Drogaria
(Ao som de Royksopp - What else is there).
Meu riso é como bala de morango,
sabor artificial,
testado em tubos de ensaio,
manipulado, dosado,
indica-contra-indicação.
Meu riso chega em pílulas coloridas,
cápsulas com cor e tamanho,
vendidas sob prescrição,
bula, indicação, uma-vez-ao-dia,
copo-gole-espera-reação.
Meu riso eu tomo em conta-gotas,
misturando gosto amargo e saliva,
esperando um brilho nascido das alterações químicas.
Eu rio e todos riem,
corpos dependentes de frascos e receitas,
dos rabiscos do médico,
da tinta azul-preta de sua caneta.
Somos corpos irradiando cores fabricadas
em laboratórios brancos entre luvas e guarda-pó,
aparando lágrimas com cápsulas abertas,
comprando felicidade em balcões.
E enquanto meus olhos não fecham,
tomo meus pontos coloridos,
para dormir, para as pernas, para o coração,
para o esquecimento, para os lamentos, para a solidão.
Tomo uma por uma,
gota a gota,
engulo tudo e espero,
a noite passar tranqüila,
o dia acordar azul,
e a vida funcionar no automático.
(Publicado em 15 de setembro de 2006 no Noturnando)

March 29th, 2007 at 2:59 am
comprimidos coloridos!
comprimidos tarjas-pretas!
comprimidos expandidos!
comprimidos comprimidos!
Dê-me um sonrisal! rsrsrs
tomei muito comprimidos!
beijo pra tu janalinda!
March 30th, 2007 at 2:55 pm
Sabe esse seu poema? Está engarrafado, lá na minha árvore há muito tempo. AbraçoDasMontanhas.
March 30th, 2007 at 8:56 pm
janaaaaa o miminho tá aqui esperando esse abraço, colorido, comprimido hehehe bjinho!
March 31st, 2007 at 12:06 am
gostei… principalmente a última estrofe. já comentei antes aqui. acho sua prosa uma coisa meio adélia prado urbana (isso é um elogio, e sim, adélia prado morava numa cidade, mas sempre me pareceu que morava num cantinho esquecido, gostoso e sufocante de fazenda), mas é na poesia que pareces se revelar mais.
April 3rd, 2007 at 2:30 am
eu não tomo pontos coloridos. tenho medo que eles não passem pela garganta.
sufocada.
April 3rd, 2007 at 11:49 am
adorei…
“aparando lágrimas com cápsulas abertas,
comprando felicidade em balcões.”
Beijocas.