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Abissal

July 30th, 2007 by jana

Quebro a superfície fina dos espelhos,
porque nunca soube lidar com reflexos.
Busco sempre o fundo,
o que não se toca com os dedos,
aquilo que se esconde por baixo
de camadas e camadas de pele
e fantasias bordadas de carnaval.

Quebro a linha fina que reflete
aquilo que queremos ver,
aquilo que projetamos-desejamos,
talvez porque seja mais fácil,
menos dor, mais prazer.
Busco a última camada,
mas ainda assim sei que ela esconde
outras tantas mais.

Veja você minha carne toda arranhada,
sangrando silenciosa neste gotejar vermelho.
É o saldo de quem não se contenta com a duplicidade barata,
com as camadas finas de pó facial.
Descer fundo sufoca,
voltar ileso quase nunca é possível.

Deixo no fundo provisório que vejo
minhas ilusões, minhas meninices.
E em cada ponto do corpo,
guardo as lâminas finas,
deste banho de Narcisos.
Sigo me afogando no outro,
sigo me afogando em mim,
em busca da verdadeira face,
que sei que não existe,
que sei que é mais um vitral-montagem,
mas mergulho mais,
abissal,
até que o ar cesse de vez.

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Os cinco que me deixaram de quatro

July 25th, 2007 by jana

Paulo Castro jogou a peteca para Canunina e Canunina veio com duas peteconas e me pediu mais uma. “Vamos, Janis, diz aí os cinco livros que te deixaram de quatro”. É uma corrente sim, mas não vou ter azar se não responder. Vou ser é besta mesmo!

Lá vai então!

- Crônica de um amor louco (Charles Bukowski);
Já ouvi tanta merda sobre Buk, tanto reducionismo que coloca qualquer pessoa, que ainda não conhece sua obra, na defensiva. De misógeno à simples bêbado, esses aí são os adjetivos mais atribuídos ao velho safado. Para ler Buk não é preciso muito. Ele não é do tipo existencialista-oh-como-viver-dói, ele apenas vive cada dia, cada trago, cada gole, cada gosto diferente das bucetas que se abriram em sua frente. Ele vive, sim ele vive, imortal lá entre seus alter-egos, numa mesinha de bar, vendo os cavalos correrem na pista, levando pensamentos longe. Intensidade, baby, é isso que se sente quando lemos Buk… Humanidade, é isso que completa tudo e que permeia não só este livro de contos em especial, como também o Fabulário Geral do Delírio Cotidiano, Mulheres, Numa fria, etc.

- Já podeis da pátria filhos (João Ubaldo Ribeiro);

Um dos livros mais divertidos e ao mesmo tempo sérios que já li. É uma reunião de contos que mexe profundamente com questões de formação de identidade e que mostra esse processo em mão dupla. Somos construídos pelo outro, somos… Mas também construímos o outro. Um livro para ler em uma tarde risonha, mas que fica ecoando.

- Verão no aquário (Lygia Fagundes Telles);

Foi o primeiro livro da Lygia que li e foi ele quem me fez desencadear uma verdadeira paixão pelos livros da autora. As relações entre os personagens de Verão no aquário é profunda e nos faz voltar nossos olhos e atenção para as próprias relações que estabelecemos com aqueles que fazem parte de nossos dias. Lygia é delicada, mas é como os felinos, guarda lâminas entre a delicadeza. Ela pisa delicadamente em feridas e quanto mais as feridas sangram, mas ela ajuda o vermelho aparecer.

- Antes que anoiteça (Reinaldo Arenas);

Conheci Arenas através de dois amigos. Antes que anoiteça narra os dias de Arenas em Cuba. Sua vida até sua morte, vítima não somente do HIV, como também e principalmente pelos maus tratos do regime Castrista. É um texto denso e que nos remete a uma viagem sensorial àqueles dias de sol e lama. É um livro fundamental para quem crê no significado profundo do que é ser livre.

- Histórias de amor (Rubem Fonseca).
É um livro de contos e, como antecede o título, que trata de histórias de amor. Mas, não espere açúcar em excesso, bolhas de sonho e balões de suspiros. Histórias de amor é um livro que traz a outra face dos romances. A face mais humana, menos idealizada. São histórias que te fazem mergulhar até tentar chegar ao fundo do outro, sem saber se nesta viagem você conseguirá novamente voltar ileso para a superfície.

