Casa de Burlesco ou as três gerações imobiliárias

March 12, 2007 por jana

Para Lika*, Nando e Carol (pela ilustração hilária!)



Você nota que ficou velha quando percebe que acompanhou as três gerações de um mesmo lugar. Não era o cansaço nos pés, apertados naquele sapato de bico fino, que faziam os dedos interagirem entre si mais que o normal. Não era a camada a mais de pó compacto que eu já usava há algum tempo pra disfarçar as marcas de expressão, que as companhias de cosméticos faziam aparecer na sua cara desde os quinze anos de idade de tanto te pregarem sustos. “Você vai envelhecer, você está envelhecendo, você estará envelhecendo (gerundismo by telemarketing)”. Porra, eu envelheço desde o dia que virei feto, ok? Portanto, não me encha o saco com suas quarentonas cleans. Sou uma quarentona que jamais usará tons pastéis. Sou uma quarentona de gênio e de cores fortes.

Eu tinha ido no centro resolver uns problemas no banco. Os bancos são centros da delicadeza na hora que abrimos uma conta, mas depois que a lua de mel passa, os bobbies aparecem e a calcinha furada também. Lá fui eu me tornar mártir na fila e pagar meus pecados com os mesmos juros de um empréstimo com agiotas. Sentei e esperei. A atendente mandou eu pegar uma senha. Minha senha tinha três números e a senha que estava no quadro tinha dois apenas e estava bem distante da minha. Esperei um tempo até que me convenci de que dar uma volta seria mais coerente, mesmo com aqueles sapatos de bico fino. Eu só aparecia no centro quando apareciam problemas que não se resolvem remotamente. Era digital. Sei…

O sapato apertava o pé e eu descia a rua com os passos curtos. Uma queda, além de ser um vexame dispensável, arruinaria minha coluna torta. Passos curtos então. Uns bares com paredes de azulejo branco-encardido-muito-encardido estavam servindo churrasco grego por um real com suco. Os vendedores ambulantes vendiam suas falsificações de Prada e o sol apostava silenciosamente comigo que faria meu cérebro cozinhar. Umas mulheres com calças coladas ao cubo estavam encostadas nas paredes externas dos bares. Olhei demoradamente para uma menina de cabelos cacheados. Sim, uma menina. Ela olhou pra mim maliciosa. “Tia, quer foder?” Sim, minha filha, mas não com você. Dá até rima. Continuei andando. Não queria ir para a sombra, porque tropeçaria nas putas ou levaria porrada de algumas delas que achassem que eu queria roubar seus respectivos pontos. Não queria ficar no Banco, sentada, esperando Godot ou pela senha. Mas também não queria passear debaixo daquele sol. Típico de uma geração que sabia o que queria e depois se perdeu nos planos e nas ideologias. Continuava andando, quando ouvi uns gritos exaltados. Já fazia algum tempo que eu não passava na frente daquele prédio e foi aí que percebi que estava mesmo velha.

O prédio já estava na sua terceira geração utilitária. A primeira geração tinha sido a de um cinema grandioso, que reunia os intelectuais barbudos e cabeludos da época. Hoje eles continuam barbudos, mas a maioria corta os cabelos e faz pedicure e manicure ou morreu de úlcera ou de problemas cardiovasculares. Com a invenção segura do shoppings centers, os cinemas grandiosos foram entrando em decadência, até que foram adaptados para o pessoal do sexo “all by myself”. Algumas destas meninas, não exatamente estas, que agora estão encostadas nas paredes externas dos bares que servem churrasco grego, um dia já atenderam seus clientes dentro destes cinemas ou continuam atendendo, mas nas cabines de peep show, construídas com madeirite, vidro e uns furinhos para interagir. Então agora eu estava diante da terceira geração da reciclagem imobiliária. Eu ouvia os gritos, quando voltei a mim do meu passeio temporal pela história concisa do antes-cinema-depois-puteiro e percebi que já estava dentro daquele lugar, que agora era todo branco, cheio de cadeiras de plástico e de pessoas sentadas olhando para a figura que gritava. Algumas pessoas olharam para mim e cochichavam. Sim, eu sou pecadora. Sim, eu como carne vermelha e trepo. Pelo menos uma vez por mês. Sentei constrangida. Não podia sair sem chamar mais atenção do que já havia chamado. Resolvi ficar. Apesar dos gritos, apesar dos hinos, lá tinha sombra e minha senha estava distante demais da realidade do quadro digital. Foi aí que se deu o ápice do meu dia. Era o dia do descarrego, da descarga, do livramento, do sei-mais-o-que, quando o Mr. Louvor arrastou quatro pessoas lá pra o palco e começou o exorcismo dos demônios. Eu tenho uma teoria de que eles devem comprar os demônios a quilo ou que deve existir uma distribuidora expresso do tinhoso responsável pelo abastecimento. Tudo corria bem na perspectiva do Mr. Louvor e do público, três dos quatro demônios já tinham ido dormir nas profundezas do assoalho da igreja, quando o quarto demônio resolveu não dar o ar de sua graça. O pastor suava empurrando a cabeça da mulher pra baixo. “Responde, demônio. Respondeeeeeeeeeee”. Silêncio. “Respondeeeeeeee”. Silêncio. E eu lá estudando maneiras de sair dali sem ser percebida. “Fale, filho das profundezas vermelhas. Faleeeeeeee”. Silêncio. Até que o pastor cansado olhou para os fiéis. O silêncio foi geral. Ele ergueu o dedo para a mulher, que já devia ter um milk-shake no lugar dos miolos na cabeça, e disse: “Demônio surdo-mudo, liberte essa mulheeeeeeeeeer”. Não deu. Eu até tentei, eu até travei os dentes na hora, mas não deu. Minha risada encontrou o eco do antigo cinema, puteiro, agora igreja e alcançou o pastor. Todos olharam para mim e neste momento, antes de ser convocada a um exorcismo de brinde, eu alcancei as portas da igreja.

