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É Sampa, tô voltando…

April 26th, 2007 by jana

Aprendi com o retorno que algumas coisas se confirmam e outras se perdem. Vir para minha cidade, depois de alguns meses fora, foi como reunir uma sucessão de descobertas. Descobri que sinto falta de coisas que talvez nem prestasse atenção antes, por fazer parte do meu cotidiano repetitivo. Ver o mar era um clichê e agora é uma preciosidade.

Minha rua, meu quarto velho, meus bichos, a varanda da casa, meus papéis velhos, tudo parece fazer parte de um quadro antigo, onde pintei em caos minha vida.

Lá se vou eu de novo para minha cidade nova e cinza, com a lembrança sensorial da minha família, dos amigos e das pessoas que amo. Tive dias bons, renovei o amor pelas pessoas que faziam parte dos meus dias, mas também chorei muito quieta , silenciosa, quando percebi que sim, algumas coisas se perdem. Algumas pessoas se perderem de mim. Vou deixá-las nos seus nichos, para que não sejam mais incomodadas pela minha insistência em manter as coisas como eram antes. Algumas coisas resistem ao tempo, outras não.

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Pão com goiabada e Barbie

April 23rd, 2007 by jana

chriska11.jpg

Fonte da imagem

Loiras, pernas longas e boca cor-de-rosa. Barbies. Já tive algumas dessas. Peito grande e sem bunda. American girls. Barbies.

Minha mãe nunca me deu o Bob, talvez por medo de que à noite ele saísse da caixa e me comesse. Nunca consegui explicar a ela que boneco não tem pau. Não tive o Bon, mas tive um daqueles bonecos que faziam xixi e que tinham um protótipo de “benga”. Passava algumas horas fascinada, olhando para o pau do bonequinho, que era loiro como as Barbies. Deve ser por isso que não curto nenhum dos dois. Excesso de platinados. Sai fora.

Eu estudava pela manhã e à tarde ficava em casa em ócio completo. Gostava de pão com goiabada e Vale-a-pena-ver-de-novo. Criança é foda. Criança é dublê. Criança beija porta de guarda-roupa e esfrega as coxas. Eu não era diferente.

Eu tinha um saco grande e jogava minhas bonecas, roupas e acessórios nele. Depois da novela e do pão com goiabada, eu espalhava tudo na cama de minha mãe e ía brincar. Trancava a porta do quarto e montava meu cenário. Quarto, cama, abajur. Sofá, mesa, copos. Fogão, geladeira, panelas. Minha mãe comprava o kit-Lar ou “Como fazer da sua filha uma rainha do lar: 20 lições didáticas”. Eu arrumava aquela parafernália pseudo-doméstica na cama de minha mãe e depois vestia minhas Barbies. Penteava seus cabelos, vestia suas roupinhas justinhas e calçava seus sapatinhos. Elas todas nas minhas mãos… Passivas. Seios, pernas, dedos. Tudo meu.

Arrumava as bonecas como em um ritual, pois a nudez não me excitava quando era evidente. Tinha três Barbies. Uma era loira, esportiva, macacão de lycra azul e tênis. Tinha também uma camponesa, vestido florido, cestinha e laço e uma gostosíssima, morena, sardinhas, saia de couro, botinha verde e guitarra brilhante. Tinha três Barbies, nenhum Ken e muitas tardes de Vale a pena ver de novo.

Peguei minha tesourinha de coelhinho azul sem ponta e cortei o cabelo da Barbie esportiva. Cortei. Deixei no toco. Vai puta. Vai ficar sem cabelo, vadia. Hidrocor preto. Pintei tudo e fiz um bigodinho. Deveria ter deixado sem bigode, andrógina, mas criança é foda e tem todas aquelas histórias freudianas do Édipo e tal. Ficou o bigode.

