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September 28th, 2007 by jana

A solidão talvez seja a companheira mais fiel do homem.
Não são os cães, com seus olhos marejados,
os amigos, que vão e vêm no ritmo das ondas,
ou o amor, que divide a mesma cama e a mesma noite.
A solidão está em todo lugar,
dentro e fora de você,
te cercando.

A solidão te toca o ombro,
enquanto você caminha embaraçado entre as cordas de corpos,
nas avenidas largas das cidades
ou no amanhecer refletido nas xícaras fumegantes de café.
A solidão te ronda,
soprando vento frio na nuca,
adormecendo seus olhos,
tornando o viver uma dormência.

Quantas vezes pensamos estar profundamente sós,
e ela simplesmente aparece para provar que o vazio ainda é maior,
companheira esta que permanece silenciosa,
mas em seu silêncio tudo se revela,
como uma epifania forçada a acontecer.
Estamos sós, acompanhados momentaneamente,
ludibriados pela ilusão da partilha.

Estamos sós.
Na dor, estamos sós.
No gozo, estamos sós.
Na morte, estaremos sós.
Pois cada experiência desta
é única e intransferível,
vivenciada na arena de cada corpo frágil,
no limite individual de cada ser,
no caminho percorrido a dois pés.
Estamos sós e é por isso que nunca saberemos o quanto dói,
o quanto goza e o que é ser fim no outro.
Só sabemos de nós
e dessa imagem duplicada e perdida na superfície dos espelhos.

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Delírios de uma quarentona em perigo em “A academia”

September 20th, 2007 by jana

Ela havia aposentado os saltos. Sabe como é? O joanete doía. Entrou em uma de naturebalizar a vida. Sim, a nossa diva, protagonista de “Casa de Burlesco ou as três gerações imobiliárias” e “Happy Hour“, volta com tudo depois de uma consulta alarmante ao seu médico. Matrícula na academia, fibras em excesso e água suficiente para matar a sede do sertão? Use seu liquidificador mais vagabundo, bata tudo e veja no que deu.

O verão me irrita, é verdade. Meu estagiário acha que é porque estou perto demais da menopausa e longe demais de uma vida sexual ativa. Como se ele andasse conversando com os fundos impecáveis de minhas calcinhas. Ha. Porra de sinal fechado… Não, eu não estou estressada. Não, eu não estou na menopausa segundo a teoria punhetética de meu estagiário. Chega a ser assustador pensar que ele pode ter sonhos eróticos comigo. Não, eu não poderia ser a mãe dele, ok? Enfim, estou me sentindo uma panela de pressão, mas não que eu esteja na forma de uma panela… A verdade é que sempre tive uma propensão absurda a me tornar hipocondríaca. Teve uma época em minha vida que eu acreditava que tomar comprimidos era glamouroso. Sabe, todas aquelas pequenas esferas vermelhas, brancas, amarelas, bicolores se atirando garganta abaixo, me fazia sentir a própria Audrey Hepburn, se bem que infelizmente hoje eu estou mais para uma Marylin Moroe decadente e é por este motivo que o meu médico, aquele médico que te acompanha desde sempre e que infelizmente guarda o segredo da sua idade, que você tanto começa a esconder depois dos trinta, olhou para mim e disse: ” - Errr…”. Eu tenho problemas com reticências, talvez porque eu seja uma pessoa objetiva, dinâmica e toda ponto final e ele, de repente, me olha com aquela cara de quem está diante de um paciente em fase terminal e continua emitindo grunhidos. Algum problema? “Errr…”. Eu não entendo gírias, onomatopéias, línguas do P, então daria para o senhor me informar o que está acontecendo? Eu não sei porque eu resolvi perguntar. Eu ainda me pergunto porque tenho tanta necessidade de entender as coisas. Foi aí que tudo começou. Exatamente neste ponto entre a minha ignorância diante dos grunhidos do meu médico e da tentativa do mesmo de elucidar todas as minhas questões. Eu estou morrendo? Não é isso? Eu sei… Eu seiiiiiii… Eu vinha sentido uns calores, umas tonturas, um inferno dentro de mim… “Calma!”. Calma? O senhor está diante de uma mulher desesperada e ainda me pede calma? “A senhora apenas está estressada e acima do seu peso ideal”. Como é que é? “Isso mesmo. Excesso de cafeína, de trabalho e de peso”. O senhor está dizendo que eu sou uma mulher desequilibrada? “Não, eu estou apenas dizendo que a senhora está com um nível de estresse acima do normal e que está com excesso de peso e precisa encontrar uma forma de resolver ambos os problemas. Dieta mais academia para relaxar”. Como é que é? Dieta… Até aí tudo bem, pois eu conheço várias, mas academia? “Sim, academia”. Academia? “Siimm”. O senhor tem noção do que está me propondo? “Tenho e não vejo motivos para tanto estardalhaço!”. Então, meus caros, foi aí também que eu descobri que o meu estagiário estava parcialmente errado e que eu teria que enfrentar uma academia, com todas as suas esteiras, ferros, mulheres malhadas e homens definidos.

