Pelo gozo-ponto
Cansei do quase, meu bem,
de estender os dedos-almost-toque,
de enfiar pouca língua,
de ensaiar carne-esfregando-carne-apenas,
de gastar palavras-clichês-senso-comum.
Tenho pouca paciência,
pouco tempo-horas-segundos,
poucas idéias de futuro a perder de vista,
vontades surrando o corpo no agora.
Tenho sexo inquieto,
desejo latente,
porra armazenada,
pronta pra derramar em jatos,
espaçados-brancos-opacos,
assim que você lamber a glande.
Você me mantém no vício da espera,
no jogo do mostrar-pra-imaginar,
nas falsas vestes dos pudicos,
nas mãos impedindo a entrada dos dedos,
da carne,
do esporro quente-silencioso.
Cansei de você masturbando meu sono,
estimulando meu limite nos sonhos,
lambendo minha nuca-apenas-imagem.
quero você sangrando vontades,
violentando minhas mãos com seu sexo,
silenciando minha boca
no jogo das posições invertidas.
lábios vermelhos-abertos-mudos.
Quero você celebrando o instante,
apoteose do presente-aqui,
cantando sussurros sem esperar outras vidas,
dançando em corpo e cabelos
em cima de minha pele esquecida.
Quero mamilos duros,
língua quente e dedos acordados.
quero dentes vivos mordendo as costas,
sexo roçando pernas,
olhos invadindo olhos.
Quero o seu medo guardado na cômoda,
seus limites deixados no chão,
como roupa atirada e largada,
esperando a cena seguinte,
encenando a aceitação das regras.
Quero apenas um pouco menos de talvez,
um pouco mais de entrega.
Quero esquecer deste cansaço derramado
em versos-palavras-confissões.
Quero apenas como limite
sua carne na minha,
somando por um instante
os nossos pontos de chegada,
nosso fim,
nossos silêncios sem volta.
Quero,
e rejeito o contrário,
sentir minha vida se prolongando em tempo,
somada à sua vida também fadada ao ponto.
Quero experimentar,
entre bocas-olhos-sexo,
a sensação do limite,
do daqui-não-passará.
Quero o gozo-segundo,
a vida se despejando toda
por um momento apenas,
por um breve tremer das carnes,
pelos acordes marcados pela nossa respiração.
(Publicado em 28 de junho de 2006 no Noturnando)

April 14th, 2007 at 6:13 pm
É Jana, somos assim, nós a poesia e o dia-a-dia! E ainda bem que o mundo moderniza e temos esses blogs, onde dividimos a nossa, e buscamos a dos outros…Adorei essa “sua carne na minha”…
Beijos!!!
April 15th, 2007 at 7:04 pm
Interessante a forma que você disse Jana. Essa literatura profunda, sem nojo e com vontade, é que desejo.
Abração.
Diogo.
April 16th, 2007 at 8:42 pm
Menina!!! Também queroooo hehehe. Saudade de você e dos outros selvagens. Tô tão na correria!!! Mas hoje resolvi visitar o povo. Quanta querência boa demais. Bjo
April 19th, 2007 at 6:24 pm
Ode à Dor
I
O olhar, distraído,
encantado com o brilho
da estrela morta,
insiste em retardar o fim da noite.
E, antes que o sol ameace o sonho,
adormece a carne
entre lembranças entalhadas
pelas seis vezes mil e uma noites,
espalhadas em outro tanto
de páginas rasuradas
por versos quebrados.
II
A fátua luz insistia
no ocaso dos olhares
– o titubear do adeus:
o freudiano
acordar para continuar sonhando,
o shakespeareano
dormir, sonhar talvez…
portas do labirinto do castelo
onde a face multiforme
de uma dorzinha chata e sem nome
entremeada com vozes, risos e vinhos
parece se divertir ao encarcerar
no lusco-fusco dos seus corredores
o bom, velho e (des)esperado
salto pela janela.
III
Na primeira vez que a vi
seu non-sense corroeu a, em mim,
pretensa sólida estrutura herdada.
Dentes brancos e fortes aqueles,
unhas fortes e afiadas aquelas:
marcaram a minha carne
e tatuaram em minha alma
salmos e cânticos, e fizeram-me
lacrimejar ao ler elegias de Safo,
urrar tragédias e chutar cães sarnentos.
Usei chibata e banho de salmoura
para desentranhá-la
– vade retro, Satanás, te’sconjuro Belzebu –,
e exilá-la, lá longe, onde
meus olhos não a alcancem
e sua voz não me convença
que isso é só mais um engano.
IV
Sim,
não tive pena da Dor
e a sufoquei sem piedade.
Deixei-a gemer e espernear
– criança sem palavras –
e ela uivou pra lua
como uma loba no cio.
Sem dó arranquei suas unhas e presas
e a deixei sangrando, indefesa,
à mercê de outras, famintas,
da sua espécie.
Sim,
e quando a fúria, impotente,
brotou em seus olhos
eu os furei com ferro quente.
Ó Dor, cega e muda,
por mim esquartejada
e abandonada aos cães:
não sei do seu sepulcro,
não li sua lápide
e não te ofereço nenhuma prece.