Tempestades

May 16, 2007 por jana

Afundo meus dedos nos seus cabelos escuros
e espero eles trazerem para mim
fragmentos perdidos de todos os seus sonhos.
Busco, como quem nada contra o fluxo das correntes,
o segredo dos seus pensamentos,
que moram guardados-escondidos atrás de tuas retinas brilhantes.

Enquanto você dorme quieto-encolhido ao meu lado,
procuro desvendar sozinha a raiz dos teus medos,
os desejos vivos nunca ditos,
as mágoas profundas engolidas a seco.

Sou barro cru, mármore não polido,
tronco de árvore sólido ainda não esculpido,
minhas palavras jorram e te queimam nos pontos mais improváveis,
e eu sangro por dentro, carne viva e pulsante,
sentindo em mim as feridas que em você abri.

Sou este corpo-lâmina que te corta bem fundo,
que te deixa marcas a contar com os dedos,
que se liquefaz quando te ver chorar quieto,
na mistura transparente do sal que queima e
da água corrente que leva tudo para longe,
desaguando dor no útero-chão.

Como eu queria transbordar menos
a acidez que carrego entre meus dentes,
e como eu queria também não pisar tão fundo,
ter freios potentes, barrar as palavras pontiagudas,
quando sinto que elas querem se derramar.

Você não sabe, mas quando seus olhos brilham tristeza,
a tua dor se duplica entre cacos de espelhos
e se aloja no espaço-limite do meu peito,
para que eu sinta, no reflexo vítreo,
multipliacada-ampliada toda mágoa que te causei.

Afundo então meus dedos nos seus cabelos escuros
e te vejo assim homem-menino-criança,
recobrando as cores de um sorriso-pós-tempestades,
largo-vermelho-todos-os-dentes.
Nesta hora domo as palavras, silencio os ecos
e mergulho minha carne na sua,
somando assim medos-alegrias-desejos
na mistura heterogênea dos nossos silêncios.

4 comentários

  1. diovvani diz:

    Sim, Jana, suas palavras jorram e me queimam nos pontos mais improváveis. O que cato, nas enrelinhas de sua poesia é a melhor substância que perciso para seguir poetando. Não entendo, um poema destes - SEM COMENTÁRIOS. Mas pensando bem… talvez, seja porque ele encerre em si mesmo, a própria beleza que nos faz calar. AbraçoDasGerais.

    P.E.: Vou engarrafá-lo também lá na árvore. Daqui a pouco vou ter que arranjar uma árvore só para você. ÀRVORE JANIS!

  2. Ilmara diz:

    Muito lindo!

    Sem palavras…Perfeito!

  3. Andressa diz:

    Com certeza, um poema desses deixa qualquer um sem comentários. Digo por mim.

    Me apaixonei por estas palavras.

    “Afundo então meus dedos nos seus cabelos escuros
    e te vejo assim homem-menino-criança,
    recobrando as cores de um sorriso-pós-tempestades,
    largo-vermelho-todos-os-dentes.
    Nesta hora domo as palavras, silencio os ecos
    e mergulho minha carne na sua,
    somando assim medos-alegrias-desejos
    na mistura heterogênea dos nossos silêncios. ”

    perfeito, perfeito,perfeito…

  4. Jana diz:

    Essa parte me disse muito:
    “e espero eles trazerem para mim
    fragmentos perdidos de todos os seus sonhos.”
    Forte, profundo, danada ilusão!
    Ando meio a solta, a espera de inspiração… ;)

Deixe seu comentário

Atenção: A moderação de comentários foi ativada. Aguarde a aprovação para que o comentário seja publicado no blog.