Peço desculpas aos preconceituosos, mas respeito é fundamental

June 1, 2007 por jana

Pela primeira vez, em anos, resolvi postar um texto diferente em relação ao conteúdo do meu blog. Sempre utilizei o antes Noturnando (meu antigo blog) e o agora Casa de Burlesco como oficina literária, onde publico meus contos, poemas e crônicas. Hoje, no entanto, resolvi fazer diferente. Resolvi me despir dos personagens e dos eus-líricos e falar um pouco sobre um assunto sem metáforas ou eufemismos, nem canção dramática ou arroubos de vitimização, porque essa nunca foi a minha praia.

Geralmente nos preocupamos com manifestações de preconceito, quando estas nos atingem, o que é um comportamento errôneo, já que assim como nos sentimos agredidos com os conceitos pré-concebidos dos outros em relação a nós, temos também que exercitar constantemente o bom senso. Será que não andamos por aí apontando o que nos é diferente como algo a ser julgado e condenado? Será que não exercitamos no automático nossa intolerância com piadas, riso e dedos apontados? Não estou me colocando como alguém que não possui preconceitos, mas como alguém que está passando por um momento de releitura destes conceitos cristalizados e que também lida diariamente com o preconceito do outro.

Sempre fui uma pessoa gorda. Fui uma criança, uma adolescente e agora uma adulta gorda. Durante toda minha vida lidei com o fato de não pertencer a um padrão estético vigente e desde menina lido com olhares, piadinhas e até mesmo com agressões verbais. Experimentei diversas fases, que migraram da completa alienação, ou seja, eu tentava fingir que não sofria nenhuma agressão até a fase da reação estúpida, ou seja, comecei a responder a altura, sem que isso me ajudasse em nada a lidar com o turbilhão de sentimentos negativos que me atravessavam. Tenho uma coleção de histórias guardadas em mim ao longo dos anos, que seriam suficientes para preencher páginas e páginas virtuais de um blog voltado para o assunto, mas vou falar apenas da sensação estranha que tive depois de passar meses longe de minha terra natal: Salvador. Moro atualmente em São Paulo, onde vivo com meu marido, Fábio, igualmente gordo e que também sofre com os mesmos olhares tisc tisc como eu e como qualquer gordo que resolva ter uma vida normal, sem assumir aquele discurso de que “estou renunciando à minha vida porque os outros acham que eu devo”.

Esta semana, um dia depois da minha chegada à Salvador, resolvi marcar um almoço com minha amiga de anos, Andrea. Resolvemos nos encontrar no shopping Barra, localizado próximo à orla. Andrea e eu temos um fenótipo parecido e ela, assim como eu, também é gorda. Uma dupla de amigas gordas passeando no shopping chama atenção. Mas por que chama tanto a atenção? Será que é porque somos visíveis demais ou porque já foi convencionado que não temos direito de passear livremente por um shopping, de conversar como qualquer dupla de amigas, que não se vêem há muito tempo, ou seja, de que não temos direito de partilhar o mesmo lugar das “pessoas comuns” e de vivermos nossas vidas?

Vou pontuar exatamente os incidentes desta tarde fatídica, até mesmo para ver se neste processo de catarse, eu me livro desta sensação chata com que estou lidando agora. Tudo começou quando resolvemos escolher um lugar para almoçar. Escolhemos comer comida árabe, não fast-food, como o clichê usual apontaria para nós. Enquanto Andrea pagava pelo prato, eu me dirigia à mesa, quando ouvi uma mulher resmungar para a amiga. “Os elefantes vieram pastar na praça de alimentação”. Não comentei nada com Dea, porque não queria estragar aquele início de tarde, planejado para batermos papo. Almoçamos. Quando me dirigia para o banco, para consultar o saldo da conta, passamos pela frente de um stand de venda de equipamentos de academia. O vendedor conversava com o vigia, quando nos viu e, achando que eu não enxergava seus movimentos e que eu não ouvia suas palavras, começou a rir para nós e nos apontar, completando o quadro com um maravilhoso “que ridículas!”. Minha tarde mal começava e eu já começava a perder a paciência, que eu tento preservar a duras penas. Virei para o rapaz e perguntei qual era o problema. Ele, pego de surpresa, recolheu o riso e me perguntou qual era o problema de olhar para trás e se agora era proibido. Eu disse que não, mas que eu não via motivos para risos centrados unicamente em minha pessoa e na de Andrea.

