentido,
desde o momento em que nossa pele reagiu aos toques mudos,
ao prazer-ignorância,
a sensação-sem-o-nome-palavra como intermédio.

a minha língua, meu bem,
é essa extensão-carne de mim,
que por ser carne,
que por sentir-doce-amargo-azedo,
deseja apenas a sua língua-certeza-qualquer sabor,
misturando-se à minha boca vazia,
ao meu ventre-pele,
ao meu sexo-seu.

(Publicado em 5 de maio de 2006 no Noturnando)

Arquivos dos posts

A dona da casa

March 12th, 2007 by jana

noturnandofinal3.JPG

Aí está a rainha do recinto de frente, com toda a voluptuosidade das damas renascentistas!

Ilustração de Carol Custódio (Canunina para os íntimos) ;) .

Arquivos dos posts

Casa de Burlesco ou as três gerações imobiliárias

March 12th, 2007 by jana

Para Lika*, Nando e Carol (pela ilustração hilária!)



Você nota que ficou velha quando percebe que acompanhou as três gerações de um mesmo lugar. Não era o cansaço nos pés, apertados naquele sapato de bico fino, que faziam os dedos interagirem entre si mais que o normal. Não era a camada a mais de pó compacto que eu já usava há algum tempo pra disfarçar as marcas de expressão, que as companhias de cosméticos faziam aparecer na sua cara desde os quinze anos de idade de tanto te pregarem sustos. “Você vai envelhecer, você está envelhecendo, você estará envelhecendo (gerundismo by telemarketing)”. Porra, eu envelheço desde o dia que virei feto, ok? Portanto, não me encha o saco com suas quarentonas cleans. Sou uma quarentona que jamais usará tons pastéis. Sou uma quarentona de gênio e de cores fortes.

Eu tinha ido no centro resolver uns problemas no banco. Os bancos são centros da delicadeza na hora que abrimos uma conta, mas depois que a lua de mel passa, os bobbies aparecem e a calcinha furada também. Lá fui eu me tornar mártir na fila e pagar meus pecados com os mesmos juros de um empréstimo com agiotas. Sentei e esperei. A atendente mandou eu pegar uma senha. Minha senha tinha três números e a senha que estava no quadro tinha dois apenas e estava bem distante da minha. Esperei um tempo até que me convenci de que dar uma volta seria mais coerente, mesmo com aqueles sapatos de bico fino. Eu só aparecia no centro quando apareciam problemas que não se resolvem remotamente. Era digital. Sei…

O sapato apertava o pé e eu descia a rua com os passos curtos. Uma queda, além de ser um vexame dispensável, arruinaria minha coluna torta. Passos curtos então. Uns bares com paredes de azulejo branco-encardido-muito-encardido estavam servindo churrasco grego por um real com suco. Os vendedores ambulantes vendiam suas falsificações de Prada e o sol apostava silenciosamente comigo que faria meu cérebro cozinhar. Umas mulheres com calças coladas ao cubo estavam encostadas nas paredes externas dos bares. Olhei demoradamente para uma menina de cabelos cacheados. Sim, uma menina. Ela olhou pra mim maliciosa. “Tia, quer foder?” Sim, minha filha, mas não com você. Dá até rima. Continuei andando. Não queria ir para a sombra, porque tropeçaria nas putas ou levaria porrada de algumas delas que achassem que eu queria roubar seus respectivos pontos. Não queria ficar no Banco, sentada, esperando Godot ou pela senha. Mas também não queria passear debaixo daquele sol. Típico de uma geração que sabia o que queria e depois se perdeu nos planos e nas ideologias. Continuava andando, quando ouvi uns gritos exaltados. Já fazia algum tempo que eu não passava na frente daquele prédio e foi aí que percebi que estava mesmo velha.

