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Duas margens

May 29th, 2007 by jana

Para Lika

Meu corpo é este rio que você vê
a tocar duas margens
sem pertencer a nenhuma.
Não é fora de mim que a travessia é ação,
mas dentro,
entre as raízes arrancadas
e as novas que tento fincar ao chão.

Meu chão é movediço,
daqueles em que não se consegue deixar pegadas.
Sem meus rastros,
sem as migalhas deixadas no solo como orientação,
eu atravesso espaços à procura da mesma certeza feliz,
que mora nos meus olhos antigos,
mantidos vivos nas fotografias de infância.

Em minha antiga casa agora sou visitante,
em minha nova terra serei sempre estrangeira.
Sou recebida com a panela fumegante da comida caseira,
por braços que me enlaçam
a tentar suprimir as distâncias.
E agora ir embora partilha duas dores:
a de deixar a nova casa em que sou forasteira
e deixar as paredes que me viram crescer.

Flutuo como quem jamais teve pés em terra firme,
sou aquela que caminha por uma estrada
com dois pontos de parada,
sabendo que o corpo nunca descansará em nenhum.

Sou o próprio movimento
e a minha incansável travessia.
Trago nos pés a poeira da saudade
e vivo como todos os rios,
a tocar duas margens
sem pertencer a nenhuma.

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Histórias de amor, papel jornal e L.L

May 25th, 2007 by jana

(Ao som de Lo Dudo - Los Panchos)

Tudo começou quando ele era ainda um menino de calças curtas, como dizia seu avô, e terminou em uma assinatura reproduzida em gráficas. Calças curtas, lancheira, maçã e biscoitos no recreio. A professora pede umas linhas. “O que você quer ser quando crescer?”. Ele escreve todo peito inflado: escritor. “Quero ser escritor, porque assim eu vivo mais que os outros”. A professora, entre dançarinas, astronautas, médicos, advogados, atrizes e jogadores de futebol, guarda os olhos do menino. “Quero ser escritor”.

A mãe acompanha as calças do menino ficarem longas, os sapatos ganharem números, o rosto ganhar barba. A mãe queria um filho de branco, cabelo arrumado, luvas ou um filho de pasta e paletó, mas o menino-homem queria ser escritor. Em um armário de madeira descascada, a mãe guardava os certificados dos prêmios de literatura da escola. O menino oscilava entre o segundo e o terceiro lugar sempre, mas ainda assim era do tipo made in livros de auto-ajuda: “Você é um vencedor”! Entre os colegas, era o poeta. Escrevia uns versos sugar-sugar, cheios de derretimentos, de corações flechados e de dores de amor. Os meninos-colegas pediam que ele escrevesse versos para as meninas. Os versos dele levaram muitas meninas, meladas pelas palavras, melarem suas coxas pelos colegas. Os poemas do menino-escritor sempre estavam entre os amassos na quadra de esportes ou na pracinha em frente à escola. Entre os dedos nos bicos dos seios adolescentes, entre os dedos afastando calcinhas coloridas, os poemas sempre estavam lá de testemunha. Seus poemas salvaram muitos colegas das punhetas. Ninguém poderia dizer que sua poesia não tinha um fim social.

Continuou escrevendo depois de sair da escola. Seu quarto era uma mancha branca de rascunhos. Continuava escrevendo seus poemas de amor, mas agora, homem-hormônio, começou a rabiscar uns poemas eróticos, cheios de incursões pelas aulas de biologia e pelos eufemismos. Membros intumescidos, cavernas negras, espadas, troncos e mil e uma maneiras de se preparar Neston. Começou um curso noturno de Letras, mas lá ninguém aprendia a ser escritor. Ele na verdade nem achava que precisava aprender. Começou a buscar formas de publicar seus poemas eróticos. Todo concurso que aparecia, ele se inscrevia. Revoltava-se quando seu nome não estava entre os três prêmios. Ligava para as sedes organizadoras, xingava as secretárias, dizia que era arranjo, carta marcada, o escambau. Passava uma semana recluso e depois aparecia com novos editais de concursos literários. Participava de qualquer concurso. Qualquer um. O importante era ter o livro publicado, para ver nas livrarias, esmagado entre outros tantos livros nas estantes, neste cruzamento de linhas, canetas, dedos, gerações, seu livro, seu nome impresso. Além dos poemas, arriscou escrever contos, novelas e até um romance. Escreveu o romance para um concurso de “Histórias de amor”.