A tarde não acabou, como eu gostaria. Ainda passamos por mais duas experiências infelizes. Uma com uma dupla de adolescentes, acompanhadas por um pai, não muito preocupado com a educação de uma das meninas, que era sua filha. Novamente o riso e os dedos apontados. Eu firmei o olhar e elas riam e me olhavam com o rabo de olho, como se eu não percebesse nada. Quando perdi toda a minha paciência, resolvi ir embora pra casa. Na saída, quando me dirigia ao ponto de ônibus, um homem, igualmente gordo, soltou a seguinte pérola: “Vocês estão precisando de um regime, hein?”. Saliento que o homem era igualmente gordo, até mais pesado do que eu, mas mesmo assim, ele soltou a piadinha.

Não vou me estender em mais histórias, porque todas versam sobre o mesmo assunto: intolerância em relação às diferenças e preconceito. O que estou percebendo é que, mesmo com tantas campanhas em relação ao respeito às diferenças, a intolerância persiste e agora me parece muito mais forte e com um timbre de voz muito mais alto. Um lugar, por exemplo, voltado inicialmente para tecer teias de amizade e de outras formas de relacionamento, como o Orkut, se tornou um reduto de comunidades cuja intolerância em relação à diferença é a bola da vez. Perfis de pessoas são expostos nas comunidades, para que os membros sacaneiem. Quando as pessoas não são sacaneadas in off nas comunidades, têm seus perfis invadidos por uma onda de recados, que vão desde xingamentos até coisas do tipo “você merece morrer” ou “se mate”. A agressividade agora circula solta e sem limites e o Orkut, como uma comunidade virtual, é apenas reflexo da sociedade a qual pertencemos, que cada vez mais prega a negação da diferença e a massificação de padrões estabelecidos e estupidamente disseminados. Sou contra um discurso reacionário, ou seja, de negar por exemplo quem é magro por eu ser gorda, pois isso é devolver o preconceito na mesma moeda, sem que ele seja diluído. Sempre fui contra à reação boba de grupos atingidos pelo preconceito, seja ele qual for, que usem da negação a arma para se protegerem. Não adianta condenar o magro, sendo você gordo, ou o heterossexual, você sendo homo e aí por diante. Essa inversão de discursos só leva a mais intolerância e violência.

Postei este desabafo, não por acreditar que a partir dele as coisas possam mudar, mas para me lembrar sempre, ao abrir meu blog, que antes de desenvolver conceitos em relação ao outro, eu tenho que me lembrar dos pontos em que sou atingida. Tenho tentado, desde há algum tempo, respeitar a diferença, porque é esse o princípio maior do indíviduo: somos únicos e devemos ser respeitados em nossas singularidades. Sou uma pessoa normal, que sempre estudou, trabalhou, passeou, fez amigos, teve amores, que tem uma nova família a construir e que luta todos os dias para se desvencilhar de clichês atribuídos por conceitos generalizantes, que já convencionaram que o gordo é incapaz, é glutão, é lento, é bobo e que não tem direito a uma vida normal. Por isso, peço desculpas aos preconceituosos, mas respeito é fundamental. Não preciso de compaixão, nem de hipocrisia, apenas quero poder viver minha vida, sem ser agredida por olhares, risos e piadinhas, que só escondem, neste processo de apontar no outro a diferença, as próprias limitações e inseguranças. Ou seja, se você anda por aí criticando demais o outro, o que será que está por trás disso?

Quer ler mais sobre o assunto? Sugiro ler o artigo publicado no Jornal da Facom sobre gordinhos, de autoria da Vanessa Barbosa.

19 comentários

  1. BETE NASCIMENTO diz:

    É terrível a descriminção q sofremos…
    Infelizmente o ser humano ainda não aprendeu a viver com as diferenças e acham q ser gordo ou magro d+, ser alto ou baixo, careca ou cabeludo é um defeito.
    Aos olhos dos ignorantes somos motivos de piadas e preconceito. É muito triste viver assim, mas o amor de algumas pessoas fazem com que sejamos felizes e consigamos superar esse preconceito.
    Ótimo texto Jana, parabéns!