Eu era da geração Sexta Sex e Cine Privê. Assisti toda a saga de Emanuele. Emanuele na África, no Japão, no Espaço. Trens entrando em túneis, enquanto ela trepava nas cabines dos trens. Assisti até uma versão pornô da Branca de Neve e os sete anões. A Branca de Neve era negra e os sete anões tinham paus enormes. Eu era da geração televisão sem controle remoto. Eu colava no aparelho e ficava tensa com o dedo perto do botão dos canais. Qualquer passo e meu dedo ía direto na TV Educativa. Foda era quando passava da meia noite e a Educativa já estava em faixas coloridas. “Tá assistindo o que, menina?” Silêncio. “Ah, mãe… Eu gosto das cores”.

Minha mãe ainda guardava uma coleção sobre sexualidade. Coleção de capa dura vermelha e desenhos de gente trepando. A coleção ficava guardada no maleiro do guarda-roupa dos velhos. Eu subia no banquinho de madeira e todos os dias pegava um volume. Era uma coleção bem datada. Adolescentes com calças boca de sino e biquínis asa delta. Homens bigodudos, como minha Barbie esportiva. Tinha até uma mulher com as mãos sobre um tigre no verbete Zoofilia. Lembro até hoje.

Vale a pena ver de novo, Sexta Sex e Coleção-capa-dura-proibida. Eu tinha cachos e sardas. Cara de otária e cdf. Crime perfeito. Lá ia eu com meu saco de bonecas. Tirava suas roupas e deitava a moreninha de sardinhas com a bigoduda. Sem as roupas, eram seios e pernas. Os seios duros não deixavam elas se beijarem. Elas se embolavam no colchão de florzinhas rosas. Criança é dublê. Eu dirigia minhas cenas. A do bigode comia a camponesa e a da sainha de couro. Língua e mãos. Pernas embaraçadas.

Minha mãe deu minhas panelinhas e minhas bonecas. Cheguei um dia em casa e meu saco não estava mais lá. Minhas panelinhas estavam quase novas. Minhas bonecas estavam gastas e comidas. Nenhum cheiro de comidinha nas panelas. Cheiro de sexo entre as pernas de borracha. Minhas primeiras mulheres. Bocas cerradas em um sorriso passivo, seios-pedra, bunda-ausência, coxas-lisas-borracha. Minhas primeiras mulheres: silenciosas, passivas, padrão-blond. Barbies. Saudade das tardes de pão com goiabada e panelinhas.

(Texto publicado em 8 de abril de 2006 no Brutti).

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Hoje, no Brutti, “Dormência”

April 15th, 2007 by jana

brutti_topo.jpg

“Viviam como um casal comum, daqueles que passam na rua e ninguém nota que ali existia um casal, como muitos que andam por aí, sustentando laços frouxos,  seus conformismos mútuos, grandes muletas invisíveis, feitas do material mais vagabundo: a rotina de uma relação entre mudos. Viveram doze anos juntos e agora tudo se perdia(…)”.

Hoje, no Brutti , não deixem de ler “Dormência”.

Espero vocês por lá!

Abraços,

Jana

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Pelo gozo-ponto

April 13th, 2007 by jana

Cansei do quase, meu bem,
de estender os dedos-almost-toque,
de enfiar pouca língua,
de ensaiar carne-esfregando-carne-apenas,
de gastar palavras-clichês-senso-comum.

Tenho pouca paciência,
pouco tempo-horas-segundos,
poucas idéias de futuro a perder de vista,
vontades surrando o corpo no agora.

Tenho sexo inquieto,
desejo latente,
porra armazenada,
pronta pra derramar em jatos,
espaçados-brancos-opacos,
assim que você lamber a glande.

Você me mantém no vício da espera,
no jogo do mostrar-pra-imaginar,
nas falsas vestes dos pudicos,
nas mãos impedindo a entrada dos dedos,
da carne,
do esporro quente-silencioso.