Depois de quase dois meses depois do concurso de “Histórias de amor”, ele recebe uma carta da comissão organizadora, comunicando sua vitória. Ele lê a carta incontáveis vezes, grita e liga para a mãe. “Mãe, ganhei o concurso!!! Meu livro vai sair! Vai sair!”. A mãe grita para os vizinhos, liga para o ex-marido, gaba-se, infla o peito. “Meu filho é um escritor! Meu filho é um escritor! Antes ser um escritor do que nada”. Ele é chamado para assinar os papéis e lá a notícia chega. “Bem, sei que você está aqui para assinar a publicação de seu romance, mas tenho um comunicado a fazer. Esta editora é voltada essencialmente para o público feminino. As mulheres que lêem nossa coleção esperam a assinatura de uma mulher nos romances que compram. Elas se sentem mais à vontade, confiam mais na história quando é escrita por uma mulher, já que julgam que o homem não entende nada de histórias de amor, dramas, cólicas e filhos”. “Mas, senhora… Eu ganhei o concurso e é justo que eu tenha minha história publicada”. “Sim, claro. Não estamos dizendo que não publicaremos a história, estamos dizendo que como homem você não poderá assinar. Escolha um pseudônimo e tudo estará ok”. “Senhora, eu não vou assinar como uma mulher. O que minha mãe vai dizer?”. “Bom, ou você escolhe um pseudônimo ou nada feito”. “Vou recorrer à justiça”. “Recorra, mas lembro que a justiça é lenta”. “Laura Lúcia”. “Ahn?”. “É meu nome”. “Assine aqui por favor”.

O livro sai e os vizinhos riem. A mãe tranca-se em casa por mais de um mês. “Laura Lúcia! Vê se pode. Tenho um filho transformista!”. Entre os membros intumescidos e as cavernas escuras, as críticas das leitoras ao livro são positivas. Cartas chegam à editora, perguntando quando sairá o novo livro de Laura Lúcia e ele recebe um novo telefonema. Mais dois anos de contrato exclusivo com a editora. Papel jornal, capa paralisada na década de 50, preço popular. Ainda assim ele vibra, mesmo sendo Laura Lúcia, mesmo não tendo seu nome na capa e contra-capa. O importante é ser escritor. O menino-homem-ex-calças-curtas vira fenômeno entre as leitoras da coleção “Histórias de amor”. Contrato permanente. Ele não escreve mais poemas, nem contos, só romances em escala industrial. O esqueleto é sempre o mesmo: um homem rico se apaixona por moça pobre, sofrem o diabo, transam na praia, no campo, no celeiro e depois de tudo… Happy end. Cada vez que ele entrega um novo original à editora, menos ele é, mais Laura Lúcia ele se torna. Assina cheques errados, assina comprovantes de correio como Laura Lúcia. O carteiro olha estranho, mas o importante é a entrega feita.

Ele recebe as cartas das leitoras. Responde quando pode, assina, como sempre, como Laura Lúcia. As iniciais arredondadas no fim da página. Sempre tem uma carta-resposta pronta, cheia de agradecimentos. Imprime e assina. L.L. Um dia, terminava de florear o segundo L, quando sente um adormecimento no braço esquerdo. Toca o braço com as unhas e não sente nada. Está completamente dormente. Levanta-se, vai à cozinha, bebe uns goles d’água e antes que consiga voltar para a mesa do escritório, cai no corredor da casa. A mãe, depois de várias tentativas de falar com o filho, chega na casa e sai carregada pelo vizinho de porta. No dia seguinte, uma pequena nota no jornal diz que “Laura Lúcia, escritora best-seller da editora “Histórias de Amor”, morre de insuficiência cardíaca e descobre-se que ela na verdade chama-se Pedro Paulo”. E entre especulações, programas sensacionalistas, que repetem a fotografia do escritor morto inúmeras vezes, ele se torna imortal por uns dias e se torna depois referência a outros poetas sugar-sugar, que entopem a editora de originais. Agora, depois de uma conceituada pesquisa bate-à-sua-porta, os autores assinam com suas cuecas.