  2. Lika diz:

    Janis, cara
    Gostei do texto, é um assunto sério sem dúvida alguma. Manda notícias da Leela. Saudade :* Beijos!

  3. Lívia diz:

    Adorei Jana.. ficou muito bom!!
    concordo com q tu disse.
    Beijao

  4. Janayna diz:

    É deprimente o comportamento de certas pessoas!! Parabéns Jana pelo texto, simplismente ma-ra-vi-lho-so! Bjuxxx

  5. Jana diz:

    Jana!!!
    Como te entendo! Aliás, como não entendo esse mundo em que vivemos! Acho que eu desci no planeta errado, minha pousada era em marte só pode!
    Mas, relevemos, um povo ainda tão ignorante e selvagem, que se acham as “Cachorras” e os “Tigrões” e não sabem nem o que é “português”!
    Bjs!

  6. Daniel Becher diz:

    Janaína,

    conheci teu blog através do blog do teu esposo, que comentou ontem no meu. Li agora este post e devo dizer que “disconcordo” com uma coisa.

    O preconceito está incutido na gente de uma forma que não sai, ou leva tempo. Seja com raça, estética, etnias, religiões, etc. Eu mesmo, sou gordo, já sofri e (com menos intensidade e de maneira mais indireta) sofro hoje com isso e, mesmo assim, sou preconceituoso. Mas não vejo isso como algo RUIM, via de regra. Eu acho que o preconceito tem seus limites. Te dou um exemplo: não gosto de louras. Isso é preconceito, porque nunca fiquei, namorei, ou seja lá o que for, com uma loura. Mas eu não quero pra mim, deixo para os jogadores de futebol. Tá vendo? Mais preconceito, mesmo eu sendo apaixonado por futebol.

    Tenho uma incontrolável aversão por alguns gaúchos que vêm pra Florianópolis no verão encher o nosso saco, explorar nossa terra; mas tenho a música gaúcha como minha preferida. Veja que contradição.

    Não quer dizer que eu esteja dizendo que todas as louras ou alguns gaúchos são ruins e nem que eu deva declarar isso em público discriminando-as quando passarem. Olhares são inevitáveis, mas a boquinha fechada sempre! Não preciso ofendê-los nem achar ruim que pisem no mesmo quadradinho de chão que eu, afinal, são semelhantes a mim, tão bons ou maus quanto eu.

    O que tento te dizer - e não sei se consigo -, é que preconceito é puramente inevitável, partindo da premissa que preconceito é, segundo o Aurélio, “Conceito ou opinião formados antecipadamente, sem maior ponderação ou conhecimento dos fatos; idéia preconcebida”.

    O fato de atacar com olhares, piadas e agressões são outros quinhentos. Estaria, aí, indo contra o princípio básico da cidadania que é o direito de ir e vir. Isso nunca, jamais, de forma alguma. E isso, sim, é prejudicial. Mas que temos todos os nossos preconceitos, temos!

  7. Lily diz:

    Eu nunca imaginei que esse tipo de coisa ainda acontecesse! Tem um monte de pessoas obesas na minha família e eu não lebro de ouvir esse tipo de comentário junto deles - muito menos tantos absurdos num mesmo ambiente e numa mesma tarde! Que horror! Se um amigo meu dissesse esse tipo de coisa com alguém na minha frente eu ia considerar seriamente o valor dessa amizade! Força pra você! Faça como a Roberléia e mande todo mundo tomar no [BEEP]!

  8. Janaína Calaça diz:

    Oi, Daniel!

    No segundo parágrafo do texto eu digo: “Não estou me colocando como alguém que não possui preconceitos, mas como alguém que está passando por um momento de releitura destes conceitos cristalizados e que também lida diariamente com o preconceito do outro”.

    Como mesmo disse no páragrafo anterior, não me coloco como alguém que não possui preconceitos, mas como alguém que está tentando diluir estes conceitos homogeneizantes.

    Daniel, eu também comentei no texto que tenho várias histórias acumuladas ao longo dos anos e que estas me fizeram pensar que, da mesma forma que eu me sinto mal sendo julgada arbitrariamente, as pessoas julgadas por mim e pelos meus conceitos arbitrários também deveriam sofrer com a discriminação, por isso eu achei por bem rever tudo aquilo que desconsidero em minha perspectiva.

