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Relax - Frankie goes to hollywood

June 29th, 2007 by jana

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Sexo

June 28th, 2007 by jana

lady_oncoach.jpg

(Ilustração Giovanna Casotto - Lady on coach)

Sexo não tem sexo, baby.
Sexo é extensão de pele a se misturar à outra.
Mãos, pernas, língua-na-língua.
Sexo é sinfonia marcada
com as notas que migram do sussurro ao grito,
da respiração leve à ritmada,
dos dedos a cortarem o ar,
como canção ouvida através das paredes.

Sexo não tem etiqueta,
guardanapos brancos para limpar os cantos da boca.
Sexo se abocanha com todos os dentes,
como fruta retirada direto do pé,
madura-carnuda-sumo-e-sabor.

Sexo é colhido com a ponta da língua,
pingando saliva e se misturando aos líquidos,
derramados-espalhados pela superfície fina dos tecidos.
Sexo é extravazamento, nunca represa,
é explosão,
é perna ao alto,
unhas e dentes firmemente cravados.

Sexo arranca todas as placas,
dedos na boca-silêncio,
proibido estacionar.
Sexo é excesso,
uns dizem retrocesso,
selvageria-bestiário-dos-homens.
Sexo é sagrado,
corpo e sangue,
nada tem haver com profanação.

Sexo é dança,
cujos passos desafiam a gravidade,
vertical-horizontal-olhos-pousados
no além-além-linha onde o sol nasce.
Sexo é fonte perene,
onde o desejo ciclicamente se renova,
desaguando vida,
misturando pulsos,
fazendo o querer sempre querer,
afastando o homem da vontade do fim.
Pequena morte que é,
mas que aponta sempre-sempre
para um reínicio.
Sexo é ponto,
sim,
ponto de partida.

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Saudade, ê

June 25th, 2007 by jana

Saudade é descobrir que aquilo
que era dia-a-dia,
prato simples e farinha,
roupa de casa e chinelos,
é tão brilhante como punhados de ouro,
a reluzir e encher os olhos.
E meus olhos estão cheios agora
de água limpa,
peito transbordando lembranças,
vontade de ficar,
mas impulsionada pelo ter que ir.

Saudade é tocar quem se ama
e sentir que o corpo quer se demorar
no abraço aconchegante,
cama e rede,
café quente e aromas.
Meu olfato limitado
pesca do ar os cheiros dos corpos amados,
que se misturam em sinfonia,
tocando a canção do até mais.

Dedilho canções nos cabelos prateados da minha velha vó,
e sinto meu pai amparar as lágrimas por dentro.
Minha mãe, a vejo quieta, vermelha como uma maçã de outono,
madura e firme, como os frutos que querem cumprir
a sina de estarem enfeitando o seio das árvores em cada estação.
Do meu irmão levo o olhar e o riso,
e ele diz, com os dentes infantis:
- “Deixe de ser besta, menina,
você volta, ué!”.

Sigo então na minha carruagem de ferro,
sobrevoando as lágrimas todas desembocadas em mar.
Sigo para outros braços,
que também deixei vazios e que agora busco encontrar.
Sigo, com os olhos marejados,
com coração apertado,
pingando saudade pelo caminho,
deixando um rastro para que mais tarde
eu possa novamente voltar.

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“Olha pro céu, meu amor…”

June 22nd, 2007 by jana

bandeirolas-junho-de-1990-cachoeira-bahia-foto-adenor-gondim.jpg

(Fonte: Imagem de Adenor Gondim - São João em Cachoeira - Bahia - junho de 1987)

Para quem optou por não se prender a crenças e instituições, gostar de São João é contraditório. Assumo minha condição de ser humano contraditório, pois melhor ser e festejar o dia como uma menina que adora o colorido da data do que vestida com uma blusa padronizada nos forrós da moda, espalhados pelo nordeste. Para quem não sabe, sim, sou nordestina, nascida na Bahia e quem nasce no Nordeste, mesmo que corra e se esconda nos buracos mais profundos da terra, ainda assim crescerá ouvindo os acordes de uma sanfona saudosista e sendo ofuscado pelas chamas das fogueiras acesas na noite de São João.