(Texto publicado em 29 de outubro de 2006 no Brutti)

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Hoje, no Brutti, “Loretta pede bis”

May 20th, 2007 by jana

“Loretta -pede -bis nasceu sob signo de fogo, no limite entre um dia e outro, encoxada entre as últimas horas de uma sexta-feira e as primeiras horas de um sábado. Loretta nasceu no cruzamento dos dias de farra. Durante a gestação, sua mãe comia convulsivamente morangos vermelhos, daqueles carnudos e que se desmanchavam macios entre os dentes-brancos-sorriso-colgate. A mãe fazia yoga, enquanto assistia 9 semanas e meia de amor e sonhava com gelo pingando no buraco negro do seu umbigo. Acordava sempre à noite com medo de que estalactites caíssem em sua cama (…)”.

Vão perder essa?

Hoje, no Brutti, “Loretta pede bis”.

Nham, nham!

Beijos

Jana.

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Tempestades

May 16th, 2007 by jana

Afundo meus dedos nos seus cabelos escuros
e espero eles trazerem para mim
fragmentos perdidos de todos os seus sonhos.
Busco, como quem nada contra o fluxo das correntes,
o segredo dos seus pensamentos,
que moram guardados-escondidos atrás de tuas retinas brilhantes.

Enquanto você dorme quieto-encolhido ao meu lado,
procuro desvendar sozinha a raiz dos teus medos,
os desejos vivos nunca ditos,
as mágoas profundas engolidas a seco.

Sou barro cru, mármore não polido,
tronco de árvore sólido ainda não esculpido,
minhas palavras jorram e te queimam nos pontos mais improváveis,
e eu sangro por dentro, carne viva e pulsante,
sentindo em mim as feridas que em você abri.

Sou este corpo-lâmina que te corta bem fundo,
que te deixa marcas a contar com os dedos,
que se liquefaz quando te ver chorar quieto,
na mistura transparente do sal que queima e
da água corrente que leva tudo para longe,
desaguando dor no útero-chão.

Como eu queria transbordar menos
a acidez que carrego entre meus dentes,
e como eu queria também não pisar tão fundo,
ter freios potentes, barrar as palavras pontiagudas,
quando sinto que elas querem se derramar.

Você não sabe, mas quando seus olhos brilham tristeza,
a tua dor se duplica entre cacos de espelhos
e se aloja no espaço-limite do meu peito,
para que eu sinta, no reflexo vítreo,
multipliacada-ampliada toda mágoa que te causei.

Afundo então meus dedos nos seus cabelos escuros
e te vejo assim homem-menino-criança,
recobrando as cores de um sorriso-pós-tempestades,
largo-vermelho-todos-os-dentes.
Nesta hora domo as palavras, silencio os ecos
e mergulho minha carne na sua,
somando assim medos-alegrias-desejos
na mistura heterogênea dos nossos silêncios.

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Réquiem para as rosas

May 14th, 2007 by jana

Tive que jogar no lixo, meu bem,
as flores que você me deu de presente,
como gesto de amor e cuidado,
como demonstração de paixão viva
e de planos em dia para anos mais tarde.

Tive que misturar as pétalas antes vermelhas,
hoje entre o roxo e o preto,
aos restos do almoço de domingo
molhados pela chuva de segunda,
que se deitou obscena no limite do cesto.

Lembro daquelas flores vermelhas,
esmagadas entre meus seios maduros,
misturando seu perfume ao meu,
dividindo comigo a textura macia
daquelas pétalas novas-recém-colhidas.

Tenho com a vida uma relação de impasse,
rejeito a beleza das coisas quando sei que irei perdê-las.
Desvio olhos, cerro mãos, tranco pernas,
tudo para não doer mais tarde,
quando aquilo que foi dado
for tirado de mim sem avisos,
sem grandes notificações.

