Pão com goiabada e Barbie

April 23, 2007 por jana

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Loiras, pernas longas e boca cor-de-rosa. Barbies. Já tive algumas dessas. Peito grande e sem bunda. American girls. Barbies.

Minha mãe nunca me deu o Bob, talvez por medo de que à noite ele saísse da caixa e me comesse. Nunca consegui explicar a ela que boneco não tem pau. Não tive o Bon, mas tive um daqueles bonecos que faziam xixi e que tinham um protótipo de “benga”. Passava algumas horas fascinada, olhando para o pau do bonequinho, que era loiro como as Barbies. Deve ser por isso que não curto nenhum dos dois. Excesso de platinados. Sai fora.

Eu estudava pela manhã e à tarde ficava em casa em ócio completo. Gostava de pão com goiabada e Vale-a-pena-ver-de-novo. Criança é foda. Criança é dublê. Criança beija porta de guarda-roupa e esfrega as coxas. Eu não era diferente.

Eu tinha um saco grande e jogava minhas bonecas, roupas e acessórios nele. Depois da novela e do pão com goiabada, eu espalhava tudo na cama de minha mãe e ía brincar. Trancava a porta do quarto e montava meu cenário. Quarto, cama, abajur. Sofá, mesa, copos. Fogão, geladeira, panelas. Minha mãe comprava o kit-Lar ou “Como fazer da sua filha uma rainha do lar: 20 lições didáticas”. Eu arrumava aquela parafernália pseudo-doméstica na cama de minha mãe e depois vestia minhas Barbies. Penteava seus cabelos, vestia suas roupinhas justinhas e calçava seus sapatinhos. Elas todas nas minhas mãos… Passivas. Seios, pernas, dedos. Tudo meu.

Arrumava as bonecas como em um ritual, pois a nudez não me excitava quando era evidente. Tinha três Barbies. Uma era loira, esportiva, macacão de lycra azul e tênis. Tinha também uma camponesa, vestido florido, cestinha e laço e uma gostosíssima, morena, sardinhas, saia de couro, botinha verde e guitarra brilhante. Tinha três Barbies, nenhum Ken e muitas tardes de Vale a pena ver de novo.

Peguei minha tesourinha de coelhinho azul sem ponta e cortei o cabelo da Barbie esportiva. Cortei. Deixei no toco. Vai puta. Vai ficar sem cabelo, vadia. Hidrocor preto. Pintei tudo e fiz um bigodinho. Deveria ter deixado sem bigode, andrógina, mas criança é foda e tem todas aquelas histórias freudianas do Édipo e tal. Ficou o bigode.

Eu era da geração Sexta Sex e Cine Privê. Assisti toda a saga de Emanuele. Emanuele na África, no Japão, no Espaço. Trens entrando em túneis, enquanto ela trepava nas cabines dos trens. Assisti até uma versão pornô da Branca de Neve e os sete anões. A Branca de Neve era negra e os sete anões tinham paus enormes. Eu era da geração televisão sem controle remoto. Eu colava no aparelho e ficava tensa com o dedo perto do botão dos canais. Qualquer passo e meu dedo ía direto na TV Educativa. Foda era quando passava da meia noite e a Educativa já estava em faixas coloridas. “Tá assistindo o que, menina?” Silêncio. “Ah, mãe… Eu gosto das cores”.

Minha mãe ainda guardava uma coleção sobre sexualidade. Coleção de capa dura vermelha e desenhos de gente trepando. A coleção ficava guardada no maleiro do guarda-roupa dos velhos. Eu subia no banquinho de madeira e todos os dias pegava um volume. Era uma coleção bem datada. Adolescentes com calças boca de sino e biquínis asa delta. Homens bigodudos, como minha Barbie esportiva. Tinha até uma mulher com as mãos sobre um tigre no verbete Zoofilia. Lembro até hoje.

Vale a pena ver de novo, Sexta Sex e Coleção-capa-dura-proibida. Eu tinha cachos e sardas. Cara de otária e cdf. Crime perfeito. Lá ia eu com meu saco de bonecas. Tirava suas roupas e deitava a moreninha de sardinhas com a bigoduda. Sem as roupas, eram seios e pernas. Os seios duros não deixavam elas se beijarem. Elas se embolavam no colchão de florzinhas rosas. Criança é dublê. Eu dirigia minhas cenas. A do bigode comia a camponesa e a da sainha de couro. Língua e mãos. Pernas embaraçadas.