Como já disse, não creio no santo, nem na igreja e muito menos nos seus dogmas, mas gosto de festejar a vida, pois sabe-se lá até quando estarei aqui neste palco armado apenas por uma breve temporada. Festejo sim, pelo simples direito que tenho de abrir os braços e girar como um pião tonto, solto pela mão do menino, que se delicia vendo o brinquedo ganhar ares de furacão.

Quando eu era menina, minha mãe me arrumava um daqueles vestidos feitos de chita, amarrava fitas nos meus cabelos, pintava pintinhas no meu rosto e lá ía Janaína, ou Janinha, como minha mãe sempre me chamou, pronta para dançar uma quadrilha ensaiada exaustivamente nas aulas de educação física na escola. Lembro que nestes dias minha timidez crônica morria e eu conseguia até olhar de frente para os pais, amontoados numa arquibancada de cimento, prontos para se verem refletidos como crianças nos rostos dos filhos. Lembro de minha mãe com uma Kodak velha, tirando fotos tortas e guardando de mim momentos congelados de alegria. “Olha a chuva!”. Cubro minha cabeça com as mãos em arco e os olhos de minha mãe, mãe canceriana, chorona por natureza, faz o choro-chuva cair no cimento da arquibancada. Penso então que ela entristece. “Ixe, devo ter dançado errado e mainha deve estar morrendo de vergonha…”. Penso, mas logo o sorriso dela, misturado ao vermelho do rosto, me faz perceber que está tudo bem e que choramos também quando estamos felizes. “Olha a cobra!”. Pulo como um cabrito novo e a música me faz querer continuar a pular, como se quisesse alcançar a plenitude destes momentos e devorá-lo, para misturá-lo depois à minha carne passageira. “Olha pro céu, meu amor, vê como ele está lindo…”. Lembro do meu par apontando para o teto do pátio do colégio, enfeitado de bandeirolas coloridas. O cimento não me impedia de ver que o céu estava lá fora, azul claro morrendo para o escuro, despontando as primeiras estrelas e abrindo as portas para uma lua gostosa de se ver.

Quando os últimos acordes ecoavam pelo pátio da escola, saíamos acenando em círculo para uma arquibancada cheia de pais, que aplaudiam os erros e os acertos da dança e que colhiam, naqueles sorrisos cansados de quem parecia ter dançado a noite inteira, os sorrisos antigos de homens e mulheres, que foram meninos e meninas um dia. Depois da apresentação das quadrilhas juninas, as professoras distribuíam o lanche, trazido em bandejas pelos próprios alunos. Lembro de insistir uma vez que minha mãe envolvesse a bandeja com um celofane vermelho. Tudo parecia dez vezes mais mágico envolvido pelo papel. Então víamos bandejas envolvidas por celofanes amarelos, vermelhos, verdes, azuis, transparentes enfeitarem uma grande mesa reservada para os quitutes. Amendoim cozido, milho, canjica, bolos, laranjas, tudo abocanhado pelos olhos e pelas bocas nervosas de uns meninos já com as caipiras amarrotadas. Os bigodes feitos a lápis e as pintinhas nos rostos das meninas agora eram borrões, que marcavam em pouco tempo o fim da festa. Ali só era o começo das festas, que abriam as férias de junho.

Lembro que meus tios tinham um sítio próximo à cidade e para lá eu ía todos os anos na festa de São João. O milho plantado era colhido e a canjica preenchia pratos e mais pratos amarelinha e fina, daquelas que desmancham na boca, entre os dentes. Minha tia deixava eu lamber um pedaço da panela e eu ficava lá entre ela e minha mãe, pescando pra mim as impressões primeiras de uma noite que chegaria logo. No fim do dia, uma fogueira grande já estava armada em frente à casa. Na área ao redor, bandeirolas e balões de papel colorido enfeitavam tudo. Meus primos acendiam bombas e vulcões e eu ficava observando o brilho sair do chão para riscar o céu como estrelas que vão beijar o solo depois. Na radiola, um disco do Gonzagão, na mesa os doces feitos por minha tia e pelas outras mulheres da casa. Os cachorros latiam com medo do pipoco dos fogos, meu pai acendia os rojões para os meninos não queimarem os dedos e eu brincava com chuvas de prata, que acompanhavam meus movimentos circulares, como vaga-lumes prateados cruzando o ar. A fogueira consumia-se. Fogo alto, vermelho, um espetáculo bonito de ser ver em meio a todo aquele breu. A noite prosseguia e Gonzagão não cansava de cantar na vitrola seu “tá danado de bom, tá danado de bom meu cumpadi…”. Eu colhia tudo, com olhos e ouvidos de menina acesa, viva como a chama das fogueiras, que queima a lenha nova. Somos assim, não? Grande chama quente, que aos poucos dimui até virar um dia cinzas. No dia seguinte, a manhã acordava com cheiro de pólvora dormida, de cascas de amenoim espalhadas pelo chão, juntamente com restos de traques de massa e bombinhas. A fogueira agora estava boa para assar milho e não faltava quem levasse sua espiga mais bonita, para vê-la avermelhar-se na brasa quente. Brasa vermelha, lembrança viva, é isso que sinto quando vejo as bandeirolas se erguerem novamente, riscando o céu nestas manhãs e noites de junho.

