Pelo gozo-ponto

April 13, 2007 por jana

Cansei do quase, meu bem,
de estender os dedos-almost-toque,
de enfiar pouca língua,
de ensaiar carne-esfregando-carne-apenas,
de gastar palavras-clichês-senso-comum.

Tenho pouca paciência,
pouco tempo-horas-segundos,
poucas idéias de futuro a perder de vista,
vontades surrando o corpo no agora.

Tenho sexo inquieto,
desejo latente,
porra armazenada,
pronta pra derramar em jatos,
espaçados-brancos-opacos,
assim que você lamber a glande.

Você me mantém no vício da espera,
no jogo do mostrar-pra-imaginar,
nas falsas vestes dos pudicos,
nas mãos impedindo a entrada dos dedos,
da carne,
do esporro quente-silencioso.

Cansei de você masturbando meu sono,
estimulando meu limite nos sonhos,
lambendo minha nuca-apenas-imagem.
quero você sangrando vontades,
violentando minhas mãos com seu sexo,
silenciando minha boca
no jogo das posições invertidas.
lábios vermelhos-abertos-mudos.

Quero você celebrando o instante,
apoteose do presente-aqui,
cantando sussurros sem esperar outras vidas,
dançando em corpo e cabelos
em cima de minha pele esquecida.

Quero mamilos duros,
língua quente e dedos acordados.
quero dentes vivos mordendo as costas,
sexo roçando pernas,
olhos invadindo olhos.
Quero o seu medo guardado na cômoda,
seus limites deixados no chão,
como roupa atirada e largada,
esperando a cena seguinte,
encenando a aceitação das regras.

Quero apenas um pouco menos de talvez,
um pouco mais de entrega.
Quero esquecer deste cansaço derramado
em versos-palavras-confissões.
Quero apenas como limite
sua carne na minha,
somando por um instante
os nossos pontos de chegada,
nosso fim,
nossos silêncios sem volta.

Quero,
e rejeito o contrário,
sentir minha vida se prolongando em tempo,
somada à sua vida também fadada ao ponto.
Quero experimentar,
entre bocas-olhos-sexo,
a sensação do limite,
do daqui-não-passará.
Quero o gozo-segundo,
a vida se despejando toda
por um momento apenas,
por um breve tremer das carnes,
pelos acordes marcados pela nossa respiração.

(Publicado em 28 de junho de 2006 no Noturnando)

4 comentários

  1. Jana diz:

    É Jana, somos assim, nós a poesia e o dia-a-dia! E ainda bem que o mundo moderniza e temos esses blogs, onde dividimos a nossa, e buscamos a dos outros…Adorei essa “sua carne na minha”…

    Beijos!!! :)

  2. Diogo Costa diz:

    Interessante a forma que você disse Jana. Essa literatura profunda, sem nojo e com vontade, é que desejo.

    Abração.

    Diogo.

  3. manoela diz:

    Menina!!! Também queroooo hehehe. Saudade de você e dos outros selvagens. Tô tão na correria!!! Mas hoje resolvi visitar o povo. Quanta querência boa demais. Bjo

  4. Salsa diz:

    Ode à Dor

    I
    O olhar, distraído,
    encantado com o brilho
    da estrela morta,
    insiste em retardar o fim da noite.
    E, antes que o sol ameace o sonho,
    adormece a carne
    entre lembranças entalhadas
    pelas seis vezes mil e uma noites,
    espalhadas em outro tanto
    de páginas rasuradas
    por versos quebrados.

    II

    A fátua luz insistia
    no ocaso dos olhares
    – o titubear do adeus:
    o freudiano
    acordar para continuar sonhando,
    o shakespeareano
    dormir, sonhar talvez…
    portas do labirinto do castelo
    onde a face multiforme
    de uma dorzinha chata e sem nome
    entremeada com vozes, risos e vinhos
    parece se divertir ao encarcerar
    no lusco-fusco dos seus corredores
    o bom, velho e (des)esperado
    salto pela janela.

    III

    Na primeira vez que a vi
    seu non-sense corroeu a, em mim,
    pretensa sólida estrutura herdada.
    Dentes brancos e fortes aqueles,
    unhas fortes e afiadas aquelas:
    marcaram a minha carne
    e tatuaram em minha alma
    salmos e cânticos, e fizeram-me
    lacrimejar ao ler elegias de Safo,
    urrar tragédias e chutar cães sarnentos.
    Usei chibata e banho de salmoura
    para desentranhá-la
    – vade retro, Satanás, te’sconjuro Belzebu –,
    e exilá-la, lá longe, onde
    meus olhos não a alcancem
    e sua voz não me convença
    que isso é só mais um engano.

    IV

    Sim,
    não tive pena da Dor
    e a sufoquei sem piedade.
    Deixei-a gemer e espernear
    – criança sem palavras –
    e ela uivou pra lua
    como uma loba no cio.
    Sem dó arranquei suas unhas e presas
    e a deixei sangrando, indefesa,
    à mercê de outras, famintas,
    da sua espécie.
    Sim,
    e quando a fúria, impotente,
    brotou em seus olhos
    eu os furei com ferro quente.
    Ó Dor, cega e muda,
    por mim esquartejada
    e abandonada aos cães:
    não sei do seu sepulcro,
    não li sua lápide
    e não te ofereço nenhuma prece.

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