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Finita

July 20th, 2007 by jana

Não deixo de querer sua pele
por saber que um dia ela não estará mais entre meus dedos.
Não deixo de abrir caminho para sua saliva,
por saber que a fonte não é perene
e que um dia ela secará.

Não deixei de amar as flores,
sabendo que elas murcham em alguns dias,
que se desfolham-secam-perdem a cor,
que água bastante nunca basta
para lhes alongar o colorido obsceno da vida.

Não deixei de marcar minha pele
com cada imagem que me tocou,
por saber que elas desbotarão com minha carne,
quando esta se for aos poucos,
silenciosa no ato mudo de acabar.

Não deixei de amar todos os corpos que amei,
por sabê-los feitos de matéria frágil,
que trincam ao mais áspero toque,
e que levam cada um seu prazo de validade,
sua data limite,
seu ponto parágrafo.

Não deixei e nem deixo de olhar
este céu de azul sereno todos os dias
por saber que meus olhos ficarão cegos,
de uma cegueira acompanhada de todo o corpo.
Póros que não respiram mais,
peito que não levanta,
mas não deixo, ah, não deixo,
de viver cada minuto deste tempo marcado sem parar.

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Hoje, no Brutti, “O Verbo”

July 15th, 2007 by jana

“Tudo começou quando ele chegou ao trabalho e descarregou a pasta sobre a mesa. “Você está pálido, rapaz”. O chefe olhou rapidamente aquele homem jovem e franzino, bebericou mais um gole de café e se meteu novamente na sala ampla, cuidadosamente equipada e planejada por um arquiteto da moda (…)”.

Hoje, no Brutti, “O verbo”.

Passa lá!

Jana.

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O mundo é grande, baby, mas uns acham que têm mais direito de ocupá-lo do que outros

July 15th, 2007 by jana

Estava eu a vagar pela net, quando me deparei com o artigo de um senhor chamado José Maria e Silva, que assinava uma reportagem para o Jornal Opção, um jornal de Goiânia. O título do artigo deste senhor era “Movimento gay: a ditadura da depravação”. Eu acredito que o direito de expressão deve ser preservado, contanto que não venha ferir o direito do outro de viver. O artigo inicialmente visava fazer uma crítica a uma nota de jornal assinada pelo jornalista Liorcino Mendes Pereira Filho, presidente da Associação de Gays, Lésbicas e Transgêneros de Goiás, que convidava o público a conhecer o cine Gay Astor, que contava com dark room e que era também voltado para o sexo grupal. Inicialmente a proposta do jornalista José Maria era a de atacar o fato da nota ter sido publicada em um jornal de circulação e de que crianças teriam acesso ao que ele chamou de “apologia ao sexo grupal”. Ok, seu José. O artigo é extenso, então me reportarei ao mesmo aos poucos. A minha questão inicial é a seguinte: as novelas, exibidas em horário comercial, estão repletas de cena de sexo e de nudez, filmes são exibidos às 22 horas e não são poucos que também exibem cenas de sexo, então o que mais causaria preocupação? Uma nota que sai no jornal ou a novela que é exibida diariamente e que mostra casais em pleno ato sexual na telinha? O que tem mais projeção nacional? O artigo do supracitado senhor traz as respostas aos poucos. A preocupação do mesmo na verdade não estava associada ao cuidado com a mente virginal das crianças. O texto inteiro é uma sucessão de generalizações e ele prega abertamente sua homofobia e faz um convite aos leitores à intolerância. O problema não é a propaganda convocando a população para conhecer o Cine Gay Astor, o problema é se tratar de uma propaganda voltada para o público homossexual e é isso que mexeu com nosso caro jornalista.

Prosseguindo com o artigo, em um dado momento este senhor fala que “nas telenovelas e no discurso oficial do movimento gay, os casais homossexuais formam uma espécie de Sagrada Família do mesmo sexo. Para induzir a sociedade a aceitar a adoção de crianças por casais gays, a mídia vende a idéia de que os casais homossexuais vivem mais harmoniosamente do que os casais normais”. Opa, seu José, em que momento um casal homossexual não é normal? Ele não paga seus impostos, trabalha, vai ao mercado, limpa a casa, descansa no fim de semana? O que faz um casal heterossexual ser normal e um casal homossexual não ser? Eu não acredito que os casais homossexuais vivam mais harmoniosamente que um casal hetero, mas eles têm as mesmas condições de criarem uma família e inclusive de cuidar de uma criança. As novelas obviamente romantizam tudo, não aprofundam questões, pois estão mais voltadas, neste caso, à tentativa de conquistar um público consumidor que antes não era alcançado. As novelas tratam qualquer questão superficialmente, mas a questão de um casal homossexual ter o direito e a capacidade de criar uma criança e de constituir família é a mesma de um casal hetero.