Em minha nova cidade, São Paulo, para onde me mudei com ares de retirante, o mês de junho passa como um mês qualquer. Arrumei então minha mala e me mandei para Salvador atrás dos meus instântaneos de felicidade. Nada disso tem haver com crenças ou dogmas. Se crêem no Santo, eu creio apenas nas minhas lembranças, parte boa de minha vida, que há todo tempo tento recordar. Só tenho o passado e a vivência convulsiva ndo presente. Deixo o futuro no seu canto, projeção que ele é, mas quando o cheiro da pólvora enche o ar, quando o milho vira canjica e os rojões diluem-se em estrelas pequeninas a se precipitarem para o chão, eu penso por dentro… “Ah, hoje é noite de São João, menina, veste logo essas lembranças puídas e venha dançar o eco das canções de Gonzagão”. “Olha pro céu, meu amor/ vê como ele está lindo/ olha pra aquele balão multicor/ como no céu vai sumindo”(Olha pro céu - Luiz Gonzaga). Olho pro céu e mergulho também os olhos por dentro de mim. Vejo uma menina com sardas no rosto, sorrir tímida com sua caipira vermelha. “Vem, menina, me dá aqui sua mão que vamos dançar esta quadrilha até o sol raiar”. Minha menina antiga me oferce as mãozinhas miúdas e rodopiamos em volta desta fogueira alta que é a vida, colhendo os restos dos rojões, como fragmentos de estrelas, que vieram pousar entre nós. “Anarriêeeeeee! Viva a São João!!!”. Então na sucessão do dia, celebro minhas lembranças como quem colhe o milho no agora e amanhã reincia a plantação.

As Noites de Junho de Antigamente
Luiz Gonzaga

Composição: Luiz Gonzaga / José Fernandes

Antigamente o céu ficava colorido de balões,
Como estrelas a brilhar,
Eram mensageiros de perdidas ilusões,
Que seguiam seus caminhos sem voltar.

Antigamente o céu ficava colorido de balões,
Como estrelas a brilhar,
Eram mensageiros de perdidas ilusões,
Que seguiam seus caminhos sem voltar.

São João, São Pedro, Santo Antonio,
Fogueiras, amor e matrimonio,
Tudo era tão lindo, era diferente,
Nas noites de junho, de antigamente.

Tudo era tão lindo, era diferente,
Nas noites de junho, de antigamente.

Todos cantavam, lindas canções,
Pulavam fogueiras, soltavam balões,
Tudo era alegria, tudo era emoção,
Mil sonhos lindos em cada coração.

Tudo era alegria, tudo era emoção,
Mil sonhos lindos em cada coração.

Oi pega o balão, pião,
Não rasga o balão, pião,
Oi pega o balão, pião,
Não rasga o balão.

Antigamente o céu ficava colorido de balões,
Como estrelas a brilhar,
Eram mensageiros de perdidas ilusões,
Que seguiam seus caminhos sem voltar.

Antigamente o céu ficava colorido de balões,
Como estrelas a brilhar,
Eram mensageiros de perdidas ilusões,
Que seguiam seus caminhos sem voltar.

São João, São Pedro, Santo Antonio,
Fogueiras, amor e matrimonio,
Tudo era tão lindo, era diferente,
Nas noites de junho, de antigamente.

Tudo era tão lindo, era diferente,
Nas noites de junho, de antigamente.

Todos cantavam, lindas canções,
Pulavam fogueiras, soltavam balões,
Tudo era alegria, tudo era emoção,
Mil sonhos lindos em cada coração.

Tudo era alegria, tudo era emoção,
Mil sonhos lindos em cada coração.