Cansei de você masturbando meu sono,
estimulando meu limite nos sonhos,
lambendo minha nuca-apenas-imagem.
quero você sangrando vontades,
violentando minhas mãos com seu sexo,
silenciando minha boca
no jogo das posições invertidas.
lábios vermelhos-abertos-mudos.

Quero você celebrando o instante,
apoteose do presente-aqui,
cantando sussurros sem esperar outras vidas,
dançando em corpo e cabelos
em cima de minha pele esquecida.

Quero mamilos duros,
língua quente e dedos acordados.
quero dentes vivos mordendo as costas,
sexo roçando pernas,
olhos invadindo olhos.
Quero o seu medo guardado na cômoda,
seus limites deixados no chão,
como roupa atirada e largada,
esperando a cena seguinte,
encenando a aceitação das regras.

Quero apenas um pouco menos de talvez,
um pouco mais de entrega.
Quero esquecer deste cansaço derramado
em versos-palavras-confissões.
Quero apenas como limite
sua carne na minha,
somando por um instante
os nossos pontos de chegada,
nosso fim,
nossos silêncios sem volta.

Quero,
e rejeito o contrário,
sentir minha vida se prolongando em tempo,
somada à sua vida também fadada ao ponto.
Quero experimentar,
entre bocas-olhos-sexo,
a sensação do limite,
do daqui-não-passará.
Quero o gozo-segundo,
a vida se despejando toda
por um momento apenas,
por um breve tremer das carnes,
pelos acordes marcados pela nossa respiração.

(Publicado em 28 de junho de 2006 no Noturnando)

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Entre pernas

April 11th, 2007 by jana

Telmo - nankim e aquarela (Ilustração de Daniel Garcia)

(Ilustração de Daniel Garcia, retirada do blog Pilha errada).

A vida dele era vinil arranhado, tocando sempre-sempre a mesma canção arrastada, três notas, sem nenhuma variação de tom. A vida dele era assim: canção que de tão ouvida passava para o assovio mecânico, para a execução sem platéia atenta. Apartamento reformado, mulher modelada por bisturi, filhos na faculdade, cachorro sonolento, mastigando osso falso no canto da sala. Cenário desarmado apenas quando a mulher resolvia mudar os móveis, transformar a sala-luxo-pesado em algo clean. E o vinil continuava girando em torno de seu próprio eixo, ciclo fechado, agulha recolocada na mesma linha.

Ele pagava os retoques nos seios da mulher, na cintura, nos olhos, na boca. Quanto mais ela plastificava o corpo, menos se dava pra ele. Juventude guardada para si e para os espelhos. À noite, tocava uma no escritório, limpava os dedos e o pau e ia dormir, apagando o abajur e os olhos. Ela continuava ao seu lado, passando os cremes anti-anti e lendo as 100 maneiras de enlouquecer um homem na cama ou de como ser feliz em 10 lições rápidas.

Trabalhava ouvindo os outros. As pessoas entravam e saiam de seu consultório, derramando vidas em sua xícara de café. Bebia as lembranças dos pacientes em longos goles-sessões. Ouvia a todos, mas em casa todos pareciam ensurdecer diante dele. O silêncio fazia o som de uma colher caindo no chão soar mais estridente do que realmente é. Um dia desses, pegou a chave do carro e saiu. Foi neste dia que ele a conheceu.

Era um homem-caramujo, voltado para dentro, corpo espremido, medo de viver entre as gentes e de falar quando o assunto era ele. Foi difícil entrar lá, mas lembrava do sócio despojado dizendo que era um troço bom e que era gostoso ter um corpo e ouvidos só para ele. Nunca foi bom com as mulheres. Não sabia como começar as coisas, o que dizer, como tocar. Entrou lá cobrindo o rosto, chamando atenção pelo gesto. Falou com o outro homem e saiu com ela. Pagou caro. O homem sorriu contando as notas. Ele e ela não trocaram palavras. O único que podia falar era ele.

