Entre pernas

April 11, 2007 por jana

Telmo - nankim e aquarela (Ilustração de Daniel Garcia)

(Ilustração de Daniel Garcia, retirada do blog Pilha errada).

A vida dele era vinil arranhado, tocando sempre-sempre a mesma canção arrastada, três notas, sem nenhuma variação de tom. A vida dele era assim: canção que de tão ouvida passava para o assovio mecânico, para a execução sem platéia atenta. Apartamento reformado, mulher modelada por bisturi, filhos na faculdade, cachorro sonolento, mastigando osso falso no canto da sala. Cenário desarmado apenas quando a mulher resolvia mudar os móveis, transformar a sala-luxo-pesado em algo clean. E o vinil continuava girando em torno de seu próprio eixo, ciclo fechado, agulha recolocada na mesma linha.

Ele pagava os retoques nos seios da mulher, na cintura, nos olhos, na boca. Quanto mais ela plastificava o corpo, menos se dava pra ele. Juventude guardada para si e para os espelhos. À noite, tocava uma no escritório, limpava os dedos e o pau e ia dormir, apagando o abajur e os olhos. Ela continuava ao seu lado, passando os cremes anti-anti e lendo as 100 maneiras de enlouquecer um homem na cama ou de como ser feliz em 10 lições rápidas.

Trabalhava ouvindo os outros. As pessoas entravam e saiam de seu consultório, derramando vidas em sua xícara de café. Bebia as lembranças dos pacientes em longos goles-sessões. Ouvia a todos, mas em casa todos pareciam ensurdecer diante dele. O silêncio fazia o som de uma colher caindo no chão soar mais estridente do que realmente é. Um dia desses, pegou a chave do carro e saiu. Foi neste dia que ele a conheceu.

Era um homem-caramujo, voltado para dentro, corpo espremido, medo de viver entre as gentes e de falar quando o assunto era ele. Foi difícil entrar lá, mas lembrava do sócio despojado dizendo que era um troço bom e que era gostoso ter um corpo e ouvidos só para ele. Nunca foi bom com as mulheres. Não sabia como começar as coisas, o que dizer, como tocar. Entrou lá cobrindo o rosto, chamando atenção pelo gesto. Falou com o outro homem e saiu com ela. Pagou caro. O homem sorriu contando as notas. Ele e ela não trocaram palavras. O único que podia falar era ele.

Entraram em um motelzinho afastado do centro. Queria evitar olhares. Carro com janelas escuras. Baixou o vidro, pegou a chave e subiu. O atendente do motel olhou estranho pra ele. No quarto, pensou em desistir, em recuar, mas ela já estava lá. Tinha gastado dinheiro e já não lembrava quando tinha trepado pela última vez. Era um corpo diferente do da mulher. Não sabia como lidar com aquele corpo estranho, mas mesmo assim, sem dizer nada, deitou na cama ao lado dela e, mesmo desajeitado, conseguiu subir nela. Tudo era diferente, inclusive a textura da buceta. Não demorou a gozar e enquanto seu corpo se desfazia em pequenas convulsões, despejava toda sua solidão branca dentro daquele corpo. Nada foi dito. Ele se lavou e lavou também o sexo dela. Deitaram novamente na cama de lençol personalizado e ele viu seu corpo magro e quieto paralelo ao corpo magro e quieto dela . Dormiu.

Ela virou dia-a-dia. Alugou um quartinho pra onde a levava todos os dias. Saía do consultório, almoçava e entre as pernas dela deixava a solidão, a mudez da mulher, a correria dos filhos, a indiferença do cachorro. Aos poucos perdeu o medo de falar com ela. Não se sentia mais tão ridículo. Começou a falar, falar, falar. Ela muda. Ela era corpo e ouvidos, mas ele não precisava mais que isso. Em casa, a mulher começou a estranhar sua ausência na hora do almoço, sua demora em chegar no consultório pela tarde. Estranhou também por ele não mais tocar suas coxas, pedindo um pouco de sua carne. Sentindo a traição, pediu conselhos às amigas. Mandaram ir atrás, seguir os passos, dar flagrante, fazer escândalo. E ela foi. Esperou ele sair do consultório ao meio dia e acompanhou seu carro. Descobriu o prédio simples de quatro andares, para onde provavelmente ele levava a outra. Passou uma semana acompanhando os passos do marido, mas ele sempre entrava no prédio sozinho. ”A vagabunda deve morar aí. Ele está sustentando uma vagabunda!!”. Queria saber como ela era, se era mais jovem, se tinha corpo bonito, dentes perfeitos. Imaginou todas as cirurgias que ele pagaria para a amante para deixá-la perfeita. Na semana seguinte, já intrigada com a situação, solvendo raiva na carne, resolveu acabar com tudo. Ia pegar o marido em flagrante, fazer cena, representar a vítima. Abram as cortinas, por favor. Luzes. 2ª chamada. Ok!

Naquele dia, ela se vestiu de vermelho. Foi vestida cantando guerra no tecido. Esperou o marido entrar, esperou alguns minutos e chegou à portaria. Deu o nome do marido, mas não disse que era sua mulher, perguntou o número do apartamento, disse ter esquecido o andar. Prédio simples, sem interrogatórios, diferente da fortaleza onde morava. Subiu. 3º andar. Parou diante da porta. Encostou o ouvido na madeira gasta e ouviu a voz do marido do outro lado. Ouvia apenas a voz dele e como ele ria. Ria musical, as notas saindo convulsivas. Não era mais o vinil arranhado.

Transbordante, a mulher, riso nervoso no rosto plastificado pelas cirurgias, tocou a campainha do apartamento. Tocou mais uma vez e mal ele abriu a porta ainda rindo, ela entrou no quarto/sala e correu para procurar a outra mulher. Ele correu e tentou impedir a mulher de ver na cama o corpo da outra, com o sexo à mostra escorrendo porra. Silêncio. Mãos tremendo. Ele de olhos baixos. Ela já começando a gritar e a esmurrar os ombros dele. A outra muda, quieta na cama. Ele caramujando, querendo se esconder. A mulher partindo pra cima da outra com as unhas. A outra muda. Nenhuma reação. Ele mudo novamente. E a mulher repetindo, já com as unhas cravadas naquela carne-ilusão: “Uma boneca, uma boneca, UMA BONECA!!!”. Ela agora o vinil arranhado, ele agora a agulha.

(Texto publicado em 23 de julho de 2006 no Brutti).

3 comentários

  1. Lika diz:

    De todos os seus textos, este ainda continua sendo meu preferido. Beijos!

  2. diovvani diz:

    Com agulhas e vinis é que vou seguindo, pela trilha sonora dessa vida. Reler você é sempre bom, viu? AbraçoDasMontanhas.

  3. Sibila diz:

    bola de cristal na mão veloz da mulher vermelho. encontrei esse texto procurando imagens de “pernas” no google.
    atemporal.

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