Duas margens
Para Lika
Meu corpo é este rio que você vê
a tocar duas margens
sem pertencer a nenhuma.
Não é fora de mim que a travessia é ação,
mas dentro,
entre as raízes arrancadas
e as novas que tento fincar ao chão.
Meu chão é movediço,
daqueles em que não se consegue deixar pegadas.
Sem meus rastros,
sem as migalhas deixadas no solo como orientação,
eu atravesso espaços à procura da mesma certeza feliz,
que mora nos meus olhos antigos,
mantidos vivos nas fotografias de infância.
Em minha antiga casa agora sou visitante,
em minha nova terra serei sempre estrangeira.
Sou recebida com a panela fumegante da comida caseira,
por braços que me enlaçam
a tentar suprimir as distâncias.
E agora ir embora partilha duas dores:
a de deixar a nova casa em que sou forasteira
e deixar as paredes que me viram crescer.
Flutuo como quem jamais teve pés em terra firme,
sou aquela que caminha por uma estrada
com dois pontos de parada,
sabendo que o corpo nunca descansará em nenhum.
Sou o próprio movimento
e a minha incansável travessia.
Trago nos pés a poeira da saudade
e vivo como todos os rios,
a tocar duas margens
sem pertencer a nenhuma.

May 29th, 2007 at 12:44 pm
“atravesso espaços à procura da mesma certeza feliz…”
Será que essa busca terá fim algum dia?
Quanto às raízes, nem sei das minhas pois vivi sempre no ambivalente mundo dos passageiros.
Obrigada por sua amizade e compreensão.
Beijos!
June 1st, 2007 at 10:58 am
reconheço este ir e vir sem pertencer…
sempre assim, o eterno acostumar-se
e o caminho do meio.
beijos, querida.