O primeiro passo, depois de sair do consultório médico, foi providenciar todas aquelas comidinhas verdes, chás, adoçantes, coisas integrais, coisas lights e não me embaralhar com alimentos dietéticos. Voltei para casa, descarreguei todas as compras e lembrei, já com carro na garagem e chinelos nos dedos, que havia esquecido da segunda parte, não menos importante, dessa nova vida de mulher diagnosticada como estressada e fora do peso, que faltava dois itens e que, por alguma razão, o meu sistema de autodefesa havia bloqueado na minha mente: a inscrição em uma academia e a compra de uma roupa própria para a nova vida saudável. Houve um tempo em que eu acreditava que hipocondríacos eram glamourosos, mas o tempo passou e acabo de descobrir, no auge das minhas quarenta primaveras, que a moda agora é frequentar academias e comida macrobiótica.

Calcei meu sapato novamente, tirei o carro da garagem e lá se vou eu à procura de uma academia, templo este que nunca ousei pôr os pés. No caminho eu pensava em comprar uma esteira ou uma daquelas bicicletas, mas logo desisti por saber que virariam cabides externos de luxo. A figura irônica do meu médico me assustava e eu precisava provar a ele que eu podia sim me tornar uma mulher equilibrada e saudável novamente. Era uma questão de vida, morte ou decadência. Parei em uma dessas academias de bairro e devo ter levado alguns bons minutos lutando contra meu superego que me mandava entrar e achando que meu ID estava certo em me fazer pular na jugular de meu médico e com ele fora de circulação, eu dormiria em paz novamente, mas meu superego venceu e eu acabei entrando na academia.

Espelhos por todos os lados, ferros, ferros, ferros, esteiras, ferros, bicicletas, ferros e um professor a me acenar com a cabeça. “O que deseja?”. Errr… “Sim???”. Eu vim fazer a inscrição na academia - sussurrei. “Como?”. Inscrição! Eu vim me matricular. “Ah, sim! Me acompanhe, por favor!”. Fichas, fichas, altura, idade (ai, meu deus), peso, problemas cardíacos??? Depois de preencher uma ficha que mais parecia o protocolo de entrada direta para o inferno, ele me deu uma carteirinha e as sugestões de horário. Peguei tudo aquilo e voei para o shopping mais perto para procurar uma malha que coubesse em mim. Obviamente as malhas mais discretas não existiam no meu número, então tive que me contentar com uma bermuda rosa shocking e um blusão que me engolia. Tênis, meia e cara de pau, lustrada com o melhor dos óleos de Peroba. Eu estava pronta.

Era o meu primeiro dia de dieta e de malhação, e sem razão alguma, exagerei nas fibras e nos chás verdes antes de ir para a academia. Depois de passar uma manhã inteira e uma tarde igualmente migrando entre minha mesa e o vaso sanitário, tudo o que meu corpo pedia era a fofura horizontal de uma cama, mas a figura medonha do meu médico fez com que eu me deslocasse naquele estado para a academia. Tentando me esconder atrás da minha ficha de acompanhamento, fui falar com o instrutor, que resolveu começar a minha noite com uma série de alongamentos. Eu estava lesada, desgrenhada, com meus cabelos em desalinho e mesmo assim ele não se sensibilizou. Puxa perna, puxa braço, eu lerda, eu já ficando vesga e ele lá, firme. Pedi licença, fui ao banheiro novamente. “Fibras, malditas fibras”. Voltei e ele já me esperava. Faríamos um trabalhinho com as panturrilhas. Foi então que ele apontou uma bancada próxima à janela e pediu que eu fosse buscar aqueles pesinhos de atar às pernas. Eu estava moleeeeee. As fibras, malditas fibras. Mas fui lá, fui pegar aqueles malditos pesos, quando pus uma força descomunal para puxar apenas dois quilos de pesos. Foi tudo muito rápido. Peso, força descomunal, parábola, gravidade, peso voando, uma senhora em cima de uma bicicleta, peso no meio da cara da senhora, grito, nariz quebrado, sangue, vexame, senhora boazinha me xingando em pelos menos dez idiomas diferentes, meu instrutor correndo, pessoas correndo, eu com a boca escancarada.

