Simbiose

March 15, 2007 por jana

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Fonte

O sexo e o nariz alimentam uma relação simbiótica. Eu só havia pensado nisso depois que ela desceu do ônibus. Meus pés estavam cansados. Sentei em um assento para idosos. Idosos de alma valem? Sentei do mesmo jeito. Se alguém chegasse e se seus pés parecessem mais cansados que os meus, eu levantaria. Ou não. Na verdade, não levantei.

Atrás de mim, uma senhora carregava um ramo e cantava algo como “Jesus é maravilhoso e olha por mim”. Como ela sabia que Jesus olhava para e por ela, se era cega? Notei pela muleta e pelas mãos estendidas, tocando o nada. Ignorei. Abri meu saquinho de jujubas. Dois por cinqüenta centavos. Sou trouxa, mas ganhei minha jujuba. Um rapaz senta ao meu lado com sua caneta azul e seu lápis verde. Eu não pensava em nada. Ela chegou e parou ao meu lado. Quando estamos sentados, o sexo do outro interage com o nosso nariz. Falo por mim, que sou baixa e tal. Blusinha preta, decote proposital, casaquinho jeans para disfarçar o decote proposital. Saia jeans, com rasguinho fechado por zíper de strass. Saia curta. Pernas. Salto. E o cheiro de sexo, apagando o perfume. Era o tipo de mulher clichê, que passa e desloca atenção e cria volumes. Sempre acreditei que o cheiro de sexo não tem sexo. É cheiro apenas.

Virei o nariz para o lado do menino do lápis verde. Mas aquele cheiro de lycra molhada atravessava a saia. Ela segurava um caderno e dois livros. No outro braço, uma bolsa imitação barata. Perguntei se ela queria que eu segurasse os livros. Ela me entregou o volume como se me fizesse um favor. Aceitei.

Um caderno com paisagens paradisíacas e um livro de Direito Romano. Mais uma aspirante a advogada, que sonha vestir terninhos. O nariz e o sexo têm uma relação simbiótica. O cheiro transforma o sexo em cheiro de sexo. Tentei imaginar as possibilidades. Ela tinha saído com um cara para pagar a faculdade? Não. Geralmente, esses caras não transformam o sexo em cheiro. Pensei também no carinha do bairro. Tênis Nike e boné. Talvez. Quem sabe também aquele era o segundo ônibus? Quem sabe no primeiro, ela estava sentada em um banco de idosos e duas pernas trouxeram o cheiro entre a ilusão da roupa. Não sei.

O cheiro do e de sexo transformaram meu sexo em cheiro. Não podia levantar mais. Se entrasse um idoso, eu não levantaria. Eu tinha a desculpa dos pés cansados e de minha jujuba inacabada. Cheiro de sexo não tem sexo. Os livros estavam assentados nas minhas pernas. Meus dedos começaram a deslizar para dentro do livro de Direito Romano. Ela me olhou de um jeito estranho e eu percebi que estava atravessando um livro com minha mão. Recuei. Não toquei mais nos livros. Fiquei pensando que se eu escrevesse um conto sobre isso, provavelmente diria que meus dedos tocavam o meu sexo por debaixo do livro de Direito Romano, mas eu apenas introduzi meus dedos nas páginas das verdades questionáveis.

O trajeto não era longo, mas a lógica do transporte coletivo urbano era estranha. Se seguíssemos por linhas retas, eu chegaria em casa sem ter que visitar quase todo o centro da cidade. Ela pediu os livros e saiu. Desceu com seu gloss nos lábios, com seu salto e seu casaquinho jeans, terceira pele que escondia o decote pensado distraidamente. Ela desceu e deslocou as atenções. Riso de canto de lábio. O menino do lápis verde acompanhava com os olhos o tipo de mulher que nunca teria nas mãos. Ele chegaria em casa, tocaria uma e dormiria seu sono relaxado. Eu levantei apenas quando o ponto chegou. O cheiro de sexo transformou o sexo em cheiro. Banho, sabão e dedos.

(Texto publicado em 5 de abril de 2006, no Brutti).

5 comentários

  1. marcos pardim diz:

    oi, janaína. tenho andado meio afastado da net. mas voltar aqui hoje foi muito bom. blog de cara nova (perfeita a ilustração) e texto com a sua inconfundível e talentosa assinatura feita de sarcasmo@ironia@melancolia. beijo procê.

  2. carol diz:

    esse texto é muito bom, um incêndio. eu me lembro até como foi que fiquei quando li pela primeira vez.

    fiquei querendo tê-lo escrito.

    beijos e saudades…quantas saudades!

  3. Lika diz:

    “Coisinhas molhadas” huahuahuahuahuahua
    Brincadeira à parte as imagens são boas como sempre. Saudades de alguns textos seus do Brutti. Ah e preciso lhe dizer que o universo onírico (no meu caso, pelo menos)também conspira em favor para suprir as lacunas do desconhecimento existencial no campo da criação.
    Beijos, Jayne.

  4. Jana diz:

    “Mas aquele cheiro de lycra molhada atravessava a saia.”!! Jana, só você, demais!!! Eu no máximo, colocaria, uma coisa romantica, “o cheiro da rosa que me trazia, em sua gravata ficava…”…rs..!!! Bjs!!

  5. Pollan diz:

    Minha professora de direito romano usava saia, cabelo solto, um óculos de intelectual e muitos decotes. mas eu sempre dormia na aula dela.

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