Mais para a frente, o ilustre senhor continua o seu rosário de bobagens, criticando a Parada Gay e nos presenteia com a seguinte afirmação: “Sem contar as bolsas de pesquisas distribuídas pelas universidades públicas para os “estudos de gênero”, que quase sempre não passam de apologia da depravação gay”. Acredito que a Parada Gay é um momento importante para lembrar que há uma parcela da população que existe, que precisa ser respeitada como igual e que precisa de espaço. Durante a maior parte do ano, os homossexuais não raras às vezes precisam viver nos bastidores, ocultando suas vidas, por medo de retaliações e seria muito bobo afirmar que estas não existem. O momento da Parada é um momento de tentativa de diálogo e de mostrar que eles existem e precisam sim de espaço. Mas, o senhor José Maria, em um tom reducionista classifica tudo como depravação e apela para termos como “moral”, “decência”, como se estes conceitos fossem fechados e imutáveis. A moral e a decência são conceitos criados pelo homem e ele sabe muito bem se apropriar deles quando lhe é oportuno. Pessoas que se julgam no direito de apontar o que é moral e o que é decente, quase nunca reconhece a imoralidade ou a indecência de alguns de seus atos. O caminho mais fácil para se construir um discurso generalizante e exaltado como deste senhor é apelar para o senso comum, que já convencionou que homossexualidade rima com promiscuidade.

Depois, para fechar com chave de ouro, que para mim mais cabe como de latão, o senhor traz a Igreja para o centro das discussões. Ele toca no ponto da tentativa de criação da Lei Anti-homofobia, que punirá casos explícitos de homofobia, que serão julgados pela lei como crime, assim como os crimes de racismo. Acho que por artigos como deste jornalista, que usa um veículo formador de opinião para tentar catequizar a população a pregar a intolerância, que tal lei deveria sim ser votada e aprovada. Para evitar também que as pessoas sejam expulsas de locais públicos por tentarem viver normalmente suas vidas, sem que atos como este fiquem impunes. A questão não é gerar um mal estar, mas sim tentar educar as pessoas para algo de suma importância para que uma sociedade funcione: você não precisa concordar com algo para respeitá-lo. Você não precisa aceitar a homossexualidade (ninguém te obriga a isso), mas você precisa e deve respeitar o espaço destas pessoas e acima de tudo estas pessoas. A Igreja, sustentada por séculos pela fé do homem, não deveria servir para ditar regras ou estabelecer o que é bom e o que é mau. Maniqueísmo é reducionismo. Em vez de ficar classificando o que é normal, o que é pecado, a Igreja deveria servir de suporte aos que acreditam nela, um lugar de paz e de acolhimento, afinal, como dizem os crentes na figura divina de Deus, nós somos iguais diante de seus olhos. É uma pena que o discurso morra como discurso e as ações sejam tão contrárias e contraditórias.

Escrevi este texto por repúdio ao texto deste senhor. Como eu mesma disse no título do texto: O mundo é grande, baby, mas uns acham que têm mais direito de ocupá-lo do que outros. O supracitado jornalista é um exemplar que ilustra bem o título deste post. Ele falou tanto em perseguição religiosa e eu cá me pergunto o seguinte… Será que não é ele que está incitando uma perseguição em nome de um ideal? O que ele quer? Uma utopia mundial heterossexual-cristã? Há lugar pra todos, meu senhor, basta apenas nos ajeitarmos que dá, viu? Ou mais uma vez estaremos contribuindo para a tradição de uma história construída por apagamentos, silenciamento e exclusão.

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Aurora

July 13th, 2007 by jana

Retoco os fios para me confundir à aurora,
que chega laranja-vermelha,
adentrando minha janela
e pousando firme no meu ombro nu,
úmido ainda pelo banho recente.

Engano-me em pensar que a aurora
apenas mora no horizonte.
A aurora mora em mim,
a me lembrar que a cada segundo entardeço
e me aproximo um pouco mais
da noite dos olhos fechados.