Sim, meus caros, as fibras, as visitas constantes ao sanitário, os chás, me deixaram cronicamente lerda naquela estréia catastrófica na academia. Eu não esperei meu instrutor virar, nem a pobre senhora levantar, nem dar espaço para as pessoas acharem que eu fazia parte de algum grupo terrorista contra o culto à saúde do corpo. Peguei meu carro, joguei a bolsa no carona e uma semana depois voltei ao meu médico. “Não vou freqüentar academias”. Eu disse confiante. “Mas por que?”. “Mulheres, fibras e chás fazem mal à saúde alheia. O Ministério da saúde esqueceu de me advertir”.

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Pólos

September 19th, 2007 by jana

Migro através dos meus pólos
com os pés cansados de tanto ser e deixar de ser,
com minhas peles trocadas,
arrastadas pelo asfalto quente
deste meio-dia azul-cinzento,
desta cidade que fede à indiferença e urina.

Vejo nos teus olhos
a cor explícita da minha insanidade,
das minhas mudanças repentinas de humor,
da minha inconsistência.
Eu nunca disse que seria fácil,
pois sou como um todo
areia movediça,
tragando-afundando,
buraco negro,
até os que me dedicam amor.

Migro através dos meus pólos,
horas solares-horas cinzentas,
sou uma parábola viva
que você toca e tenta entender
na suavidade tranqüila dos seus dedos,
no traçado fino das tuas linhas.
Minha inquietude escorre pelas unhas
e não há nada ou muito pouco o que fazer.

Sou tantas mulheres presas em uma carne só,
sou tanto amor e raiva em doses extras,
sou o excesso que você tenta conter
com a represa invisível da rotina.
Extravazo como todo líquido,
que sente ocupar um espaço pequeno demais
para tanta vida contida-esprimida
nestes dias de azul pálido,
o tipo de cor que me entedia.

A razão de me espremer nas paredes firmes do cotidiano
é buscar o equilíbrio, o ponto médio entre meus pólos,
que encontro escondido na doçura firme dos teus olhos,
que me seguem quando sou fúria ou suavidade.
Não desista de mim por ser tão rarefeita,
porque entre as linhas de tuas mãos
me sinto verdadeiramente única
e esqueço a multiplicidade dilacerante
que é viver em um corpo só
sendo em verdade tantas.

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Cru

September 11th, 2007 by jana

Quero sua carne crua dissolvendo entre meus dentes,
o cheiro da vida escorrendo entre as pernas,
os fios molhados dos seus cabelos pós-banho,
quero seus olhos mergulhados
no embaraço de pontos de minha pele,
nua,viva, flor da noite.

Espalhe-se, meu bem,
nesta cama-corpo que te aguarda limpa,
cheirando a saudade e fim de dia,
a café solvido ao som de notas de violão,
luz artificial apagada,
janela escancarada-pernas
e brisa-aurora-noite que vem.

Beba da minha língua a água fresca,
que brota salivante ao te ver despontando
desta porta aberta banhada de lua,
esqueça, meu bem, o cheiro da rua,
os esbarrões, as sinaleiras,
e aconchegue-se nas minhas pernas-ninho,
lugar seguro e quente,
grama negra onde seu corpo se espalha,
onde cantamos mudos nossas canções.

Quero sua carne sem preparo,
sem retoques, sem artificialidade,
pois gosto mesmo é do desgrenho,
do caos que é vida,
do cheiro não disfarçado
do seu desejo que se renova
como fonte abundante e perene.

Deixe, meu bem, meus dedos ásperos
umidecerem-se no suor que brota de cada póro seu
e que a sede que acompanha nossas peles
saciem-se no beber farto nas nossas fontes.
Venha pra mim como canção não ensaiada,
como banho de mar no fim do dia
e como o fruto maduro colhido do pé,
que se entrega aos meus dedos
suave-passivo, saboroso e cru.

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Hoje, no Brutti, “El gigolô”

September 9th, 2007 by jana

Lá fora dois ou três caminhões. “Vai ser difícil”. O outro apenas ri, mas por dentro pragueja. “Domingo rolando aí fora e eu aqui…”. O chefe da operação balança os braços, dando o sinal para que desçam dos caminhões e dêem início ao processo. “O homem está lá dentro. Cuidado! Não deixa de ser uma situação delicada, meus caros (…).

Hoje, no Brutti, “El gigolô”

Não percam!!!