    Concordo com você que o preconceito está incutido na gente e que leva tempo para que a gente comece a nos livrar dele, mas acredito que andamos perdendo muita coisa só de não darmos oportunidade ao outro de chegar a nós, porque já o julgamos antecipadamente. Você mesmo fala das restrições que você tem em relação aos gaúchos, mas não seria mais bacana, uma vez na vida, dar uma oportunidade a eles de mostrarem que não são tudo aquilo que se pensa deles? A gente acumula milhares de clichês em relação a certos grupos e vamos nos isolando deles, até que começamos a nos tornar ilhas errantes, cheias de regras próprias e de placas de não estacione aqui.

    Já fui intolerante quando adolescente e agora eu vejo o quanto isso me fez mal, porque deixei de vivenciar experiências diversas por me isolar nas minhas escolhas malucas.

    Quando eu era adolescente, eu abominava pagodeiros, nem queria conta, mas depois aprendi que não posso julgar uma pessoa apenas pelo tipo de som que ela curte. Consigo conversar com pessoas que curtem pagode e arrocha, ou o que seja, deixando de lado minhas antigas restrições e tentando enxergar o indíviduo por trás de um conceito que criei para ele.

    A questão toda é que cansei de transformar as pessoas em caricaturas e de ser transformada em caricatura também. Cansei de ligar a televisão e ver que os gordos são tratados como pessoas lerdas, incapazes, que não têm direito de levarem uma vida normal, mas de serem apenas aquilo que os outros esperam de nós.

    Para muitas pessoas pode parecer que os olhares e risadinhas não dizem nada,  mas não podemos deixar de pensar que  pessoas como essas, que riem e jogam olhares tisc tisc, são as mesmas que podem estar empregando pessoas por aí e excluindo gordos dos processos seletivos para empregos, por julgá-los incapazes de exercer uma atividade. Muitas pessoas que riem e olham torto podem ser as mesmas que estão desenhando e vendendo roupas que vão até o tamanho 44 e dando um sonoro foda-se a quem esteja vestindo manequim acima de 50. Enfim, apesar de risos e olhares parecerem inofensivos, eles partem de indíviduos que ocupam lugares e atividades dentro de uma sociedade e que podem estar contribuindo para a exclusão do gordo dentro desta mesma sociedade. Não devemos só levar em conta o preconceito visível, aquele que se manifesta em agressões verbais ou corporais, mas devemos nos preocupar também com o preconceito silencioso, porque ele também destrói, ele também machuca e interfere na dinâmica de uma sociedade.

    Como eu mesma disse, no início do post, nunca, durante anos em que escrevi para blogs, eu postei um texto diferente daquilo que costumo postar, mas achei que estava na hora de colocar para fora toda opressão que carreguei silenciosamente por anos e sei que não sou a única.

    Acho que tudo o que você disse é pertinente, Daniel, mas acredito que o mais importante é dialogar e é o que estamos fazendo. Entre concordâncias e discordâncias, nos tornamos mais flexíveis. Gosto do ambiente dos blogs por isso, porque nos possibilita discussões bacanas, que nos acrescentam, não todas as vezes, pontos necessários à vida. Gostei muito de ver você se manifestar, trazendo seu ponto de vista e é nesta mescla que vamos construindo não nossos conceitos em relação a determinado assunto, mas uma pluralidade de perspectivas possíveis sobre o mesmo.

    Abraços,

    Jana.

  9. carol diz:

    essa cidade que você deixou Jana, está alguns muitos anos atrasada no processo de cidadania. é só a gente pegar as contradições aberrantes que afloram pelas calçadas, pelos outdoors, pelas boquinhas dos políticos e dos controladores oficiais do poder, dos fazedores do carnaval - eles, que conseguiram incutir, por exemplo, o discurso fatal de vítima nos 90% da população negra, conseguindo que a maior preocupação da cidade seja a questão racial ao invés da FOME, DO DESAMPARO E DO SERVIÇO PÚBLICO FRATURADO. é foda, levará anos para curar essa gente do descaso educacional, do despreparo emocional, mas, faça-mos assim, dediquemo-nos como formigas ao trabalho árduo contra o prejuízo, bebendo coca-cola. Fernando Pessoa já dizia que devemos mesmo, para sermos plenos, sermos gordos em alma. obrigada pela sua inteligência forte. e tenha mesmo dó e piedade. como já disse, levará anos, talvez milênios para todo mundo sacar discurso até que seja vítima dele.

