Língua

March 14, 2007 por jana

vejo você chegar
com todo seu poliglotismo-de-boutique,
fabricado em curso-por-correspondência
ou nas suas aulas de três-aulas-preço-de-uma,
que você frequenta com caderno-caneta-roupa escolhidos,
achando tudo muito promissor.

eu passo a língua entre os dentes
e digo que não há língua mais universal
e unaminamente entendida
do que a língua que mora
no céu-pátria-vermelha-fibrosa
da minha boca,
umidecendo-umidecida-salivante.

você se ofende com meu desdém necessário,
mas entende quando minha língua
força entrar pelas suas pernas,
misturando-se aos seus pêlos,
invadindo seus lábios mudos e tão vermelhos como
aqueles que formam-deformam sua boca.

minha língua, meu bem,
desconhece sintaxe,
desconhece léxico,
nunca precisou de normativização,
mas conhece todos os seus pontos de articulação,
e são neles que ela se movimenta agora.

minha língua sabe exatamente
o que dizer-silêncio-apenas-toque,
pra fazer você se diluir
em seu gozo-maquete,
em suas mãos-tensas-segurando-meus-cabelos,
em suas pernas suspensas,
em seu grito-quase-grito-abafado.

espero você chegar com seus livros,
apostilas e fitas de conversação,
tudo reunido para aliviar sua tensão-fetiche
pelas línguas articuladas de vozes-sem-rosto.

espero pacientemente cada linha preenchida a exaustão
pra depois, livros e pernas fechadas,
eu te deitar neste chão-branco-papel-caderno
e te ensinar,
com toda minha pretensão de língua única e pulsante,
a sensação, o toque, o gozo,
atravessando a pele,
sem que para isso eu precise
nomear o gozo de gozo,
o prazer de prazer,
seu sexo de sexo.

a minha língua, meu bem,
é a língua universal
de um mundo-fase que rejeita todas as formas de se nomear
aquilo que, de olhos fechados e lábios entreabertos,
sabemos-conhecemos o sentido,
desde o momento em que nossa pele reagiu aos toques mudos,
ao prazer-ignorância,
a sensação-sem-o-nome-palavra como intermédio.

a minha língua, meu bem,
é essa extensão-carne de mim,
que por ser carne,
que por sentir-doce-amargo-azedo,
deseja apenas a sua língua-certeza-qualquer sabor,
misturando-se à minha boca vazia,
ao meu ventre-pele,
ao meu sexo-seu.

(Publicado em 5 de maio de 2006 no Noturnando)

5 comentários

  1. ana diz:

    :) 1 - Adorei o novo visual do blog

    2 - Jana, sempre igual, sempre QUENTE. :) 1 xi coração
    de Portugal

  2. Leonardo Scartezzine diz:

    Sua presença lá no nosso cantinho me deixou muito feliz. Gosto muito do seu texto. Seu perfil salvou o humor do meu dia. Volte sempre, moça.

  3. Guto diz:

    Janis!
    Que legal este foi o primeiro texto que li seu! quando te conheci!
    Reler e voltar num : “oi tudo bem? prazer em conhece-lá..”
    abraçao!

  4. Saramar diz:

    Menina, falar de prazer diante dessa ode (no bom sentido) é chover no molhado.

    mas, devo falar assim mesmo do prazer de conhecer suas palavras e agradecer pela visita que além de já ser presente, veio acompanhada com o endereço do talento.
    Obrigada.

    beijos

  5. Jana diz:

    Boa Jana, ouviu o apelo aqui..rs.. Como sempre, ótima.. O prazer, a delicia da luxúria no viver!!!

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