Oi pega o balão, pião,
Não rasga o balão, pião,
Oi pega o balão, pião,
Não rasga o balão.

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Não pare, coração velho

June 20th, 2007 by jana

Para meu pai

Houve um tempo em que a dor
vinha dos dedos apertados nas portas
ou dos arranhões vermelhos dos joelhos.
A dor agora é por dentro,
cavando-remexendo-fazendo-sangrar.
Seu coração bate errado agora, meu velho,
e sabe-se lá como fazê-lo não parar.

Não pare, coração velho,
porque ainda sou menina,
e preciso deste relógio vermelho,
marcando meu tempo
e me fazendo ver que cresço por fora,
mas permaneço criança por dentro.

Você e esses olhos que riem,
você e o jeito que brinca com os bichanos peludos,
me fazem perguntar insistentemente
por que este coração velho agora quer enganchar
na marcação repetitiva do ciclo de nossas vidas.

Não pare, coração velho,
deixe de lado a preguiça,
porque meu velho nos bombeia vida
e sem ele sei que vamos parar.

Enquanto tento te convencer
de que há ainda muito sangue a percorrer a viela das veias,
encosto meu ouvido perto do seu peito,
fecho os olhos e fico a imaginar
que sou aquela menina pequenina,
a ouvir a canção forte
de um coração-pai a celebrar uma nova vida,
pequena-frágil que acabara de chegar.

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Medos

June 13th, 2007 by jana

(Ao som de Emotion in motion do Rick Ocasek)

Não tinha mais medo do escuro
desde que conheci a suavidade dos teus olhos negros.
Com eles aprendi a caminhar sem tatear paredes,
pés firmes-ombros distensos,
seguia segura assim em frente.

Mas tudo que é arrancado de um solo fértil,
mente-húmus-chão de vida,
deixa lugar para florescer novamente
não o mesmo, mas algo sim diferente.
Os medos antigos voam longe,
os novos aparecem rentes.

Viro menina das menores
feita de vidro e fragilidades.
Você me desconhece.
Onde está a mulher?
- Escondida debaixo da cama,
esperando os sufocamentos passarem.

Você perde a paciência,
a voz quente esfria,
e os medos aumentam
como erva ruim a destruir o colorido
daquilo que plantamos em perfume.

Os olhos dos outros também estranham.
- Logo você… Tão forte…
Carne, sou feita de carne.
Nervos, também sou feita deles.
Tenho medo das agulhas
e agora todas elas me atravessam.
Sejam aquelas que não encaro,
sejam estes seus olhos-lança.

Voltei a ter medo do escuro,
liguei todas as luzes,
me encolhi embaixo de camadas de pensamentos soltos,
e assim dormirei esta noite,
porque seus olhos negros-firmes
voltaram-se para outro lado
e eu que caminhe sozinha novamente.

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Orkut: da rede de amigos confiáveis às agressões e golpes. Permanecer ou sair?

June 12th, 2007 by jana

orkut_pg1.jpg
Cresci ouvindo verdades absolutas, até que aprendi, talvez no jogo da tentativa e erro, que as verdades de um podem não ser a do outro. Acredito que toda tentativa de homogeneização é violenta, porque passa por cima da subjetividade dos indivíduos. Estava acompanhando o post “Desentendimentos na internet e ética” do Alessandro Martins, em que o autor fala da crescente onda de agressões no meio virtual e da dificuldade de se perceber que por trás de um monitor frio existe uma pessoa, com uma história de vida, com referenciais, que precisa não somente ser respeitada como também precisa respeitar o outro, para que não retornemos, como mesmo disse o Alessandro, à época dos tacapes.

Resolvi centrar o olhar em um recorte deste vasto mundo paralelo, que é a internet. O recorte, que anda chamando minha atenção, é a comunidade virtual Orkut. Em sua página inicial, encontramos um resumo do que seria esta comunidade. “O Orkut é uma comunidade on-line que conecta pessoas através de uma rede de amigos confiáveis”. Inicialmente, a idéia era essa. O espaço havia sido criado primordialmente para aproximar as pessoas, dinamizar os contatos, ou seja, para estreitar os laços de amizade. Com o tempo, a comunidade virtual cresceu e dentro dela comunidades menores, voltadas para reunir pessoas com interesses parecidos, foram se multiplicando. Comunidades voltadas para cinema, música, literatura, esportes, moda, cidades e tantos outros assuntos, que fazem parte da realidade fora dos monitores. O projeto é um sucesso, não há como dizer o contrário, mas a utopia de “uma comunidade que conecta pessoas através de uma rede de amigos confiáveis” vem sendo minada já há algum tempo.