Não são apenas as flores, entenda,
são os corpos que me cativaram,
os braços que me acolheram quentes,
os sonhos que um dia eu tive.

As flores que jogo no lixo hoje, meu bem,
é a antecipação de todas as minhas futuras perdas,
que terei que carregar silenciosa,
até o dia em que alguém tenha também que retirar meus espinhos,
desfolhar minhas ramagens secas,
para me deitar, murcha, quieta, sem gritos,
no fundo frio de uma alcova qualquer.

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Hoje, no Brutti, “Agridoce”

May 13th, 2007 by jana

“Acordou como se aquele fosse um dia comum. Para ela nada mudava, exceto pelo fato de que a filha completava anos. Era dia das mães também, mas ela quase nunca se lembrava desta data, apesar dos comerciais de tv e dos outdoors espalhados pela cidade, lembrando ao filho o presente que deveria ser dado a mãe como demonstração de amor. Anos passaram e ela nunca ganhou um presente no dia do seu aniversário e doía não poder dar um brinquedo pra filha no dia de seus anos. Dia das mães para ela só existia no mundo encantado do marketing, em que todos voltam para casa sorridentes e com embrulhos coloridos. A realidade dela era uma panela pedindo comida pra exercer sua função e olhos mais pedintes ainda, que eram os da sua filha, encolhida naquele domingo por causa do frio de 9º que fazia lá fora (…)”.

Hoje, não deixem de ler “Agridoce” no Brutti.

http://naselva.com/brutti

Beijos

Jana

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O vestido verde

May 11th, 2007 by jana

Era uma mulher bonita, sim, uma mulher bonita. Salto alto, daquele que levanta dedos médios para a gravidade, decote, cabelos longos, antes curtos e sóbrios, que foram longos um dia, mas sem os apliques. Rebolante, provocante, lentes no lugar dos óculos, jogados no lixo não orgânico. Cintura esculpida by lipoaspiração, desenhada por um vestido verde colante e seios duros, daqueles que chamam a atenção e dizem, hipnotizantes e mudos, “hey, olhem só esses meninos!”. Os homens olhavam. Se o pescoço pudesse girar em 360º, ele acompanharia o desejo nos olhos. Era uma mulher bonita, sim, uma mulher bonita. Ela achava graça das cantadas baratas, dos adjetivos, dos fiuuuuuus-fiuuuuus. “Quem diria?” Dizia mentalmente para si mesma e seguia para casa.

Abriu a porta com cuidado, para que o gato não saísse pelas ruas. Ele teria que retardar o passeio para a casa nova. Os últimos móveis já estavam desmontados e encaixotados. Em poucas horas chegariam para pegar as caixas. Decidiu se mudar para um flat em frente ao mar. Um lugar menor, já mobiliado, com cozinha de estilo americano e uma vista que se perde em um horizonte aquoso. A casa pareceu alargar depois que todos foram embora. Os cômodos pareciam grandes demais, cheios de ecos e de lembranças. Só restou ela e o gato de olhos azuis, meio vesgos. Quando comprou a lente azul, lembrou dos olhos daquele gato silencioso e independente, que subia e descia escadas, que passeava pelo bairro e que voltava pela comida, pela água, pela cama e por ela. Sim, por ela. O casal que comprou a casa, não quis os móveis. “Não deito na cama de estranhos, amor. Casa nova, cama nova”. A casa seria entregue oca, lavada. Os móveis, alguns deles, foram vendidos por uma mixaria para um antiquário. O restante foi doado. Só levaria para o flat as roupas, alguns objetos de valor e as coisas do gato. Tinha que terminar de empacotar os vinis e documentos. Era seu último dia na casa. Despejou a ração do gato na vasilha e mordeu uma maçã. “Vamos terminar logo com isso”.

