Paredes e pulso
Consagro meus instantes
como quem tem sede profunda
e bebe os minutos em grandes goles,
esperando que assim
seja saciado o desejo pela plenitude,
e que ele demore mais ainda para se renovar.
Desejar hoje dói.
Diga se há angústia maior
que descobrir-se feliz
depois que o tempo há muito passou
e dele só restou
a lembrança viva de dias solares e despreocupados,
em que crescer significava poder ver filmes adultos
e chegar depois das seis,
com os pés cansados,
com o corpo fatigado,
esperando do dia apenas um banho
e uma cama de cheiro bom.
Crescer hoje dói.
Chego depois das seis,
com a cabeça pesada,
esperando resgatar projetos velhos
e ganhar energia para executá-los sem medo.
Chego e as paredes me recebem
como todas as paredes recebem corpos cansados,
frias e indiferentes,
mas ao menos elas não esperam
que eu reaja
quando no momento as energias moram longe de mim.
Mover-me hoje dói.
Baby, me perdi em meus projetos,
me perdi em meio às minhas projeções,
e agora sento e te espero
para sugar cada gole de calor que você me dá,
para beber os instantes que passo ao teu lado,
a esquentar meu corpo para mais um dia frio de junho,
que se impõe como as horas,
certeiras e não declinantes.
Esperar hoje dói.
Queria andar de bicicleta,
sem as rodinhas, sabe?
Mas algo me puxa para o chão
e lá eu permaneço rente ao solo frio,
esperando que ele por si me aqueça.
Quero apenas um impulso, entenda,
coragem para me arranhar,
para cortar meus joelhos e ver meu sangue,
para que eu lembre que este pulso
não canta para o nada,
que este coração ainda bate
não por costume,
mas para me fazer recordar
de que ainda há vida entre minhas carnes.
Viver, baby, às vezes dói.

July 4th, 2007 at 1:45 pm
Tem dias, que duram semanas, que se é dificil viver, pensar, e até mesmo respirar…
Nessas horas devemos revirar a alma no profundo, buscar lá no fundo do baú uma tal de esperança, e com ela fazer o saudosismo virar “presentismo”!
E adorei como sempre! E já dizia nosso “Pessoa”…”Todo poeta é um fingidor…”
July 6th, 2007 at 6:18 pm
Jana, passo aqui para retribuir seus abraço crec crec. Esse dia 02, e alguns outros tantos, realmente foram dias em que viver doeu.
Mas estamos aqui, seja lá como for, vivas, sangrando ao não, sentindo dores ou não, mais vivas.
Força garota!
Beijo grande e fique bem.
Andressa.
August 14th, 2007 at 11:50 am
Você me comove.