Entraram em um motelzinho afastado do centro. Queria evitar olhares. Carro com janelas escuras. Baixou o vidro, pegou a chave e subiu. O atendente do motel olhou estranho pra ele. No quarto, pensou em desistir, em recuar, mas ela já estava lá. Tinha gastado dinheiro e já não lembrava quando tinha trepado pela última vez. Era um corpo diferente do da mulher. Não sabia como lidar com aquele corpo estranho, mas mesmo assim, sem dizer nada, deitou na cama ao lado dela e, mesmo desajeitado, conseguiu subir nela. Tudo era diferente, inclusive a textura da buceta. Não demorou a gozar e enquanto seu corpo se desfazia em pequenas convulsões, despejava toda sua solidão branca dentro daquele corpo. Nada foi dito. Ele se lavou e lavou também o sexo dela. Deitaram novamente na cama de lençol personalizado e ele viu seu corpo magro e quieto paralelo ao corpo magro e quieto dela . Dormiu.

Ela virou dia-a-dia. Alugou um quartinho pra onde a levava todos os dias. Saía do consultório, almoçava e entre as pernas dela deixava a solidão, a mudez da mulher, a correria dos filhos, a indiferença do cachorro. Aos poucos perdeu o medo de falar com ela. Não se sentia mais tão ridículo. Começou a falar, falar, falar. Ela muda. Ela era corpo e ouvidos, mas ele não precisava mais que isso. Em casa, a mulher começou a estranhar sua ausência na hora do almoço, sua demora em chegar no consultório pela tarde. Estranhou também por ele não mais tocar suas coxas, pedindo um pouco de sua carne. Sentindo a traição, pediu conselhos às amigas. Mandaram ir atrás, seguir os passos, dar flagrante, fazer escândalo. E ela foi. Esperou ele sair do consultório ao meio dia e acompanhou seu carro. Descobriu o prédio simples de quatro andares, para onde provavelmente ele levava a outra. Passou uma semana acompanhando os passos do marido, mas ele sempre entrava no prédio sozinho. ”A vagabunda deve morar aí. Ele está sustentando uma vagabunda!!”. Queria saber como ela era, se era mais jovem, se tinha corpo bonito, dentes perfeitos. Imaginou todas as cirurgias que ele pagaria para a amante para deixá-la perfeita. Na semana seguinte, já intrigada com a situação, solvendo raiva na carne, resolveu acabar com tudo. Ia pegar o marido em flagrante, fazer cena, representar a vítima. Abram as cortinas, por favor. Luzes. 2ª chamada. Ok!

Naquele dia, ela se vestiu de vermelho. Foi vestida cantando guerra no tecido. Esperou o marido entrar, esperou alguns minutos e chegou à portaria. Deu o nome do marido, mas não disse que era sua mulher, perguntou o número do apartamento, disse ter esquecido o andar. Prédio simples, sem interrogatórios, diferente da fortaleza onde morava. Subiu. 3º andar. Parou diante da porta. Encostou o ouvido na madeira gasta e ouviu a voz do marido do outro lado. Ouvia apenas a voz dele e como ele ria. Ria musical, as notas saindo convulsivas. Não era mais o vinil arranhado.

Transbordante, a mulher, riso nervoso no rosto plastificado pelas cirurgias, tocou a campainha do apartamento. Tocou mais uma vez e mal ele abriu a porta ainda rindo, ela entrou no quarto/sala e correu para procurar a outra mulher. Ele correu e tentou impedir a mulher de ver na cama o corpo da outra, com o sexo à mostra escorrendo porra. Silêncio. Mãos tremendo. Ele de olhos baixos. Ela já começando a gritar e a esmurrar os ombros dele. A outra muda, quieta na cama. Ele caramujando, querendo se esconder. A mulher partindo pra cima da outra com as unhas. A outra muda. Nenhuma reação. Ele mudo novamente. E a mulher repetindo, já com as unhas cravadas naquela carne-ilusão: “Uma boneca, uma boneca, UMA BONECA!!!”. Ela agora o vinil arranhado, ele agora a agulha.

