Abissal
Quebro a superfície fina dos espelhos,
porque nunca soube lidar com reflexos.
Busco sempre o fundo,
o que não se toca com os dedos,
aquilo que se esconde por baixo
de camadas e camadas de pele
e fantasias bordadas de carnaval.
Quebro a linha fina que reflete
aquilo que queremos ver,
aquilo que projetamos-desejamos,
talvez porque seja mais fácil,
menos dor, mais prazer.
Busco a última camada,
mas ainda assim sei que ela esconde
outras tantas mais.
Veja você minha carne toda arranhada,
sangrando silenciosa neste gotejar vermelho.
É o saldo de quem não se contenta com a duplicidade barata,
com as camadas finas de pó facial.
Descer fundo sufoca,
voltar ileso quase nunca é possível.
Deixo no fundo provisório que vejo
minhas ilusões, minhas meninices.
E em cada ponto do corpo,
guardo as lâminas finas,
deste banho de Narcisos.
Sigo me afogando no outro,
sigo me afogando em mim,
em busca da verdadeira face,
que sei que não existe,
que sei que é mais um vitral-montagem,
mas mergulho mais,
abissal,
até que o ar cesse de vez.

August 4th, 2007 at 11:51 am
Texto maravilhoso, Janis. De ecoar na nossa cabeça. Beijo
August 5th, 2007 at 1:34 am
Boa noite! Pelo tarde da hora, nem vou me estender muito nos comentários. Até porque, sobre esse poema só me ocorre dizer uma coisa agora: ‘maravilhoso’! Grande abraço!
August 9th, 2007 at 11:11 pm
oi Jana querida, obrigada pelo carinho no post sobre a Lua… fica a saudade. qto aos reflexos, sim, ir além da superfície tem um alto preço, mas em compensação nos amplia o espaço, beijos
August 11th, 2007 at 7:33 am
Vc é intensa, sincera. Isto é bonito e raro, Jana. Vá em frente.