Durante anos guardou os documentos nas caixas de camisa do marido. Quando uma caixa ficava cheia demais, pegava outra e recomeçava seu arquivo informal. Decidiu jogar as caixas fora e jogar todos os documentos em uma caixa para mudanças. No meio dos documentos, um punhado de singularidades: um cacho dos cabelos da filha, de quando ela era ainda era menina, em um tempo limpo de ofensas e de portas batidas. Umas fotos antigas, amareladas de verdade, sem ajuda dos efeitos do photoshop. O tempo todo estava marcado naquelas fotos: amarelo, corroído, corrompido e cheirando a naftalina. Naquelas fotos, ela era uma menina vestida de branco, com flores na cabeça. Os cabelos longos, sem os cuidados e cremes múltiplos do hoje dela. Uns seios pequenos, uma cintura imperceptível, a barriga saliente. Tudo nela era opaco naqueles dias e não era por causa do amarelo do tempo. Ela era um quadro amarelo e mais nada. Depois do vestido branco e das flores no cabelo, a vida foi um casamento morno e uma filha que era brilho. O marido passava o dia trabalhando e ela cuidava da menina bonita, da filha de cachos soltos. Todos olhavam para a mulher e para o marido e não entendiam como tinham uma filha tão diferente. A mãe olhava para a menina e acreditava que ela seria feliz. Olhava para o espelho e se conformava com o casamento morno, com o olhar de piedade dos homens, com trabalhos negados tantas vezes quando era uma menina-moça.

Sua vida era uma repetição obstinada dos mesmos quadros, das mesmas cenas, dos mesmos diálogos. O marido deitava todas as noites ao seu lado e caía no sono. A filha crescia em seios, nos cabelos longos, nos olhos vivos, na cintura fina. Sexo só durante o banho. Aquele sexo feito com dedos e com o pensamento limpo de imagens. A filha enchendo a casa de risos e sempre aos papos com o pai. Ela era a peça deslocada da decoração, aquilo que se tem vontade de jogar fora, mas não se joga por piedade ou por tradição. Casou porque amava. Ele casou achando que amava. A filha era a menina-moça mais bonita da rua, todos olhavam para ela. A mãe começou a controlar as roupas, com medo que a menina “se perdesse com qualquer vagabundo”. O pai era explosão de ciúmes e choro, desculpas, perdão. A menina brigava com a mãe e saía provocante pela rua, rebolante, com os seios duros de menina-moça chamando olhares. O pai descontava a ira na mulher-fotografia-amarela. Ela não entendia as explosões. A menina batia portas, o pai se fechava no trabalho, a mãe fazia a comida, que esfriava nas panelas. Acabava comendo sozinha.

O gato de olhos azuis e vesgos apareceu no dia em que ela foi ao banco pagar contas e saiu para comprar um vestido para a festa de 16 anos da filha. Um vestido verde, nem menina, nem mulher. Algo ainda que está para amadurecer. Comprou o vestido e parou, enquanto voltava para casa pela rua, para comprar uma revista de receitas de bolo de aniversário. Queria fazer algo diferente para a menina. Talvez com o vestido e com a festa, a menina baixasse um pouco a guarda, deixasse a agressividade de lado. O gato apareceu e começou a rodear sua perna. Passava o pêlo fofo pela perna da mulher, que há muito já não recebia nenhum afago de quem quer que fosse. Pagou a revista e continuou andando. O gato a acompanhou pela rua. Ela olhou para o gato e decidiu levá-lo para casa. O marido odiaria o gato, mas era o mínimo que ele podia fazer por ela. Entrou pela cozinha com o gato em uma das mãos. Colocou leite em uma vasilha, onde guardava alface na geladeira e deu ao gato. Pegou uma laranja e começou a tirar a casca. Ouviu a voz do marido na sala. Estranhou ele tão cedo em casa. Abriu a porta que dava para a sala, ainda descascando a laranja, quando viu a filha sentada, com o vestido levantado, no colo do pai. O que veio depois foi a mulher se lançando para os dois, menina e homem, filha e pai, com a faquinha débil que cortava a laranja. A menina desceu rápido o vestido e o homem não tinha o que descer ou subir. A faquinha cortou o rosto da menina e o braço do pai. Os dois gritavam e o gato quieto lambeu uns pingos de sangue que caíram do rosto da menina e do braço do homem. O gato agora era também família. A mulher voltou à cozinha e era só gritos. Não chorava. O gato adormeceu aos seus pés. Ela deitou depois no chão da cozinha e por ali ficou.