(Texto publicado em 23 de julho de 2006 no Brutti).

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Resposta às linhas

April 9th, 2007 by jana

espero suas linhas
com os cabelos pingando restos de shampoo barato,
com o cheiro de cigarro todo escoando pelo ralo,
com as pernas feitas à gilette de uma lâmina só,
daquelas que levam entre os pêlos pretos-naturais
o estado bruto e crespo que é minha pele à espera da tua.

meu sorriso é entrega, solto, largo,
cheio de dentes à mostra.
meu sorriso é promessa de seios e sexo abertos,
sem jogo, sem fantasia,
puro e simples como um café preto coado
e tomado aos goles em copos de vidro,
que custam apenas alguns centavos.

enquanto você despia suas cintas, meias,
batons e tinta amarela,
minhas pernas caminhavam nuas,
sem creme hidratante,
com os póros descobertos para o mundo,
receptivos à sua língua, sua saliva
e todo o branco que você guarda entre suas roupas
cuidadosamente escolhidas, lavadas e limpas.

tenho medo de trovão e cubro todos os espelhos,
cobriria todos eles mesmo se não escutasse os estrondos
e visse a luz romper o céu,
criando fendas no espaço azul-claro-escuro.
cubro os espelhos porque tenho medo da vaidade,
de me perder numa imagem
que você criou de mim,
idealizada-retocada-pura-maquiagem.

entenda você, meu bem,
que as suas bucetas milimetricamente feitas,
gastam horas para serem retocadas,
enquanto a minha te espera
como uma boca vermelha,
que aguarda o fruto maduro se dissolver entre os dentes.

entenda também, meu bem,
que meu corpo é esse mundo-limite de falhas,
que dele não espere formas harmônicas,
seios firmes e barriga reta.
meu corpo não rejeita às investidas do tempo,
nem à flacidez que os dias a ele impõe.
meu corpo apenas é essa alcova quente,
que aguarda quieto o seu,
sem esperar essas linhas que você tanto me promete.

meu corpo é esse santuário
que cheira à carne e aos meus líquidos,
que não é inércia, mas movimento.
meu corpo é essa realidade
que as suas linhas,
por mais belas e mais esteticamente perfeitas,
jamais conseguirá aprisionar.

P.S: Carol Custódio me pediu para escrever a resposta ao poema Linhas, que publiquei ano passado e aqui está.

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Linhas

April 4th, 2007 by jana

ainda vou escrever pra você,
falando sobre seu cabelo molhado
e sobre seu jeito de rir com todos os dentes à mostra.
Já despi muitas cintas, muitas meias,
muito batom e tinta amarela.
Já estoquei marcas de biquíni,
já fodi restos de creme anti-envelhecimento no rosto,
barrigas-tipo-lipoaspiração.
Você, com seu provincianismo,
com seu medo de trovão,
com seu cobrir de espelhos,
me excita mais do que bucetas
milimetricamente feitas,
decotes desenhados e perfume francês.
Gosto mesmo é dela cabeluda,
sem retoques, sem perfume.
Só seu cheiro de banho,
seu sabonete de setenta e nove centavos,
suas mãos reticentes,
e sua boca ferida
pela minha impaciência.

(Publicado em 25 de abril de 2006 no Noturnando).

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Dogging peep show

April 2nd, 2007 by jana

peepshow92778kx.jpg
Fonte

Menina-peep-show, corpo todo pose-click, uns dedos no cabelo, um biquinho-beijo, olhar lânguido, pose de puta, às vezes ninfeta, querendo ser musa Nabokov. A janela do quarto era palco. A janela do quarto lilás, cheio de fotos suas espalhadas pelas paredes, de ursinhos que ela guardava entre as pernas, fazendo o vizinho do 1502, do prédio tom pastel ao lado, cansar as mãos e economizar no Pay-per-view pornô. Menina-peep-show pega a mochilinha da Hello Kitty, veste a blusinha da Betty Boop, deixando a barriguinha malhada com piercing de pedrinhas e a tatoo da moda, estrelinhas e flores, aparecerem e desaparecerem no andar ritmado do pé-pós-pé tipo model. Menina-peep-show vai mergulhar o corpo na pista de dança, na noite-neon, na música alta e nos olhos dos homens, que malham a semana inteira para mostrar o abdômen definido debaixo da blusa de grife e do correntão brilhante. E ela chega e se espalha.

