Drogaria

March 28, 2007 por jana

(Ao som de Royksopp - What else is there).

Meu riso é como bala de morango,
sabor artificial,
testado em tubos de ensaio,
manipulado, dosado,
indica-contra-indicação.

Meu riso chega em pílulas coloridas,
cápsulas com cor e tamanho,
vendidas sob prescrição,
bula, indicação, uma-vez-ao-dia,
copo-gole-espera-reação.

Meu riso eu tomo em conta-gotas,
misturando gosto amargo e saliva,
esperando um brilho nascido das alterações químicas.

Eu rio e todos riem,
corpos dependentes de frascos e receitas,
dos rabiscos do médico,
da tinta azul-preta de sua caneta.

Somos corpos irradiando cores fabricadas
em laboratórios brancos entre luvas e guarda-pó,
aparando lágrimas com cápsulas abertas,
comprando felicidade em balcões.

E enquanto meus olhos não fecham,
tomo meus pontos coloridos,
para dormir, para as pernas, para o coração,
para o esquecimento, para os lamentos, para a solidão.

Tomo uma por uma,
gota a gota,
engulo tudo e espero,
a noite passar tranqüila,
o dia acordar azul,
e a vida funcionar no automático.

(Publicado em 15 de setembro de 2006 no Noturnando)

6 comentários

  1. guto! diz:

    comprimidos coloridos!
    comprimidos tarjas-pretas!
    comprimidos expandidos!
    comprimidos comprimidos!
    Dê-me um sonrisal! rsrsrs
    tomei muito comprimidos!

    beijo pra tu janalinda!

  2. DIOVVANI diz:

    Sabe esse seu poema? Está engarrafado, lá na minha árvore há muito tempo. AbraçoDasMontanhas.

  3. manoea diz:

    janaaaaa o miminho tá aqui esperando esse abraço, colorido, comprimido hehehe bjinho!

  4. ótimo... principalmente a última estrofe. perfeito. já comentei antes aqui. acho sua prosa uma coisa meio adélia prado urbana (isso é um elogio, e sim, adélia prado morava numa cidade, mas sempre me pareceu que morava num cantinho esquecido, gostoso diz:

    gostei… principalmente a última estrofe. já comentei antes aqui. acho sua prosa uma coisa meio adélia prado urbana (isso é um elogio, e sim, adélia prado morava numa cidade, mas sempre me pareceu que morava num cantinho esquecido, gostoso e sufocante de fazenda), mas é na poesia que pareces se revelar mais.

  5. Pollan diz:

    eu não tomo pontos coloridos. tenho medo que eles não passem pela garganta.

    sufocada.

  6. Andressa diz:

    adorei…
    “aparando lágrimas com cápsulas abertas,
    comprando felicidade em balcões.”

    Beijocas.

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