Um lugar destinado ao estreitamento dos laços de amizade e ao surgimento até de novos laços vem sendo contaminado por uma onda de agressões, pela multiplicação de comunidades, que pregam a intolerância à diferença, como as comunidades homofóbicas, racistas, anti-semitas, entre outras e até a aplicação de golpes. Fiquem atentos, porque eles estão acontecendo. Eu mesma fui vítima de um no início do ano, mas tratarei deste ponto nos parágrafos mais adiante.

Não são poucas as comunidades cujos integrantes conjugam o verbo odiar com a mesma naturalidade que respiram. Não são comunidades do tipo odeio jiló, mas espaços em que a diferença não é só negada como também a ela são atribuídos valores. Os discursos vão do preconceito velado do tipo “não tenho preconceito em relação a … , mas prefiro que fiquem longe” até a agressão gritante. Em algumas comunidades, os integrantes ocupam seu tempo livre com a busca de perfis para serem malhados feito Judas no Sábado de Aleluia. Os tópicos são criados, o endereço dos perfis são colados no tópico e os integrantes da comunidade, munidos com seus paus-palavras, malham o indivíduo até a exaustão. Muitas vezes, e não são poucas, os perfis malhados são atacados por uma avalanche de recados, em que a violência verbal impera. É como invadir uma casa em que a janela e a porta vivem constantemente abertas. No Orkut, não há como impedir que estranhos visitem seu perfil, já que ele é público. No máximo podemos restringir algumas informações apenas para os amigos e bloquear visitantes indesejados, o que não impede que fotografias e perfis sejam copiados para serem atacados pela ilusão de uma falsa supremacia grupal.

Algumas pessoas já desistiram do Orkut por se sentirem feridas no seu direito de ocupar um espaço sem que sejam desrespeitadas. Muito pouco se pode fazer diante de uma agressão no espaço virtual. Quem ocupa-se da tarefa de disseminar a intolerância quase nunca mostra a cara. Os perfis fakes são mais comuns e são utilizados para protegerem a identidade do agressor e, apesar das comunidades, que pregam a intolerância e a violência, serem denunciadas, outras aparecem mais tarde e logo ganham adeptos. A impressão que tenho é que toda essa agressividade, que é sufocada no espaço dito “real”, está sendo extravazada no espaço virtual, ou seja, aquele que não pode agredir verbalmente alguém na rua, com o perigo de responder a um processo, está utilizando o meio virtual para verbalizar sua intolerância e desrespeito às diferenças, sem que responda por essa violência.

Outra questão, que também está atingindo e transformando este espaço, cuja utópica imagem era a de um local seguro, em que relações saudáveis entre os indivíduos seriam estabelecidas, é o uso da comunidade virtual como campo de aplicação de golpes. Como disse anteriormente, fui vítima no início do ano de um golpe, assim como algumas pessoas próximas. Eu participava de uma comunidade e organizei, juntamente com outros integrantes, um Orkontro, para que rompéssemos a barreira virtual. O Orkontro aconteceu e conheci algumas pessoas da comunidade. Um dos integrantes, no entanto, soube fazer uso do Orkut como forma de aplicar seus golpes. Ele criou um perfil e se auto-intitulava de produtor musical. Subentendo que as informações contidas nos perfis sejam verdadeiras, eu e mais algumas pessoas fomos enganadas pela ilusão da “rede de amigos confiáveis”. Eu estava de mudança para Sampa e queria vender minha guitarra, um presente que eu havia ganhado há dez anos atrás. O rapaz, que se apresentava como produtor musical, ofereceu-se para vender o instrumento e eu a entreguei, sem fazer com que o mesmo assinasse um documento se responsabilizando pela venda. Resultado: perdi a guitarra. Depois fiquei sabendo que o mesmo rapaz, que havia iniciado um namoro com uma das integrantes da mesma comunidade, aplicou-lhe um golpe e levou uma soma de 3000 reais dela e de seus amigos. Descobrimos então que ele não era produtor, que não morava na região que dizia morar, enfim, ele sumiu e continua impune e talvez esteja ainda no Orkut, aplicando novos golpes.

