Histórias de amor, papel jornal e L.L
(Ao som de Lo Dudo - Los Panchos)
Tudo começou quando ele era ainda um menino de calças curtas, como dizia seu avô, e terminou em uma assinatura reproduzida em gráficas. Calças curtas, lancheira, maçã e biscoitos no recreio. A professora pede umas linhas. “O que você quer ser quando crescer?”. Ele escreve todo peito inflado: escritor. “Quero ser escritor, porque assim eu vivo mais que os outros”. A professora, entre dançarinas, astronautas, médicos, advogados, atrizes e jogadores de futebol, guarda os olhos do menino. “Quero ser escritor”.
A mãe acompanha as calças do menino ficarem longas, os sapatos ganharem números, o rosto ganhar barba. A mãe queria um filho de branco, cabelo arrumado, luvas ou um filho de pasta e paletó, mas o menino-homem queria ser escritor. Em um armário de madeira descascada, a mãe guardava os certificados dos prêmios de literatura da escola. O menino oscilava entre o segundo e o terceiro lugar sempre, mas ainda assim era do tipo made in livros de auto-ajuda: “Você é um vencedor”! Entre os colegas, era o poeta. Escrevia uns versos sugar-sugar, cheios de derretimentos, de corações flechados e de dores de amor. Os meninos-colegas pediam que ele escrevesse versos para as meninas. Os versos dele levaram muitas meninas, meladas pelas palavras, melarem suas coxas pelos colegas. Os poemas do menino-escritor sempre estavam entre os amassos na quadra de esportes ou na pracinha em frente à escola. Entre os dedos nos bicos dos seios adolescentes, entre os dedos afastando calcinhas coloridas, os poemas sempre estavam lá de testemunha. Seus poemas salvaram muitos colegas das punhetas. Ninguém poderia dizer que sua poesia não tinha um fim social.
Continuou escrevendo depois de sair da escola. Seu quarto era uma mancha branca de rascunhos. Continuava escrevendo seus poemas de amor, mas agora, homem-hormônio, começou a rabiscar uns poemas eróticos, cheios de incursões pelas aulas de biologia e pelos eufemismos. Membros intumescidos, cavernas negras, espadas, troncos e mil e uma maneiras de se preparar Neston. Começou um curso noturno de Letras, mas lá ninguém aprendia a ser escritor. Ele na verdade nem achava que precisava aprender. Começou a buscar formas de publicar seus poemas eróticos. Todo concurso que aparecia, ele se inscrevia. Revoltava-se quando seu nome não estava entre os três prêmios. Ligava para as sedes organizadoras, xingava as secretárias, dizia que era arranjo, carta marcada, o escambau. Passava uma semana recluso e depois aparecia com novos editais de concursos literários. Participava de qualquer concurso. Qualquer um. O importante era ter o livro publicado, para ver nas livrarias, esmagado entre outros tantos livros nas estantes, neste cruzamento de linhas, canetas, dedos, gerações, seu livro, seu nome impresso. Além dos poemas, arriscou escrever contos, novelas e até um romance. Escreveu o romance para um concurso de “Histórias de amor”.
Depois de quase dois meses depois do concurso de “Histórias de amor”, ele recebe uma carta da comissão organizadora, comunicando sua vitória. Ele lê a carta incontáveis vezes, grita e liga para a mãe. “Mãe, ganhei o concurso!!! Meu livro vai sair! Vai sair!”. A mãe grita para os vizinhos, liga para o ex-marido, gaba-se, infla o peito. “Meu filho é um escritor! Meu filho é um escritor! Antes ser um escritor do que nada”. Ele é chamado para assinar os papéis e lá a notícia chega. “Bem, sei que você está aqui para assinar a publicação de seu romance, mas tenho um comunicado a fazer. Esta editora é voltada essencialmente para o público feminino. As mulheres que lêem nossa coleção esperam a assinatura de uma mulher nos romances que compram. Elas se sentem mais à vontade, confiam mais na história quando é escrita por uma mulher, já que julgam que o homem não entende nada de histórias de amor, dramas, cólicas e filhos”. “Mas, senhora… Eu ganhei o concurso e é justo que eu tenha minha história publicada”. “Sim, claro. Não estamos dizendo que não publicaremos a história, estamos dizendo que como homem você não poderá assinar. Escolha um pseudônimo e tudo estará ok”. “Senhora, eu não vou assinar como uma mulher. O que minha mãe vai dizer?”. “Bom, ou você escolhe um pseudônimo ou nada feito”. “Vou recorrer à justiça”. “Recorra, mas lembro que a justiça é lenta”. “Laura Lúcia”. “Ahn?”. “É meu nome”. “Assine aqui por favor”.
