Réquiem para as rosas
Tive que jogar no lixo, meu bem,
as flores que você me deu de presente,
como gesto de amor e cuidado,
como demonstração de paixão viva
e de planos em dia para anos mais tarde.
Tive que misturar as pétalas antes vermelhas,
hoje entre o roxo e o preto,
aos restos do almoço de domingo
molhados pela chuva de segunda,
que se deitou obscena no limite do cesto.
Lembro daquelas flores vermelhas,
esmagadas entre meus seios maduros,
misturando seu perfume ao meu,
dividindo comigo a textura macia
daquelas pétalas novas-recém-colhidas.
Tenho com a vida uma relação de impasse,
rejeito a beleza das coisas quando sei que irei perdê-las.
Desvio olhos, cerro mãos, tranco pernas,
tudo para não doer mais tarde,
quando aquilo que foi dado
for tirado de mim sem avisos,
sem grandes notificações.
Não são apenas as flores, entenda,
são os corpos que me cativaram,
os braços que me acolheram quentes,
os sonhos que um dia eu tive.
As flores que jogo no lixo hoje, meu bem,
é a antecipação de todas as minhas futuras perdas,
que terei que carregar silenciosa,
até o dia em que alguém tenha também que retirar meus espinhos,
desfolhar minhas ramagens secas,
para me deitar, murcha, quieta, sem gritos,
no fundo frio de uma alcova qualquer.

May 15th, 2007 at 9:22 am
O melancólico possui um relacionamento de sublimação com a vida e de tal ato resultam belos resultados traduzidos em arte e palavras. Beijos