Não ter o que fazer a esta hora do dia,
em que o sol adormece e a noite se faz,
te ajuda a pensar que seu corpo é passagem,
que seus olhos vêem hoje paisagens
e amanhã poderão não vê-las mais.

Leio notícias para conhecer mais o que não se conhece,
pra ganhar intimidade com a noite do corpo,
mas quanto mais leio,
mais dói saber que um dia perderei tudo,
um último suspiro e tudo se vai,
como o sol se põe no horizonte
sem ser notado por estes nossos olhos despreparados.

Foda-se o ciclo da vida,
as aulas de biologia,
o nascer-crescer-morrer,
eu quero ser reticente,
me perder no nada,
com os dedos entrelaçados,
com as pernas misturadas,
por isso fito esta aurora externa,
este pôr do sol repetitivo,
para esquecer um pouco do meu próprio entardecer,
dos minutos que passam,
da vida que escorre
e da dor que é viver sabendo-se finito.

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The Cutter - Echo & The Bunnymen

July 13th, 2007 by jana

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Hoje, no Brutti, “O elevador”

July 8th, 2007 by jana

“Ele chega em casa. O nome não importa, sabe? Dar nome individualiza demais, e ele era apenas mais um que chegava em casa à noite, fatigado, estropiado, com os dedos latejando, depois do aperto no metrô e dos seios de uma mulher peituda roçando suas costas (ele até gostaria, se não ficasse de pau duro e se o pau dele não tivesse se encaixado perfeitamente na bunda de um rapaz invocado. Sabe como é né? Algo como brincar de Lego). Mas como dizia, o nome não importa. Ele é só mais um. É como gado no abate. Não importa se ele se chama Mimoso, o que importa é a carne que ele tem para oferecer (…)”.

Hoje, no Brutti, “O elevador”.

Vai perder?

Abraços,

Jana.

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Festa

July 6th, 2007 by jana

lich4.jpg

(Imagem: Roy Lichtenstein)

Ao som de The party’s over do Talk Talk

Ele saiu de casa com sua blusa pop do Che Guevara, sua calça surrada, comprada já devidamente envelhecida em uma loja de grife no shopping center. Cabelos na altura do pescoço, barba cheia e bigode. Ela saiu de casa com seu sapato bico fino, bolsa baguette, blusinha da Hello Kitty combinando com o desenho também da Hello Kitty, tatuado estrategicamente no espaço entre a blusinha e a calça, descendo estrelinhas para a virilha, ao lado do piercing de pedrinhas brilhantes no umbigo. Um outro ele sai também de casa com uma blusa de banda, umas correntes penduradas na calça e coturno. Uma outra ela sai com calça colada, top e boné customizado com lantejoulas. Outros eles e outras elas saem pelas ruas e se agrupam em escadarias, bares, bibliotecas, boates, puffs, cadeiras, academias, banco, areia de praia, playgrounds. Todos eles se agrupam. Lugar onde por os pés e apoiar os cotovelos. Segurança aparente. Ponto.

Fim de semana. Bairro boêmio em cidade à beira mar. Uma praça, cadeiras e mesas espalhadas, barzinhos, cheiro de comida frita e cerveja. Fim de semana. Todos escorrem para as cadeiras e mesas desta praça à beira mar. Os meninos de blusa do Che e de banda, as meninas de blusas da Hello Kitty e dos bonés customizados, os meninos de blusa pólo, as meninas de saias hippies, os meninos de tênis Nike, as meninas de All Star. Todos escorrem para os bares, agrupando-se, ilhas, costas voltadas, óleo-água. Pouco se misturam.

Uma menina de pijamas observa de cima do prédio a repetição nos corpos. Imagina uma matriz e as cópias. Imagina um grande aparelho de xerox, igual àqueles que sempre viu e nunca prestou atenção. Uma virose a prendeu no quarto. Desligou a televisão e foi para a janela, respirar mar e observar as pessoas lá embaixo. Uns corpos riam, bebiam cerveja, falavam alto, outros bebiam drinks coloridos e petiscavam. Uns batiam os punhos na mesa, exaltados e a noite se repetia como tantas outras. A menina desviou os olhos dos corpos e se fixou no mar. Aquela extensão de água reta, homogênea, que enganava os olhos e os pés. A mãe da menina contava que uma vez confiante de que o raso continuava embaixo dos pés, foi se afastando da praia até que o chão faltou. Mar inteiro que engana. Desviou novamente os olhos para a praça e para as pessoas, quando viu que os grupos ao redor das mesas estavam mais próximos. Os corpos estavam próximos demais, como se estivessem entrelaçados. Achou engraçado aquela imagem típica de festas de confraternização de fim de ano, mas ela não ouvia riso, nem os mais forçados. Ouvia uns gritos baixos. Estendeu então a mão para a mesinha e pegou os óculos.