Minha mãe deu minhas panelinhas e minhas bonecas. Cheguei um dia em casa e meu saco não estava mais lá. Minhas panelinhas estavam quase novas. Minhas bonecas estavam gastas e comidas. Nenhum cheiro de comidinha nas panelas. Cheiro de sexo entre as pernas de borracha. Minhas primeiras mulheres. Bocas cerradas em um sorriso passivo, seios-pedra, bunda-ausência, coxas-lisas-borracha. Minhas primeiras mulheres: silenciosas, passivas, padrão-blond. Barbies. Saudade das tardes de pão com goiabada e panelinhas.

(Texto publicado em 8 de abril de 2006 no Brutti).

9 comentários

  1. Lika diz:

    Esse texto rende um comentário longo , uma vez que evoca coisas da velha infância oitentista ;P

    Vejamos…

    O Ken se chamava Bob, acho que você não conheceu ele nesse tempo :P Não sei pq mudaram…:S

    “Não tive o Ken, mas tive um daqueles bonecos que faziam xixi e que tinham um protótipo de “benga”” - Por acaso era o Manequinho da Estrela, esse boneco?? Eu alembro dele mas tive um sem cabelo que vinha com uma banheira azul e duchinha (A Hora do Banho - da mesma fábrica Estrela)Foi o único boneco que tive (o resto eram bonecas meninas).

    Eu só tive uma Barbie e com uma roupa de véia que minha avó me deu…E minha mãe tb distribuiu tudo numa tarde qualquer qdo eu estava na pré-adolescência.

    “Tá assistindo o que, menina?” Silêncio. “Ah, mãe… Eu gosto das cores”.
    HUhauhauahuahaua
    Beijos!

  2. Janaína Calaça diz:

    Huhauhauahuahua.
    Likarinas, mia fia, seguinte… Eu alcancei o Bob, mas não lembrava que ele se chamava Bob! :P Aí resolvi meter o Ken no meio, mas só por isso vou mudar pra Bob pra ficar mais autêntico.
    O bonequinho da binga era loirinho e tinha penico e uma mamadeira. Você colocava a mamadeira na boca e você sabe bem por onde saía a água, ops, o xixi.
    Ah, mãe, eu gosto das cores! :P
    Beijos, querida!

    Jana.

  3. Janaína Calaça diz:

    AH, você costurava roupas para sua Barbie, mia fia? Porque eu fazia altos modelitos com uma destreza risível! :P As roupas eram ótimas. Eu sempre esquecia de colocar os buracos para os praços! :o
    HUhauhuahuahauhau.

  4. Lika diz:

    Huhauahauha ;-P
    Era o Manequinho mermo, o que tinha um penico amarelo!
    Eu queria que minha memória não fosse tão boa cof cof

    Eu não costurava roupas para minha única Barbie e ainda fiz a misera de arrancar a cabeça dela e jogar prum cachorro, o bicho pegou a cabeça e nunca mais devolveu :-P
    Eu preferia aquelas roupinhas de papel que vc trocava em bonequinhas de papel.:P

    Bjsss

  5. Jana diz:

    Janaaaa..rs..
    As Barbies, e eu tive a Susy também :D!
    Que bagunça era aquilo, quarto, sala, e minha mãe me deu a academia, será que era para eu um dia malhar?? Só faço esteria e olhe lá!!!

    Bjs!

  6. Andressa diz:

    Rsrsrsrs…se fosse assim eu seria dona de um salão de beleza! Acho que foi um dos primeiros “acessórios” da Barbie que ganhei….tsc tsc :D
    Quem nunca teve um boneco que fazia “pipi” está mentindo…rsrs.
    E quanto as roupas da barbie, eu nunca tive talento para corte-costura, quando tentava, saía um desastre! Deve ser por isso que hj só sei pregar um botão, no máximo…rsrsrs.
    Falhei no aprendizado doméstico com as Barbies. Rs.E minhas comidinhas nas panelinhas se resumiam a um caldo verde do “matinho do quintal”…hauhauahaua, que horror.

    Beijocas!

  7. guylherme diz:

    Gostei muito e legal de mas so falta dos bonecos transado

  8. giuliana diz:

    olha eu achei o maximo!! eu faria a mesma coisa mais como eu tambem não tenho ken eu nem me importo eu não fasso esse tipo de coisa e eu to nem ai pra filme porno o que importa é te brbie e ponto final!!!! eu odeio goiaba mais amo pão com mumu a melhor coisa a comer e um chocolate bem doce nhanham muito bommm

  9. Lara a Floribella!!! diz:

    muito legal me add no meu msn lary_kitty19@hotmail.com

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