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Random

August 28th, 2007 by jana

A vida é uma reunião de canções
disponibilizadas em random.
Você nunca sabe qual a canção
que vem depois da que termina.
Uma melodia de mexer corpo,
outra de aparar o choro,
uma para embalar o gozo,
outra para velar o sono.

Tocaram três canções alegres,
canções de fazer o rosto ganhar cores,
então chegou a próxima,
vestida de violino-nota-aguda,
era ela a dor,
a arranhar silenciosa a carne em notas musicais,
agulha-repeating-repeating,
enquanto o corpo acostuma-se do sangue fervendo
à quietude de quem sofre.

Não há como escolher o que embalar os dias,
canções alegres não é pra toda hora.
A vida está em random,
roleta-russa,
sabe-se lá se é bala ou se é riso,
se é afago ou se é grito.
Aceito a canção seguinte
como quem aceita os dias em linha reta,
sem lhes questionar o caminhar sempre para a frente,
e a retidão da sua ordem aleatória.

A vida tocou para mim
uma canção suave de carícia,
e a seguinte foi arranhão rasgando carne,
mão despedaçando sonhos.
E eu fico esperando sempre a melodia-dor
acabar logo de uma vez,
emudecer-cerrar-lábios.
Antes o silêncio,
antes apenas os relógios nas paredes.

O corpo já se acostuma
a não se libertar demais na dança do riso.
Surrado já está de tanta canção aguda-lâmina
que chega sem aviso,
uma-duas-três juntas,
a ocupar com melancolia todos os espaços.

Aceito tudo sem grito,
sem o levantar negativo de dedos,
pois a vida está em random, meu bem,
ela escolhe o momento seguinte,
e nossas mãos de matéria frágil
nunca terão o controle na sua carne .
Aceitemos juntos então
a disposição randômica de nossas horas,
sejam elas de prazer,
sejam elas de dor,
sejam elas resultado de mistura.
Aceitemos as melodias-dias apenas
como os ouvidos aceitam os sons,
quando as mãos que os protegem estão atadas.

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Hoje, no Brutti, “Duas fomes”

August 26th, 2007 by jana

Digo que aquele homem nasceu para satisfazer suas duas maiores fomes: por comida e por um corpo nu, carne crua, cheiro de suor. Ele comia de lamber os dedos, chegava até a chupá-los quando lhe apetecia fazê-lo. Era um homem que buscava o saciamento dessas duas fomes como quem busca um Graal. A busca parece nunca terminar, porque uma vez que a fome é desejo, ela se renova (…).

Hoje, no Brutti, “Duas fomes”.

Vai perder?

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Espetáculo

August 25th, 2007 by jana

Para minha querida amiga Neusa Doretto, mulher dos palcos

Troco de pele e de palco
como cobra e artista,
dourada-tragi-comédia.
Camadas tantas a descobrir.

Sou boneca matrioska,
dentro de mim, eu-outras-elas.
Sou salão cheio em Carnaval,
rodopiando-marcando-tempo,
dama-puta-herói-vilão.

Sou o que não fui segundos antes,
sou-fui.
Sou travessia,
areia escorrendo-minutos,
cavando na face minhas multiplicidades.

Sou big-bang-criação,
pó de estrelas-balcão-narina,
sou o medo da menina,
que olha para a água na pia
e vê seios murchos, senhora-dona-solidão.

Sou porão cheio de histórias,
armário guardando faces de carne-papelão,
uma mesura, um gracejo com a mãos.
Sou aquilo que crio de mim,
sou aquilo que crias pra mim.
Decoro os textos,
rua ou palco,
poltrona ou chão.
Eu sou o seu espetáculo.

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Hoje, no Brutti, “Rodízio”

August 19th, 2007 by jana

( … ) Ele era o tipo que só é em bandos. Se era alguma coisa, não sabia. Apenas sabia que só poderia ser algo na aglomeração, no grupo, entre a matilha. Amigos de condomínio, daqueles de War no fim de semana, de bebida barata, de rodízio de mulheres. Era como um buffet. Escolhiam as mulheres no condomínio e pouco a pouco cada um sugava seu tanto até secar corpo e ilusões em medidas distintas. Ele, no entanto, caíra de tesão-ou-amor (vai saber) por uma menina do bloco B. Os amigos disseram não. “Exclusividade uma porra!”. Aquilo ficou ecoando ( … ).

Hoje, no Brutti, “Rodízio”.

Abraços,

Jana.

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Ausente

August 17th, 2007 by jana

Ando ausente de mim,
como se tivesse pedido licença para me lavar por dentro,
tirar toda poeira-sujeira,
arder ao sol,
e ter esquecido de colocar tudo de volta.
Só restou o oco,
vazio-eco.
Alguém ainda mora aí?

O eco me traz a pergunta de volta
e eu fico sozinha novamente sem as respostas.
Onde me deixei?
Onde abandonei meus sonhos?
Eles estão por aí,
cantando boêmios a noite fria-brilhante,
enquanto eu espero que eles retornem
para dentro de mim,
corando minha face,
acendendo meu sexo.
A espera não termina.

Enquanto isso, a comida esfria no prato,
o cachorro abana o rabo depois de mijar o tapete,
o barulho da cidade me lembra a toda hora
que estou viva,
ainda pulso,
ainda quero,
mas até quando?

Ando ausente de mim,
sim, tirei-me de dentro para arejar a vida,
mas o vazio precisa de preenchimento.
Ele aceita deixar de ser por mim,
abrir mão de ser o nada,
sacrifício-altar,
para que eu seja novamente
a menina que queima vermelha,
por dentro e por fora,
mulher carregando no corpo
um balaio fumegante
de novos e velhos sonhos,
aromatizando de vida
a imensidão invisível do ar.