  10. Guto diz:

    Oi Janalinda!
    O Brasil, País hospitaleiro de miscigenaçao de raças, credos e outras formas de se expressar, esta impregnado de preconceitos tolos e ridiculos!
    Ser consumistas de normas e padroes tornam se iguais!
    Ser igual é monotono
    E ser “normal” é chato pra caralho!
    Beijao te adoro xuxuzera!

  11. Daniel Becher diz:

    Janaína,

    fico contente que olhes os comentários dessa forma. É dessa forma também que os encaro lá no meu blog (quando é pertinente, claro).

    O que eu quis deixar evidente, é que o preconceito, por si só, não é o vilão. Nossos gostos são nada mais, nada menos, que frutos do crivo dos nossos pré conceitos. Quem de nós nunca disse: “Não gosto de beterraba!” Mas nunca provamos o tal legume/vegetal/raíz - seja lá que diabos for - roxo. Mas podemos encontrar, talvez, os mesmos valores nutricionais da beterraba na cenoura, por exemplo, que sempre foi tão bonitinha ou menos feia que a beterraba (e não leve em consideração meus ínfimos conhecimentos nutricionais. Acabei de vir de uma lanchonete onde comi um Cheesee Bacon com muita maionese e isso sim é que é alimento - burps! desculpe, foi aquele monte de Coca-cola nada-light que tomei :P :P :P).

    Coitada da beterraba, poderíamos conseguir mais nutrientes nela, apesar de que o principal que ela possui também tem na cenoura. Mas eu não comprei, porém a beterraba tá lá, e o próximo cliente dessa feira vai vê-la com outros olhos. Pode não levar, mas não terá o mesmo ponto de vista meu. Apenas não agradou de primeiro momento. E não adianta darmos uma de Pollyana (eu mesmo já fiz e isso e ainda faço muitas vezes) imaginando que poderemos acabar com estas diferenças. É assim e pronto, somos humanos e apesar de não gostar de muletas do nosso caráter, isso eu creio, de verdade, que está incutido na gente e não sai (ou se sai, só por uma segunda prova na coisa pré conceituada sob pena de uma outra decepção).

    Quanto ao fato de ser gordo, eu sei o que é, como te disse, sou gordo. Bastante.

    E mais, não só já parei em processos seletivos de empresas pelo meu peso/tamanho como fui DEMITIDO por causa disso (talvez em outra conversa explico direitinho). Claro, não deixaram isso evidente. Empresa grande não ia se expor dessa forma pra um possível processo judicial.

    Sei como é usar calça jeans 62 e ter que pagar R$200,00 nela enquanto qualquer magrinho a compra por R$49,90 na Renner. Ou ter que NECESSARIAMENTE comprar um Olympikus Tube por R$250,00 porque não existe aquele Rainha baratinho nº 46. Isso quando encontra nesses moldes.

    Outra coisa que eu ACHO, é que preconceito tá muito na cabeça das pessoas que sofrem com ele (te falo isso, e não é filosofia-de-mesa-de-bar não. Experiência própria. Ainda sou assim). De tanto nos acharmos gordos demais, gaúchos demais, louros demais, asiáticos demais, acabamos sempre com o sistema de defesa ligado para qualquer possível ameaça de preconceito jogando toda e qualquer ação alheia no filtro da rejeição alimentando a nossa famigerada baixa auto-estima.

    Felizes dos que tem a cabeça boa (e não são poucos) de achar graça aos seus olhos nos diferentes do estereótipo de estética e riqueza das novelas da Globo.

  12. Janaína Calaça diz:

    Daniel! :D
    É assim mesmo que encaro os comentários. Só não levo a sério as pixações virtuais, porque isso pra mim é baixaria e à baixaria não devemos dar crédito e nem alimentar os famigerados trolls, o que não é seu caso.

