Finita

July 20, 2007 por jana

Não deixo de querer sua pele
por saber que um dia ela não estará mais entre meus dedos.
Não deixo de abrir caminho para sua saliva,
por saber que a fonte não é perene
e que um dia ela secará.

Não deixei de amar as flores,
sabendo que elas murcham em alguns dias,
que se desfolham-secam-perdem a cor,
que água bastante nunca basta
para lhes alongar o colorido obsceno da vida.

Não deixei de marcar minha pele
com cada imagem que me tocou,
por saber que elas desbotarão com minha carne,
quando esta se for aos poucos,
silenciosa no ato mudo de acabar.

Não deixei de amar todos os corpos que amei,
por sabê-los feitos de matéria frágil,
que trincam ao mais áspero toque,
e que levam cada um seu prazo de validade,
sua data limite,
seu ponto parágrafo.

Não deixei e nem deixo de olhar
este céu de azul sereno todos os dias
por saber que meus olhos ficarão cegos,
de uma cegueira acompanhada de todo o corpo.
Póros que não respiram mais,
peito que não levanta,
mas não deixo, ah, não deixo,
de viver cada minuto deste tempo marcado sem parar.

Na categoria Janaína Calaça

2 comentários

  1. diovvani diz:

    Eu páro, sempre na sua!!! Fico paradão, só admirando. AbraçoDasMontanhas

  2. Héber Sales diz:

    ah! belíssimo!
    algumas imagens ecoarão demais:
    a cegueira acompanhada de todo corpo
    o ponto parágrafo de todos os corpos
    as flores alongando o colorido obsceno da vida
    *beijos*

Deixe seu comentário

Atenção: A moderação de comentários foi ativada. Aguarde a aprovação para que o comentário seja publicado no blog.