O livro sai e os vizinhos riem. A mãe tranca-se em casa por mais de um mês. “Laura Lúcia! Vê se pode. Tenho um filho transformista!”. Entre os membros intumescidos e as cavernas escuras, as críticas das leitoras ao livro são positivas. Cartas chegam à editora, perguntando quando sairá o novo livro de Laura Lúcia e ele recebe um novo telefonema. Mais dois anos de contrato exclusivo com a editora. Papel jornal, capa paralisada na década de 50, preço popular. Ainda assim ele vibra, mesmo sendo Laura Lúcia, mesmo não tendo seu nome na capa e contra-capa. O importante é ser escritor. O menino-homem-ex-calças-curtas vira fenômeno entre as leitoras da coleção “Histórias de amor”. Contrato permanente. Ele não escreve mais poemas, nem contos, só romances em escala industrial. O esqueleto é sempre o mesmo: um homem rico se apaixona por moça pobre, sofrem o diabo, transam na praia, no campo, no celeiro e depois de tudo… Happy end. Cada vez que ele entrega um novo original à editora, menos ele é, mais Laura Lúcia ele se torna. Assina cheques errados, assina comprovantes de correio como Laura Lúcia. O carteiro olha estranho, mas o importante é a entrega feita.
Ele recebe as cartas das leitoras. Responde quando pode, assina, como sempre, como Laura Lúcia. As iniciais arredondadas no fim da página. Sempre tem uma carta-resposta pronta, cheia de agradecimentos. Imprime e assina. L.L. Um dia, terminava de florear o segundo L, quando sente um adormecimento no braço esquerdo. Toca o braço com as unhas e não sente nada. Está completamente dormente. Levanta-se, vai à cozinha, bebe uns goles d’água e antes que consiga voltar para a mesa do escritório, cai no corredor da casa. A mãe, depois de várias tentativas de falar com o filho, chega na casa e sai carregada pelo vizinho de porta. No dia seguinte, uma pequena nota no jornal diz que “Laura Lúcia, escritora best-seller da editora “Histórias de Amor”, morre de insuficiência cardíaca e descobre-se que ela na verdade chama-se Pedro Paulo”. E entre especulações, programas sensacionalistas, que repetem a fotografia do escritor morto inúmeras vezes, ele se torna imortal por uns dias e se torna depois referência a outros poetas sugar-sugar, que entopem a editora de originais. Agora, depois de uma conceituada pesquisa bate-à-sua-porta, os autores assinam com suas cuecas.
(Texto publicado em 29 de outubro de 2006 no Brutti)

May 25th, 2007 at 8:43 pm
E três vivas para os ghost-rider-losers do Brasil.
Ah deixei um personagem ser feliz
Uhuuuuu
Confira lá no Sereias e desconfiados.
Espero que consiga chegar ao fim do texto ;P
May 25th, 2007 at 8:45 pm
P.S. E no topo dos downloads;
Los Panchos
Los Panchos
Los Panchos
Los Panchos
;P
May 25th, 2007 at 8:47 pm
ops, quis dizer ghost-writers. Minha cabeça tá cansada após oito horas de trabalho criativo. Sublimar é preciso.
June 4th, 2007 at 11:00 am
Eu já conhecia este seu conto. Para mim ele está entre os seus melhores. É sempre bom reler você. AbraçoDasMontanhas.
December 17th, 2007 at 11:37 pm
Adorei seu conto!!
Muito bom mesmo, parabéns!
Beijos,
Fê