    Entendi a metáfora das verduras, Daniel e achei divertíssima, mas isto tem bem mais haver com gostos pessoais do que agressões arbitrárias. Por exemplo, tenho preferências por homens gordinhos ou magrinhos. Corpos malhadíssimos não me atraem, mas nada tem haver com o fato de eu ser gorda e de achar que não devo me relacionar com homens malhados, apenas estes não me atraem do ponto de vista estético, o que não significa que eu os aponte e os menospreze por serem malhados. Tenho meus gostos, que, como você mesmo apontou, são subjetivos, pessoais. O problema não é o gosto, mas a forma como algumas pessoas acham que estes são superiores aos demais, ou seja, quando é atribuído um valor a um homem gordinho e a um homem malhado por exemplo. Digamos que se estabeleça valores para o homem gordinho e o homem malhado dentro de uma sociedade e que o homem gordinho acabe tendo um valor menor neste contexto. Este mesmo homem terá problemas em se relacionar, em trabalhar, em ter uma vida normal, já que lhe foram atribuídos conceitos ou preconceitos, que acabam interferindo na construção da imagem deste homem. Eu sou a favor da pluralidade de gostos e de sabores, mas haja espaço para todos, sem que a um seja atribuído um valor maior e a outro um menor.

    Daniel, nunca gostei da filosofia pueril da Poliana e nem acredito que algumas posturas cristalizadas se dissolvem facilmente, mas combato meus preconceitos e não sou demagoga quando digo isso. Ao longo de minha vida, construí e desconstruí muitos conceitos e venho tentando ser menos intolerante em relação às diferenças, mas essa é uma questão pessoal, ou seja, o que venho tentando fazer não é regra pra ninguém, é algo que estabeleci pra mim mesma. Se quero ser respeitada, se quero conviver pacificamente com o outro, devo respeitá-lo naquilo que ele possui de diferente de mim. Não vou condenar uma pessoa que possui crenças religiosas pelo fato de eu não as possuir, por exemplo. O fato de não acreditar em instituições religiosas não me faz sentir superior àqueles que crêem. Posso não concordar com o discurso daqueles que tomam a religião como guia, mas não lhes atribuo valores. Respeito o espaço deles, assim como quero ter respeitado meu espaço.

    Quanto ao fato de o preconceito está em nossa cabeça, eu concordo com você, mas ele não surge do nada. Somos sujeitos sociais, vivemos em contato com o outro e nossa identidade é construída nesta interação. Uma criança de um ano de idade, por exemplo, não julgará ninguém por ser gordo ou magro, porque nela ainda não foram injetados estes conceitos, mas aos poucos, à medida que ela vai tendo seu contato social ampliado, os tais conceitos vão sendo formados. Pode até parecer uma paranóia, mas infelizmente não é. Se fosse paranóia, seria uma questão a ser resolvida comigo mesma, mas a gente nota quando as coisas acontecem e principalmente quando estas são explícitas.

    Eu disse que tenho histórias guardadas e que não são frutos da minha impressão, geradas pela minha neurose em me achar gorda. Sou gorda e por que ter vergonha de ser? Uma vez eu estava em um salão, acompanhando minha mãe, que tinha ido cortar o cabelo. Enquanto minha mãe cortava o cabelo, eu folheava uma revista. Comecei a notar que a senhora, que estava sentada ao meu lado, remexia-se na cadeira, mas eu não percebi os motivos. Levantei para trocar a revista e, quando fui me sentar novamente no lugar onde estava sentada antes, a mulher, falando alto em um salão cheio de gente, disse para eu me afastar dela, porque minha banha estava causando calor e nojo nela. Eu fiquei obviamente em choque, porque não esperava ser agredida daquela forma, e apenas pedi que ela me respeitasse, pois eu tinha o mesmo direito que ela tinha de ocupar aquele espaço. A mulher continuou falando e uma das pérolas que ela soltou foi dizer “que os gordos são uma raça de gente nojenta, que deveria ser morta”.

    Daniel, em um caso como estes, o preconceito está em mim ou no discurso desta mulher? Eu vivo minha vida e sinceramente não ando por aí encarando todas as pessoas que passam para flagrar um olhar mais estranho. Quando algo me incomoda, é porque é realmente gritante. Eu tenho tantas coisas a pensar, a fazer, a desejar, a realizar, que perder o tempo reparando no olhar dos outros, só me subtrairia oportunidades de utilizar melhor meu tempo para coisas importantes. Se escrevi este texto, é porque senti um incômodo muito grande nesta tarde que descrevi, assim como senti no dia do incidente no salão. Mas volto a dizer que tudo isso é uma questão subjetiva demais e que cada um significa suas experiências ruins de formas diferentes. Uns são mais sensíveis a determinadas questões e outros a outra questões. As perspectivas são plurais, as experiências são distintas e a intensidade que estas acontecem também. Estamos aqui para partilhar tanto as perspectivas como as experiências e aprender nesta troca.