Ela pega o drink colorido no bar, um azul brilhante que combina com as pedrinhas do piercing. Puxa um cigarro, faz cara séria, vira luminária, atrai os olhares-insetos, uns olhares sugados pelo brilho e que morrem na proximidade do corpo da menina. Um a um ela vai dispensando. Ela quer o melhor. Ela quer o resultado da seleção natural, como na matéria da escola, que ela ouvia mascando chiclete e ajeitando a franja, só para ver o professor suar mais que o normal. Ele chega. Ela sabe que é ele. O corpo todo agora é uma ondulação. Ele é todos dedos na cintura e nos cabelos dela. Língua-língua. Goles no azul. Língua-língua. Eles saem da pista.

Ele tira as chaves do bolso, olha na direção das mesas. Os amigos levantam o dedo. Uns risinhos sacanas. A menina vai na frente. Ele paga as comandas e os dois vão para o carro. Estacionamento-motel, meio drive-in. O que se passa nas janelas dos carros são os filmes, algo meio 3-D, com a diferença da interatividade. Quem está ali sabe o que quer e quem não sabe descobre. A blusinha Betty Boop ela guarda no volante. Ele já é um pau descoberto, só esperando por ela. Língua-mamilo. Sexo-sexo. Ela fazendo gemido-teatro, cara de uoww e ele lá, com ela em cima rebolante. Umas sombras do lado de fora. Umas mãos pedindo para ele baixar o vidro. Ele liga o carro e o vidro desce. Os amigos, olhares insetos, vieram atraídos pelo corpo-neon. “Curte dogging?”. “Que?”. “Relaxe”.  Os vidros abertos, os dois amigos, um em cada janela, esperando a menina-peep-show deixar as reticências no porta luvas. Ela aceita, sem saber o que é. Amanhã vai no google e descobre. As calças abertas, paus e mãos livres. “É só pra olhar, né?”. Ele não responde, ela então continua. Um formigamento na barriga. Queria agora a cama e o edredom, mas continua. Os amigos deles pedem pra tocar. Ela deixa. O formigamento na barriga aumenta. Ele dentro dela, as mãos do outro nos seus seios, a mão do terceiro sacando uma máquina-digital-filmadora sem ela ver. Ela está de olhos fechados. Prefere não ver que os outros todos estão com os olhos e as mãos nela. E o terceiro vai gravando, enquanto a outra mão desliza no pau. Aquele que é o palco suporte das rebolações da menina goza. Aquele que toca os seios da menina goza. E tudo vai se desmanchando em branco, menos ela, que agora é toda formigamentos.

A menina-peep-show abre os olhos e pede a camiseta da Betty Boop. Veste. Finge confiança, não percebe a máquina sendo guardada rapidamente. Zíper fechado um por um, os amigos desaparecem, retornando ao bar-lounge-boate. Ela pega a mochilinha Hello Kitty, desce do carro e finge não estar à procura de um taxi, mas logo que avista o primeiro, entra, diz o endereço, engole choro, desce, paga e se joga no edredom com flores em alto relevo. Amanhã a menina acorda e o dogging vai parar na busca do google. Enquanto isso, horas mais tarde, o do zíper-máquina-mão passa o filminho caseiro para o pc e a menina agora dança suor, uma atração a mais para download, estrela de um dia no Youtube. A cortina do quarto agora dorme fechada.

(Texto publicado em 27 de agosto de 2006 no Brutti).