Quando pôs as lentes, viu que os braços dos meninos-Che, das meninas-Kitty, dos meninos-banda, das meninas-boné não estavam entrelaçados e sim grudados. Quanto mais se debatiam para se soltarem uns dos outros, mais os corpos grudavam uns nos outros. O espaço entre eles diminuía. Os braços deixaram de ser braços, as pernas deixaram de ser pernas, os cabelos enteiaram-se, os rostos colados. Do alto do 9º andar, a menina via uma massa se formar. Uma massa estranha. Os corpos se espremendo, os gritos se perdendo, os olhos desaparecendo, cinco, oito, dez pessoas espremidas e dissolvidas. As carnes confundidas, misturadas. A menina tentava sair de perto da janela, mas não conseguia. Ficava ali, testemunha. O som das vozes parou de repente. Os carros passavam na rua e quem dirigia parecia não ver o que acontecia na praça. Tudo acontecia no limite daquele círculo de pedra. Fora dele tudo continuava normalmente. Silêncio lá dentro. As carnes, as roupas, os olhos, tudo se esprimia até que começou a ganhar forma. Da massa, daquela mistura uniforme, restou, a menina viu, apenas um corpo de cada reunião de corpos. Sem acreditar, a menina viu um menino de blusa do Che sentar à mesa, uma menina de blusa da Hello Kitty pegar um drink no balcão e continuar a bebericar e um menino de blusa de banda dedilhar uma canção em um baixo ausente. Todos aqueles corpos reduzidos a um exemplar de cada. Singulares, únicos, ali no centro daquela praça. Corpos-matrizes.

A menina sente uma pressão nos ombros. Ela entende. Olha pra baixo e uma multidão bebe, conversa, come à beira mar. Ela entende. E o pai fecha a janela, cobre a menina com o lençol e ela dorme ao som de uma canção que toca alta, saindo do porta-malas de um carro estacionado na rua.

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Paredes e pulso

July 2nd, 2007 by jana

Consagro meus instantes
como quem tem sede profunda
e bebe os minutos em grandes goles,
esperando que assim
seja saciado o desejo pela plenitude,
e que ele demore mais ainda para se renovar.
Desejar hoje dói.

Diga se há angústia maior
que descobrir-se feliz
depois que o tempo há muito passou
e dele só restou
a lembrança viva de dias solares e despreocupados,
em que crescer significava poder ver filmes adultos
e chegar depois das seis,
com os pés cansados,
com o corpo fatigado,
esperando do dia apenas um banho
e uma cama de cheiro bom.
Crescer hoje dói.

Chego depois das seis,
com a cabeça pesada,
esperando resgatar projetos velhos
e ganhar energia para executá-los sem medo.
Chego e as paredes me recebem
como todas as paredes recebem corpos cansados,
frias e indiferentes,
mas ao menos elas não esperam
que eu reaja
quando no momento as energias moram longe de mim.
Mover-me hoje dói.

Baby, me perdi em meus projetos,
me perdi em meio às minhas projeções,
e agora sento e te espero
para sugar cada gole de calor que você me dá,
para beber os instantes que passo ao teu lado,
a esquentar meu corpo para mais um dia frio de junho,
que se impõe como as horas,
certeiras e não declinantes.
Esperar hoje dói.

Queria andar de bicicleta,
sem as rodinhas, sabe?
Mas algo me puxa para o chão
e lá eu permaneço rente ao solo frio,
esperando que ele por si me aqueça.
Quero apenas um impulso, entenda,
coragem para me arranhar,
para cortar meus joelhos e ver meu sangue,
para que eu lembre que este pulso
não canta para o nada,
que este coração ainda bate
não por costume,
mas para me fazer recordar
de que ainda há vida entre minhas carnes.
Viver, baby, às vezes dói.

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