    Acho que o mais importante, como já disse antes, é que estamos aqui batendo papo e expondo nossos olhares. Fico feliz que você consiga lidar com estas questões na leveza, mas eu já não consigo mais. O tempo de rir e erguer a cabeça está um pouco suspenso para mim. Meu tempo agora é outro. Eu continuo de cabeça erguida, mas agora aprendi a questionar algumas coisas. Ser gordo é ser menos? Por que?

    Abraços

    Jana.

  13. diovvani diz:

    O preconceito está enraizado em nós, em relação a n´s coisas. Desatar esses “nós”, não é tarefa fácil - deve levar ainda algumas gerações. Todos somos preconceituosos em maior ou menor grau. Sei lá Jana… Acho que não devemos, simplesmente ignorar quem tem algum preconceito em relação a o que quer que seja. Mas acho que não devemos potencializar dando crédito ao que dizem. O que tem ser gordo(a), magro(a)? em relação a quê? Saca? O problema, é que ninguém escapa das padronzações Globais e “bobais”. AbraçoDasMontanhas.

  14. Daniel Becher diz:

    Janaína,

    Você foi pacífica com a “nobre” senhora. Eu teria enfiado a mão na cara, independente de ser ‘ele’ ou ‘ela’. E o problema dela não seria resolvido num salão, e sim num cirurgião plástico, pois a minha mão é bem pesadinha. :P
    É como eu falei, quando os pré conceitos estão dentro da gente é uma coisa. Mas quando isso é externado e atrapalha no direito de ir e vir do outro, aí sim, já não é só o pré conceito, é um crime contra o direito natural das coisas podendo se estender pra difamação, etc e tal.

    Todos nós somos preconceituosos, em maior ou menor grau. Mas isso não faz de nós infratores. Com certeza, uma mulher que fala uma asneira dessa, não é só preconceituosa. Ela tem uma tendência de ser inconveniente senão uma telha corrida.

    É isso que eu quis te dizer, capicce? O nosso preconceito é uma coisa, as atitudes que tomamos com BASE nele é outra.

    Vou te dar um exemplo e vou colocar links aqui (tomara que teu Askimet não pegue ou você não julgue propaganda):

    http://nandabalieiro.org/blog/?p=278

    O cara poderia achar realmente que homem gordo é feio. Mas ele não tinha o direito de ofender a editora do blog que nada tem a ver com o texto da Danusa Leão, apenas concordou e achou relevante postar.

    O preconceito não fez dele uma pessoa ruim, ele tinha o pré conceito de que homem gordo não é o modelo de homem ideal pra ele. Mas ele expôs isso interferindo na vida da Fernanda. A partir desse momento é que ele agiu errado e digno de um soco no meio da cara.

    Entende? É isso que eu quero dizer. Não digo que quando alguém faz piada eu não ache errado. Tenho três opções: Processar, ir pra porrada ou relevar. Mas não vejo problema em “não gostar” do gordo. Isso é um pré conceito e o que eu julguei ser inevitável.

    Também achei esse papo interessante. Vai servir de material pra um post que ainda pretendo fazer sobre o assunto.

    Mas, falando em preconceito, quero pegar o GORDO do teu esposo. Pois o GORDO do teu esposo fez este GORDO aqui babar pelo lombo de porco enquanto sinto o cheiro de bife, arroz e feijão que vai ser o almoço de hoje. Salivando…