Consegui me afastar o máximo que pude da entrada da igreja. Algumas pessoas que estavam perto da porta ainda olhavam para trás e para mim. Olhei para o relógio e já havia passado mais de uma hora desde que saí do banco. Na verdade, passaram-se décadas. Eu me vi em uma das cadeiras do cinema, assistindo filmes de arte para parecer séria. Eu me vi passando na frente do cinema e rindo dos homens que entravam sozinhos com suas mãos. Um daqueles homens, que hoje estavam lá louvando ao divino, poderia ter sido um frequentador, hoje arrependido, das cadeiras do Cine-Casa de Burlesco, assim como há possibilidade de que uma daquelas mulheres de saias longas pudesse ter sido uma das dançarinas dos peep shows da fase do mesmo recinto. Todos estavam ali para salvarem alma e corpo. Eu estava ali pela sombra. Inferno é caminhar debaixo de 34º ao meio dia. Algo perto disso é ilustração de livros de catecismo. Mas eu percebi que estava ficando mesmo velha. Vou comprar um filtro solar e tomar uma aspirina. Flashbacks são bregas e nos deixam bobos. Sou mulher de gênio e cores fortes, meu bem. Rejeito os tons pastéis e estes saudosismos melodramáticos. Quanto é mesmo aquele creme anti-rugas?

* Lika é a responsável por um dos momentos mais hilários desta crônica/conto. Obrigada, querida!

11 comentários

  1. Lika diz:

    Jayne! Vejo que vc entendeu bem a atmosfera de cá. Obrigada pela dedicatória, amiga. Beijos

  2. marco diz:

    jana, gata, delícia ler voc~e de novo.
    e, baby, contra o envelhecimento tem o vitabolic yeux da lancôme que ajuda um bocado!

  3. Ernesto diz:

    Que saudade de te ler, e já começou na vibe burlesca da nova casa: simplesmente histérico e delicioso o texto.

    “Sim, minha filha, mas não com você.”

    Ele é fodão, mas eu sei que sou também. rs

    Beijo!!

  4. Guto diz:

    Ô Janalinda!

    Como é bom te ler!
    Pra começar fui buscar a palavra burlesco! e vi que é isso mesmo, burlesco para bulinar ta quase ali [:P]rsrsrs
    Grande circo de vitrines coloridas,igrejas e sex- chops com porçãozinha de fritas e Catchup e churrasco grego-romano!
    Jana ótimo retorno!
    Tomara q a cerveja dessa casa burlesca não seja cara!
    beijao! Guto

  5. L. F. Calaça diz:

    “Moça, quer fuder”. Sim, mas não com você. Ai ai, o Anhangabaú! E as putas loiras retirantes. (Prefiro michês!)

    A vida virando história. Mas seria legal vê-la sendo atacada por evangélicos neo-pentecostais exorcistas.

    Lembrei-me de AMARELO MANGA e a puta velha com seu balão de oxigênio entre as pernas.

  6. fao diz:

    eu tomo aspirinas…rs

  7. Emília diz:

    Jana , parabéns pelo seu texto beijossssssssssssssssssssss

  8. Andressa diz:

    ;)mulher de gênio e de cores fortes… seu texto me arrancou boas risadas, rs.

    Beijo!

  9. nana diz:

    sem fôlego estou cá!
    amo.

    será que eu vou ganhar uma casa bonito assim tumém? hihi

  10. Casa de Burlesco » Blog Archive » Delírios de uma quarentona em perigo em “A academia” diz:

    […] Delírios de uma quarentona em perigo em “A academia” Setembro 20, 2007 por Janaína Calaça Ela havia aposentado os saltos. Sabe como é? O joanete doía. Entrou em uma de naturebalizar a vida. Sim, a nossa diva, protagonista de “Casa de Burlesco ou as três gerações imobiliárias” e “Happy Hour“, volta com tudo depois de uma consulta alarmante ao seu médico. Matrícula na academia, fibras em excesso e água suficiente para matar a sede do sertão? Use seu liquidificador mais vagabundo, bata tudo e veja no que deu. […]

  11. Regina Benvenuto diz:

    muito bom, me diverti um bocado, até parecia que via Jana relatando tudo de perto, com seu sotaque rasteiro.

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