Paralisia
(Ao som de Nights in White Satin do Moody Blues)
Crave em mim dentes e unhas,
faça meu corpo reagir uma só vez,
faça-o lembrar que minha carne está viva
e que o sangue ainda percorre silencioso e quente
o vermelho guardado que há em mim.
Crave em mim novos sonhos
como quem rasga a terra e planta sementes,
esperando pacientemente que do húmus e da água
a vida nasça, se espalhe e exploda
num misto visceral de cor e perfume.
Afunde seus dedos na resistência silenciosa da minha pele
e me traga novas sensações,
pois meus olhos, meu bem,
andam viciados demais com a rotina-repetição,
com esse pôr do sol tão igual
e com o som conhecido da água lavando as ruas
em dias cinzas-febris de chuva.
Traga para mim, como quem carrega oferendas,
os velhos sonhos, os velhos corpos,
para que neles eu encontre
uma pista daquilo que um dia eu fui.
Traga para mim, como quem carrega incensos perfumados,
os cheiros conhecidos da comida guardada na memória dos dentes,
das peles sentidas e lambidas por mim,
dos perfumes que guardei na intimidade das roupas antigas.
Peço, como quem ergue mãos frias e vazias,
os farelos perdidos de todas minhas quimeras,
o resto largado no canto do prato
dos rostos que levo dentro do peito
e que me fazem diluir nestes dias quietos
em que eu espero o sol morrer em azul no horizonte.
Apenas te peço movimento,
um impulso qualquer de balanço,
algo que me faça sair de onde estou,
que me livre desta inércia insistentemente companheira.
Apenas te peço mãos no corpo
que me façam girar e girar,
pra ver meu mundo ganhar velocidade,
meus pés saírem novamente do chão
e para que eu possa voltar, triunfante-riso-alto,
a sonhar novamente com banalidades.

May 8th, 2007 at 7:41 am
Jana!!! Arrepiado aqui. Você tira qualquer um do chão. Olha, vou estar colocando este seu poema lá na minha árvore tá? Vou engarrafá-lo. Tirei umas fotos da árvore com os poemas - irei enviar algumas para você. AbraçoDasGerais.
May 8th, 2007 at 2:19 pm
Janaína! Eu, que ando tão “carente” de poesia, até lavei a alma, ao ler esse poema lindo demais!
Um pedido que engloba todas as riquezas vividas num passado inesquecível! E um pedido de Movimento, que é o mesmo que pedir uma “ressurreição”…
E as palavras parecem ter a eloqüência fervorosa de uma prece…
Gostei muitíssimo!
Abraço enorme para você.
Dora
May 9th, 2007 at 12:47 am
Como sempre Jana!!! Como sempre, demais!
Bjs!
Ando em busca de sentido na inspiração, uma letra já altera, mexe, muda, influencia, as vezes, até mesmo o silêncio, mas, não sei o conteúdo que me espera…
Forte isso:
“Crave em mim novos sonhos
como quem rasga a terra e planta sementes,
esperando pacientemente que do húmus e da água
a vida nasça, se espalhe e exploda
num misto visceral de cor e perfume.”
May 9th, 2007 at 3:42 pm
Jana,
Você é absoluta, menina!
Temos vários, vários amigos em comum.E sou tão sua fã quanto eles.
Tantos beijos.
May 9th, 2007 at 7:25 pm
ainda que caísse apócrifo em minhas mãos, eu indubitavelmente acrescentaria: assinado: janaína calaça. foda, fodida, fodaça (rss…) 1 beijo
May 10th, 2007 at 9:26 am
Estágio dois de espadas, o baralho disse. Beijos!
May 11th, 2007 at 10:01 am
..enquanto eu tento. a fugir de banalidades.
?
May 11th, 2007 at 12:24 pm
AMÉM.