    Hehehehe

    []s

  15. Andressa diz:

    Concordo com as discussões acima a respeito do preconceito. Minhas opiniões não se diferem muito dos pontos de vista expostos aqui.
    Entretanto, confesso que estou chocada com a falta de respeito em relação ao outro, entende? A tua história do salão me deixou um tanto quanto incomodada quanto a isso, e confesso que irritada. Se fosse comigo, não sei se agiria de forma tão civilizada quanto você.
    Puro preconceito aquela mulher? Pior. É ignorância, agressão, falta de respeito e sensibilidade em relação ao outro como ser humano em sua totalidade… São aquelas situações em que é difícil ser tolerante.
    Vai muito além de interferir no direito de ir e vir, muito além das piadinhas ridículas e de mau-gosto e das risadinhas imbecis. Acho que é algo que afeta nossa dignidade, e nosso real valor como indivíduos únicos. É nos privar de viver com toda nossa particularidade, singularidade.
    Jana, não sou de ficar puxando o saco e fazer discurso bonito, não mesmo. Rsrs. :) Só elogio algo quando realmente me agrada, e muito. E teu texto me surpreendeu por duas razões: por ter me agradado pela maneira como expressa suas opiniões. E por ter me chocado pela forma como as pessoas agem umas com as outras.
    Te dou os parabéns sim, porque mesmo diante da vontade de socar a cara daquela mulher (vai me dizer que não pensou nisso? rsrs ;)), você foi muito além, o suficiente para exigir respeito, sem tentar devolver aquela ofensa da mesma forma. E por essa razão, sem entar em contradição com suas convicções.
    Mulher, mesmo contariando minha natureza pacífica, acho que se fosse comigo, rodava a baiana, literalmente. Rsrsrs. :) Meus parabéns, e fique bem.

    Beijocas!

  16. Alessandro Martins diz:

    Um belo texto, minha cara Jana. Certa vez, escrevi um texto sobre a anorexia, dizendo que esse distúrbio alimentar não era a única doença do mundo. Fui motivado por um outro texto de um desses sites que cultuam esse mal e em que a menina doente afirmava que “a mesma pessoa que tenta ajudar o anoréxico é aquela que olha com estranhamento para o obeso” (em outras palavras, minha memória não é tão boa). O problema não é se somos gordos ou magros demais ou dentro do peso certo demais. O problema é que há outro problema. E esse problema está no olho e no que há por trás do olho das pessoas. Elas enxergam errado, interpretam errado e o mundo lhes chega distorcido e lhes sai pela boca deformado. Alguém disse: o homem não se condena pelo que entra por sua boca, mas pelo que sai. Acho que fui mais ou menos claro. Concordo com tudo o que você disse.

  17. k diz:

    nossa. depois da discussão no alessandro martins, venho aqui e leio isso. fiquei feliz com o post da tattoo e tal. e vi isso. fico triste. mesmo mesmo. pq ninguém paga nossas contas, ninguém nunca aponta pra outras pessoas tentando fazê-las mais felizes… não… se vc olhar bem, quem reclama depois de violência são as mesmas pessoas que não titubeiam ao apontar um gordo na rua, chamar alguém de “bicha escrota”, dizer como devemos ser ou agir.

    eu não sou gorda. mas eu sou alta. e branca, muito branca. já teve gente na rua parando pra me xingar de branquela. e sei o que é não achar UMA calça jeans que chegue até minhas canelas. já tive problemas com comida, tenho pânico de comida.

    eu sei que tenho meus preconceitos. mas eu sempre tenho em mente que eu não sei da vida do outro, não sei onde o calo do outro aperta.

    já quiseram me ensinar a tomar sol, já quiseram que eu alisasse o cabelo, já quiseram tudo de mim. sem eu nunca ter pedido opinião de ninguém. mas enche. isso é um saco!

    eu escrevi mais aqui e apaguei tudo. só quero dizer que ainda bem que as diferenças existem. ainda bem.

    virei aqui outras vezes… beijo

  18. Fabio Centenaro » Magro tamb diz:

    […] Estava colocando os feeds em dia, e atrav

  19. Mini Size Us » Blog Archive » A difícil arte de não se importar diz:

    […] Certa vez escrevi e publiquei um texto em meu blog, o Casa de Burlesco, onde reúno contos e poemas meus, experiências chatas que vivi em função do fato de ser gorda. Quem já sofreu ou sofre discriminação direta ou indireta sabe do que estou falando. Sofrer com o preconceito do outro nos faz pensar nos nossos próprios preconceitos, nas nossas antecipações, nos nossos julgamentos, que quase sempre são primários e baseados no que é observado da superfície. […]

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