Quando acordou, a casa estava em silêncio. O gato miava por comida. Quando lembrou do dia anterior, levantou-se rápido e subiu as escadas à procura da filha e do marido. Não estavam mais lá. Nem ele, nem suas roupas e nem ela, nem suas roupas e bichinhos. Da menina só restou aquele vestido verde, que ela nunca chegaria a usar. Não havia nada o que pudesse fazer. Não faria nada. Por isso os gritos, as portas batidas, o homem dormindo e ela passando dias como um objeto velho, que ninguém tem coragem de jogar fora, ou por piedade ou por tradição. Ele ligou dias depois, pedindo silêncio. Daria tudo a ela. Uma boa pensão e a casa. Fizesse o que quisesse com a casa, contanto que ficasse em silêncio. Não queria ir para a cadeia. E a menina? O escândalo que seria. Todo o mês o dinheiro estava em sua conta. Vivia bem e tinha a casa. Aos poucos, juntando o que restava do dinheiro mensalmente depositado, iniciou sua transformação. Substituiu os cabelos curtos e sóbrios por cabelos longos e dourados como o da filha. Jogou fora os óculos, comprou lentes. Fez lipoaspiração, dietas, pôs silicone nos seios. Com o corpo esculpido, pôde vestir pela primeira vez o vestido que daria à filha no seu aniversário de 16 anos. O vestido verde e colante, que homens, que antes jamais lhe dirigiriam um olhar, elogiaram. Vestiu a roupa e jogou fora o cacho da menina e as fotografias antigas. Usou o vestido pela primeira vez e depois tirou, jogando o tecido entre os restos daquilo que não queria lembrar. Experimentou durante uma caminhada o que seria ser a filha, experimentou um corpo que se deitou tantas vezes com seu marido. Mas estava errada, não era feliz e a menina era apenas uma menina, mas há coisas que não têm volta. Assim como o tempo, que só avança, avança, avança. Despachou os móveis, trancou a casa, pôs o gato no banco ao seu lado e se perdeu no horizonte aquoso da vista de seu apartamento quarto e sala.

(Texto publicado em 5 de novembro de 2006 no Brutti).

Eu recomendo!!! A imagem foi retirada do site de Giovanna Casotto, autora de quadrinhos eróticos muito bacanas. Para quem não conhece o trabalho da Giovanna, deixo o link para apreciação. Vale muito a pena conferir o trabalho dela!

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Paralisia

May 7th, 2007 by jana

(Ao som de Nights in White Satin do Moody Blues)

Crave em mim dentes e unhas,
faça meu corpo reagir uma só vez,
faça-o lembrar que minha carne está viva
e que o sangue ainda percorre silencioso e quente
o vermelho guardado que há em mim.

Crave em mim novos sonhos
como quem rasga a terra e planta sementes,
esperando pacientemente que do húmus e da água
a vida nasça, se espalhe e exploda
num misto visceral de cor e perfume.

Afunde seus dedos na resistência silenciosa da minha pele
e me traga novas sensações,
pois meus olhos, meu bem,
andam viciados demais com a rotina-repetição,
com esse pôr do sol tão igual
e com o som conhecido da água lavando as ruas
em dias cinzas-febris de chuva.

Traga para mim, como quem carrega oferendas,
os velhos sonhos, os velhos corpos,
para que neles eu encontre
uma pista daquilo que um dia eu fui.
Traga para mim, como quem carrega incensos perfumados,
os cheiros conhecidos da comida guardada na memória dos dentes,
das peles sentidas e lambidas por mim,
dos perfumes que guardei na intimidade das roupas antigas.

Peço, como quem ergue mãos frias e vazias,
os farelos perdidos de todas minhas quimeras,
o resto largado no canto do prato
dos rostos que levo dentro do peito
e que me fazem diluir nestes dias quietos
em que eu espero o sol morrer em azul no horizonte.