O prédio já estava na sua terceira geração utilitária. A primeira geração tinha sido a de um cinema grandioso, que reunia os intelectuais barbudos e cabeludos da época. Hoje eles continuam barbudos, mas a maioria corta os cabelos e faz pedicure e manicure ou morreu de úlcera ou de problemas cardiovasculares. Com a invenção segura do shoppings centers, os cinemas grandiosos foram entrando em decadência, até que foram adaptados para o pessoal do sexo “all by myself”. Algumas destas meninas, não exatamente estas, que agora estão encostadas nas paredes externas dos bares que servem churrasco grego, um dia já atenderam seus clientes dentro destes cinemas ou continuam atendendo, mas nas cabines de peep show, construídas com madeirite, vidro e uns furinhos para interagir. Então agora eu estava diante da terceira geração da reciclagem imobiliária. Eu ouvia os gritos, quando voltei a mim do meu passeio temporal pela história concisa do antes-cinema-depois-puteiro e percebi que já estava dentro daquele lugar, que agora era todo branco, cheio de cadeiras de plástico e de pessoas sentadas olhando para a figura que gritava. Algumas pessoas olharam para mim e cochichavam. Sim, eu sou pecadora. Sim, eu como carne vermelha e trepo. Pelo menos uma vez por mês. Sentei constrangida. Não podia sair sem chamar mais atenção do que já havia chamado. Resolvi ficar. Apesar dos gritos, apesar dos hinos, lá tinha sombra e minha senha estava distante demais da realidade do quadro digital. Foi aí que se deu o ápice do meu dia. Era o dia do descarrego, da descarga, do livramento, do sei-mais-o-que, quando o Mr. Louvor arrastou quatro pessoas lá pra o palco e começou o exorcismo dos demônios. Eu tenho uma teoria de que eles devem comprar os demônios a quilo ou que deve existir uma distribuidora expresso do tinhoso responsável pelo abastecimento. Tudo corria bem na perspectiva do Mr. Louvor e do público, três dos quatro demônios já tinham ido dormir nas profundezas do assoalho da igreja, quando o quarto demônio resolveu não dar o ar de sua graça. O pastor suava empurrando a cabeça da mulher pra baixo. “Responde, demônio. Respondeeeeeeeeeee”. Silêncio. “Respondeeeeeeee”. Silêncio. E eu lá estudando maneiras de sair dali sem ser percebida. “Fale, filho das profundezas vermelhas. Faleeeeeeee”. Silêncio. Até que o pastor cansado olhou para os fiéis. O silêncio foi geral. Ele ergueu o dedo para a mulher, que já devia ter um milk-shake no lugar dos miolos na cabeça, e disse: “Demônio surdo-mudo, liberte essa mulheeeeeeeeeer”. Não deu. Eu até tentei, eu até travei os dentes na hora, mas não deu. Minha risada encontrou o eco do antigo cinema, puteiro, agora igreja e alcançou o pastor. Todos olharam para mim e neste momento, antes de ser convocada a um exorcismo de brinde, eu alcancei as portas da igreja.

Consegui me afastar o máximo que pude da entrada da igreja. Algumas pessoas que estavam perto da porta ainda olhavam para trás e para mim. Olhei para o relógio e já havia passado mais de uma hora desde que saí do banco. Na verdade, passaram-se décadas. Eu me vi em uma das cadeiras do cinema, assistindo filmes de arte para parecer séria. Eu me vi passando na frente do cinema e rindo dos homens que entravam sozinhos com suas mãos. Um daqueles homens, que hoje estavam lá louvando ao divino, poderia ter sido um frequentador, hoje arrependido, das cadeiras do Cine-Casa de Burlesco, assim como há possibilidade de que uma daquelas mulheres de saias longas pudesse ter sido uma das dançarinas dos peep shows da fase do mesmo recinto. Todos estavam ali para salvarem alma e corpo. Eu estava ali pela sombra. Inferno é caminhar debaixo de 34º ao meio dia. Algo perto disso é ilustração de livros de catecismo. Mas eu percebi que estava ficando mesmo velha. Vou comprar um filtro solar e tomar uma aspirina. Flashbacks são bregas e nos deixam bobos. Sou mulher de gênio e cores fortes, meu bem. Rejeito os tons pastéis e estes saudosismos melodramáticos. Quanto é mesmo aquele creme anti-rugas?

* Lika é a responsável por um dos momentos mais hilários desta crônica/conto. Obrigada, querida!