Remetendo novamente ao texto do Alessandro Martins, é importante realmente perceber que esse mundo virtual é tão real como este em que vivemos e que, por trás dos monitores, existem pessoas reais, que têm nas mãos o mesmo poder de construir e destruir as coisas. O homem tem a capacidade de construir aquilo que será utilizado ao seu favor e contra ele mesmo. É como ter entre as unhas o veneno e a vacina. Consigo ver pontos positivos no Orkut e por isso permaneço nele, mas também consigo ver o quanto este espaço está sendo utilizado para o extravazamento da violência contida na sociedade. Como fora dos monitores a intolerância é velada, por haver leis que, quando executadas, condenam os crimes contra os direitos humanos, temos a impressão de que a calmaria está instaurada, mas observando um espaço como o Orkut, que agrega pessoas reais, mesmo que estas se disfarcem por perfis fakes, vemos que estamos diante de um quadro de violência em ebulição e que já está experimentando o extravazamento. Não se pode pensar o Orkut como um espaço neutro, em que nada que se passa lá dentro tem repercussão fora, afina lde contas ele é uma extensão da nossa realidade. As pessoas são reais e aquilo que é dirigido a elas, seja positivo ou negativo, também tem repercussão real, portanto reitero o post do Alessandro e acredito que temos que ficar atentos para essa onda de violência e intolerância sim, assim como a onda de golpes, para nos protegermos sem que migremos do pólo do oba-oba completo ao da desconfiança profunda em relação a tudo que diz respeito à internet. Assim como não devemos sair às ruas sem olhar para os lados, desatentos a tudo, como também não devemos deixar de sair por medo, na internet as regras são quase as mesmas. Aproveitemos os recursos, mas atentos ao que fazemos e ao que os outros também fazem.

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Hoje, no Brutti, “O domador”

June 10th, 2007 by jana

Porque para todo aquele que sente prazer provocando a dor, existe um que sinta prazer sentindo a dor provocada.

Será?

Aguardo vocês no Brutti.

Beijo

Jana.

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Festa Nave

June 8th, 2007 by jana

Tá em Salvador? Então se mande pra Nave!!!!

festa-nave.jpg

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Memoriando ou à espera dos olhos nus

June 7th, 2007 by jana

Minha velha casa tem cheiro de saudade madura,
daquelas que escorrem néctar
e marcam a pele com a lava adocicada
das lembranças pueris
e do eco dos risos antigos,
colhidos dos sons aprisionados na memória.

Meu corpo não cabe mais no colo de minha mãe
e meu pai já não conta tantas histórias.
Fui embora e não vi o mamoeiro morrer na faca,
por ter sido comido pelos bichos,
assim como as minhas lembranças,
que se perdem sem que eu perceba sua falta.

Lembranças que se amontoam desordenadamente pelos cantos,
misturando-se às novas e envelhecendo silenciosas
até serem pulverizadas como as estrelas,
com a chegada, mais tarde, da idade dos olhos nus.

Minha velha vó ganhou estes olhos,
parados-distantes-vazios,
e agora chora a morte velha dos pais,
que se foram quando eu nem era menina.

A cabeça tem dessas armadilhas dolorosas:
esconde as dores nos cantos escuros
e de repente resolve levantar pó e
pôr as feridas para serem arejadas pelo ar e sol,
transformando o que era antigo em chagas vermelhas,
a sangrarem dor a todo momento.

Chore, minha velha, chore,
chore a lembrança antiga-antes-perdida,
deixe escorrer novamente toda a dor superada
e agora, canção arranhada,
riscando a pele em ritmo contínuo.

Chore que eu estou por perto agora,
passageira-forasteira eu sei,
mas é hora de partilhar memórias,
e eu colho cada uma como quem colhe frutos ainda verdes,
e abafam nos cantos
para tê-los maduros mais tarde,
quando a hora da saudade tocar.

E quando esta hora chegar,
trazendo cheiros-sons-imagens,
revivendo e somando o ontem ao hoje,
eu assistirei silenciosa os estilhaços de meu passado
serem projetados como slides coloridos,
até o dia em que meus olhos ficarão nus
e a alegria e as dores renascerão em cores fortes,
me dando vidas pararelas,
vidas estas que já vivi e
que moram escondidas por detrás de minhas retinas escuras.

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