Apenas te peço movimento,
um impulso qualquer de balanço,
algo que me faça sair de onde estou,
que me livre desta inércia insistentemente companheira.
Apenas te peço mãos no corpo
que me façam girar e girar,
pra ver meu mundo ganhar velocidade,
meus pés saírem novamente do chão
e para que eu possa voltar, triunfante-riso-alto,
a sonhar novamente com banalidades.

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Hoje, no Brutti, “A estrela da semana”

May 6th, 2007 by jana

“Acordava às seis da manhã, coava o café ralo, mordiscava o pão e saía. Aula em uma sala apertada, sem ventilação, paredes sem cor definida, resto de lousa, resto de giz. Restos. Esmola do governo. Saía, andava até o quartinho alugado com a mãe, comia seu miojo e de lá ia para o escritoriozinho atender o telefone, receber recados e correspondências e levar passadas de mão do patrão. Um salário mínimo, mais vales transporte, mais vale refeição, é o que tinha conseguido com sua idade, escolarização e bunda exageradamente grande(…)”.

Hoje, no Brutti, leiam “A estrela da semana”.

Beijos

Jana

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Disk lover

May 5th, 2007 by jana

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Fonte da imagem

Tudo, como um clichê de discurso psicanalítico, começou na sua infância. A mãe passou meses economizando para ter a novidade em casa. No tempo custava caro e durou quase um ano para a mulher juntar o dinheiro suficiente e conseguir trazer o objeto para a mesinha ao lado do sofá estampado. O menino desenhava no chão, deitado, com o giz de cera espalhado. As cores todas à vista. A mãe chegou naquele dia, trazendo uma caixa de papelão. O menino pensou que fosse já presente de Natal, afinal a festa já estava perto. “Que é isso, mãe?”. “Ah, filho! Um mimo! Venha cá ver”. O menino já imaginava um carrinho grande ou um saco de gudes gigantes, mas o que veio forrado em plástico bolha foi aquele aparelho vermelho-sangue, cheio de teclas e fios. “Ah, mãe! Um telefone! Pensei que fosse um presente pra mim”. “Menino, passei o ano inteiro economizando para comprar a linha e o aparelho. Só tem telefone em casa quem é chique, e eu quero ser chique”. “E meu presente de Natal?”. “Seu presente de Natal é o telefone, tá? Ah, menino, este ano ficou difícil pra mainha comprar o telefone e ainda comprar um brinquedo”. “MÃE!!!”. “Não me grite, menino!”.

O menino olhava aquele objeto vermelho ao lado do sofá, rei da mesinha de madeira e uma mistura de ódio e fascínio se confundiam como o leite e o chocolate do Milkshake. O número estava escrito em um papel grudado ao telefone. Apesar da raiva que tinha do objeto, afinal por causa dele ficaria sem presente de Natal, o menino queria tocar o plástico vermelho, queria ouvir o aparelho tocar, queria atender, falar, ligar para as pessoas. Mas para quem? Viviam apenas ele e a mãe e poucos, como a mãe mesmo dizia, tinham um telefone em casa. Eram finos, eram chiques. A lembrança das palavras da mãe se misturavam à imaginação do menino, que achava que as palavras ficavam presas naquela caixinha vermelha até o dia em que iria explodir de tantas conversas acumuladas. O telefone deles, no entanto, não iria explodir tão cedo.

Com o tempo, o telefone começou a se vulgarizar, como tudo aquilo que antes parece mágico e depois vira feijão com arroz. A mãe agora atendia aos pedidos dos doces, salgados e refeições através do aparelho e o menino é quem atendia aos pedidos, negociava preços, prazos e datas de entrega. Sua vida resumia-se à escola e ao restante do dia perdido com o fone do aparelho grudado à orelha. O aparelho vermelho era quase parte dele. Não tinha tempo para flertes, para olhares, para amassos no ginásio de esportes da escola. Era um adolescente mirrado e tímido, mas ganhava poder ao telefone. Crescia, virava gigante, homem. A adolescência, no entanto, era a fase das poluções noturnas, de acordar melado de porra e ver a mãe parada em frente à cama, gritando com o menino para que limpasse “aquelas imundícies”. Vida sexual zero, o menino enlouquecia. Permaneceu assim, até a idade adulta: sem beijos, carícias, mãos, dedos e sexo, principalmente sexo, até que uma moda apareceu na televisão: o Disk. Tinha Disk para tudo: brincadeiras, zodíaco, mapa astral, pra falar com autor/atriz prediletos e o Disk Sexo. Quando o rapaz viu a propaganda, não pensou duas vezes. Assim que a mãe dormisse, ligaria para o Disk Sexo. Seria o máximo contato que ele teria com uma mulher, mas valia.