Beijos,

Jana.

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Piegas (?)

September 6th, 2007 by jana

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Alguém um dia disse que o amor é piegas,
demodê-estação-passada,
artigo exposto para liquidação
nas vitrines-over dos brechós.

Eu digo que para amar
é preciso muita coragem,
peito aberto à espera de balas,
sejam elas de chumbo ou mel.

Quem diz que nunca amou ou que não ama,
ou desconhece aquilo que nega
ou tem medo,
fibra frouxa,
sangue pardo a correr nas veias.

Amor é para os que têm coragem,
que o estampam no rosto sem medo de estarem fora de moda,
fora de tom, passados da hora.
Quem ama quebra a lógica do tempo,
atravessa limites,
não nega aquilo que é parte vital.

O amor resiste à rotina-lâmina dos dias,
às contas apertadas no fim do mês,
às roupas largadas pelo chão,
às palavras não ditas quando necessárias.

O amor resiste à chuva invadindo às janelas,
à saudade causada pela distância,
ao sexo rareado pela tristeza,
que quando se instala
contamina a pele e o beijo azeda.

Para aqueles que dizem que o amor é piegas,
mas que o sentem no peito e o mantém às escuras,
deixo meu riso maior de escárnio,
pois quem não ama explicitamente,
quem não goza e não sofre deste mesmo amor,
não merece a vida que ocupa o espaço do corpo,
altar-palco onde esta tragi-comédia
se desenrola e nos convence
que só assim nascer e morrer vale a pena.

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Um dia te deixo, cidade

September 5th, 2007 by jana

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(Imagem: Fábio Brito)

Uma brisa silenciosa atravessa minha janela,
o único presente que esta cidade me dá,
enquanto penso em formas múltiplas
de me ver livre dela.

Cidade em degradê de cinza,
logo eu que sempre fui amante das cores,
me vejo enlaçada entre suas pernas,
sufocando grito e lágrima,
me espremendo nos metrôs cheios,
perdida nas veias-ruas tantas,
que serpenteiam só esperando
a hora certa do bote único.

Cidade fria de concreto,
ausente de corpo-quente-riso-mãos,
já te dei uma chance de me cativar,
e rejeitaste como quem rejeita a flor,
apenas por esta ter sido colhida da terra
e não comprada em floricultura de luxo.

Quando puder, cidade,
te deixarei vestida de luzes,
tecido fino bordado pela noite,
para não mais voltar a pisar em sua carne dura,
indiferente-nariz-ao-céu.
Voltarei sim um dia
é para minha terra solar,
vestido pobre de renda,
inundada de mar e riso,
de onde eu não deveria ter saído.

Não me arrependo no entanto
te ter caminhado pelas suas ruelas,
pois ganhei a consciência antes inexistente
da falta que minha cidade solar faz.
Ganhei a experiência da solidão,
dos braços vazios e do peito comprimido,
que levarei marcada pra sempre entre meus olhos nus,
testemunhas pulsantes do vazio.

Um dia te deixarei, cidade,
para nunca mais voltar.
Estou correndo para o chão-húmus-ventre
de onde saí, filha das entranhas,
de um chão-mãe que me acolhe,
que me envolve,
e que me faz adormecer
com a mente povoada de sons,
de cores múltiplas-misturadas e
sonhos tranquilos banhados de sol e mar.

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A melhor hora do dia

September 4th, 2007 by jana

Os dias seguem distintos lá fora,
mas aqui dentro não.
É como retroceder todas as manhãs
a imagem do sol aparecendo
por cima dos arranha-céus
e saber que nada muda entre minhas paredes,
apenas o sabor da comida,
que descansa no fundo dos pratos.

A dor no peito é física,
não metafórica,
a dor do poeta não é fingimento,
é fato-ato-coração pedindo pra parar.
O cão me olha e me toca com as patas,
como se buscasse na minha carne,
arranhando-arranhando,
um sorriso qualquer perdido
ou preso no buraco fundo do dente.

Já te disse, fitando seus olhos castanhos,
que a melhor hora do dia
é quando a chave gira na fechadura
e você entra, modificando a rotina,
jogando a poeira assentada para longe,
fazendo o ar se mover.

A melhor hora do dia é quando a espera termina,
quando o desejo se renova,
quando a dor de repente pára
e o coração continua a querer bater,
até que a noite se recolha,
o dia recomece,
e os ciclos sigam circulares,
atravessando os mesmos pontos,
marejando meus olhos órfãos de mar
e filtrando o riso pálido trancafiado no meu peito.