Língua
vejo você chegar
com todo seu poliglotismo-de-boutique,
fabricado em curso-por-correspondência
ou nas suas aulas de três-aulas-preço-de-uma,
que você frequenta com caderno-caneta-roupa escolhidos,
achando tudo muito promissor.
eu passo a língua entre os dentes
e digo que não há língua mais universal
e unaminamente entendida
do que a língua que mora
no céu-pátria-vermelha-fibrosa
da minha boca,
umidecendo-umidecida-salivante.
você se ofende com meu desdém necessário,
mas entende quando minha língua
força entrar pelas suas pernas,
misturando-se aos seus pêlos,
invadindo seus lábios mudos e tão vermelhos como
aqueles que formam-deformam sua boca.
minha língua, meu bem,
desconhece sintaxe,
desconhece léxico,
nunca precisou de normativização,
mas conhece todos os seus pontos de articulação,
e são neles que ela se movimenta agora.
minha língua sabe exatamente
o que dizer-silêncio-apenas-toque,
pra fazer você se diluir
em seu gozo-maquete,
em suas mãos-tensas-segurando-meus-cabelos,
em suas pernas suspensas,
em seu grito-quase-grito-abafado.
espero você chegar com seus livros,
apostilas e fitas de conversação,
tudo reunido para aliviar sua tensão-fetiche
pelas línguas articuladas de vozes-sem-rosto.
espero pacientemente cada linha preenchida a exaustão
pra depois, livros e pernas fechadas,
eu te deitar neste chão-branco-papel-caderno
e te ensinar,
com toda minha pretensão de língua única e pulsante,
a sensação, o toque, o gozo,
atravessando a pele,
sem que para isso eu precise
nomear o gozo de gozo,
o prazer de prazer,
seu sexo de sexo.
a minha língua, meu bem,
é a língua universal
de um mundo-fase que rejeita todas as formas de se nomear
aquilo que, de olhos fechados e lábios entreabertos,
sabemos-conhecemos o sentido,
desde o momento em que nossa pele reagiu aos toques mudos,
ao prazer-ignorância,
a sensação-sem-o-nome-palavra como intermédio.
a minha língua, meu bem,
é essa extensão-carne de mim,
que por ser carne,
que por sentir-doce-amargo-azedo,
deseja apenas a sua língua-certeza-qualquer sabor,
misturando-se à minha boca vazia,
ao meu ventre-pele,
ao meu sexo-seu.
(Publicado em 5 de maio de 2006 no Noturnando)

March 14th, 2007 at 10:39 am
2 - Jana, sempre igual, sempre QUENTE.
1 xi coração
de Portugal
March 14th, 2007 at 1:01 pm
Sua presença lá no nosso cantinho me deixou muito feliz. Gosto muito do seu texto. Seu perfil salvou o humor do meu dia. Volte sempre, moça.
March 14th, 2007 at 3:29 pm
Janis!
Que legal este foi o primeiro texto que li seu! quando te conheci!
Reler e voltar num : “oi tudo bem? prazer em conhece-lá..”
abraçao!
March 14th, 2007 at 4:13 pm
Menina, falar de prazer diante dessa ode (no bom sentido) é chover no molhado.
mas, devo falar assim mesmo do prazer de conhecer suas palavras e agradecer pela visita que além de já ser presente, veio acompanhada com o endereço do talento.
Obrigada.
beijos
March 16th, 2007 at 8:49 pm
Boa Jana, ouviu o apelo aqui..rs.. Como sempre, ótima.. O prazer, a delicia da luxúria no viver!!!