A mãe foi dormir cedo naquela noite e ele só esperou pelos roncos da mulher para se sentar no sofá, ao lado do telefone vermelho. Discou o número e esperou. “Alowwwwwwwww”. “Alô, meu nome é….”. “Ahnnnnnnwwwwwww, estou sem calcinhaaaaaaaaaa”. Um dia ele assistiria na tv que as atendentes de Disk Sexo gastam em média 2000 pirulitos por mês para imitar um boquete, mas, continuando… “Ahnwwwwwwww, como você é grandeeeeeee”. Não é preciso nem especular demais para ter a certeza de que o mirrado-man virou um Disk Lover, que batia ponto todas as noites. No final do mês, a mãe acordou o rapaz aos gritos. “Seu imundo! Seu imundo! Usando nosso telefone, nosso ganha-pão para suas imundícies”. A mulher jogou a conta de telefone na cama e saiu do quarto. “Vou ter que trabalhar dobrado pra pagar isso”. Nunca mais voltou a tocar no telefone para as chamadas de Disk Sexo. O máximo que fazia era desligar o telefone do gancho, alugar um filme pornô e, enquanto se masturbava, fingia falar com uma atendente de Disk Sexo através do telefone mudo.

Quando o negócio da mãe finalmente cresceu e se tornou um buffet profissional, com salgadinhos assados em forno industrial, foi casando à época em que o telefone celular começou a ser vendido. Logo comprou o seu e sendo o filho da dona do buffet, que agora já contava com seis funcionárias e tendo um artigo de luxo pendurado na calça, logo-logo conseguiu facilmente aquilo que esperou por toda a vida: uma mulher de verdade e uma transa que não se resumisse ao sobe-desce de dedos. Combinou com a mulher de se encontrarem depois do serviço num barzinho próximo à pequena fábrica de salgados e doces da mãe. Não precisou falar muito, afinal era o filho da dona do buffet e tinha um celular pendurado na calça jeans. Chegaram ao motel, ele tentando fingir que já era descolado, ela tentando fingir que era uma almost virgem. Pegaram a chave do quarto e entraram. Começaram a se beijar. Ela sem saber que era o primeiro beijo daquele homem. Os filmes pornôs ajudaram-no a ter noções do que fazer. Chegaram finalmente a deitar na cama, ela nua, ele nu. Insinuante, fazendo pose sexy aprendida em revista, ela foi descendo a boca para o pau do homem, até que ele sacou uma coisa da mesinha ao lado: o celular. “Desliga pra mim o telefone daqui?”. “Como assim?”. “É só puxar o fio. Desliga pra mim”. “Tá”. Apesar de não entender nada, ela desligou o fio do telefone do motel. “Certo, agora coloca o fone no ouvido e finge que tá falando comigo”. “Ahn?”. “Faz, vai! Você finge estar falando comigo aí e eu finjo que falo com você aqui”. Depois que deram a “primeira” pelo telefone, ele fez do jeito dela e teve sua primeira vez. Se ela achou estranho, se ela deixou de trepar com o filho da dona do buffet? Bom, ainda vemos os dois ao longe mordiscando queijo e bebendo cerveja no bar no fim do expediente e ainda vemos também os dois, agora já pulando a parte do Disk sexo preliminar, pularem para os finalmentes. É a tecnologia encurtando distâncias.

(Texto publicado em 19 de novembro de 2006 no Brutti).