Ela havia aposentado os saltos. Sabe como é? O joanete doía. Entrou em uma de naturebalizar a vida. Sim, a nossa diva, protagonista de “Casa de Burlesco ou as três gerações imobiliárias” e “Happy Hour“, volta com tudo depois de uma consulta alarmante ao seu médico. Matrícula na academia, fibras em excesso e água suficiente para matar a sede do sertão? Use seu liquidificador mais vagabundo, bata tudo e veja no que deu.
O verão me irrita, é verdade. Meu estagiário acha que é porque estou perto demais da menopausa e longe demais de uma vida sexual ativa. Como se ele andasse conversando com os fundos impecáveis de minhas calcinhas. Ha. Porra de sinal fechado… Não, eu não estou estressada. Não, eu não estou na menopausa segundo a teoria punhetética de meu estagiário. Chega a ser assustador pensar que ele pode ter sonhos eróticos comigo. Não, eu não poderia ser a mãe dele, ok? Enfim, estou me sentindo uma panela de pressão, mas não que eu esteja na forma de uma panela… A verdade é que sempre tive uma propensão absurda a me tornar hipocondríaca. Teve uma época em minha vida que eu acreditava que tomar comprimidos era glamouroso. Sabe, todas aquelas pequenas esferas vermelhas, brancas, amarelas, bicolores se atirando garganta abaixo, me fazia sentir a própria Audrey Hepburn, se bem que infelizmente hoje eu estou mais para uma Marylin Moroe decadente e é por este motivo que o meu médico, aquele médico que te acompanha desde sempre e que infelizmente guarda o segredo da sua idade, que você tanto começa a esconder depois dos trinta, olhou para mim e disse: ” - Errr…”. Eu tenho problemas com reticências, talvez porque eu seja uma pessoa objetiva, dinâmica e toda ponto final e ele, de repente, me olha com aquela cara de quem está diante de um paciente em fase terminal e continua emitindo grunhidos. Algum problema? “Errr…”. Eu não entendo gírias, onomatopéias, línguas do P, então daria para o senhor me informar o que está acontecendo? Eu não sei porque eu resolvi perguntar. Eu ainda me pergunto porque tenho tanta necessidade de entender as coisas. Foi aí que tudo começou. Exatamente neste ponto entre a minha ignorância diante dos grunhidos do meu médico e da tentativa do mesmo de elucidar todas as minhas questões. Eu estou morrendo? Não é isso? Eu sei… Eu seiiiiiii… Eu vinha sentido uns calores, umas tonturas, um inferno dentro de mim… “Calma!”. Calma? O senhor está diante de uma mulher desesperada e ainda me pede calma? “A senhora apenas está estressada e acima do seu peso ideal”. Como é que é? “Isso mesmo. Excesso de cafeína, de trabalho e de peso”. O senhor está dizendo que eu sou uma mulher desequilibrada? “Não, eu estou apenas dizendo que a senhora está com um nível de estresse acima do normal e que está com excesso de peso e precisa encontrar uma forma de resolver ambos os problemas. Dieta mais academia para relaxar”. Como é que é? Dieta… Até aí tudo bem, pois eu conheço várias, mas academia? “Sim, academia”. Academia? “Siimm”. O senhor tem noção do que está me propondo? “Tenho e não vejo motivos para tanto estardalhaço!”. Então, meus caros, foi aí também que eu descobri que o meu estagiário estava parcialmente errado e que eu teria que enfrentar uma academia, com todas as suas esteiras, ferros, mulheres malhadas e homens definidos.
O primeiro passo, depois de sair do consultório médico, foi providenciar todas aquelas comidinhas verdes, chás, adoçantes, coisas integrais, coisas lights e não me embaralhar com alimentos dietéticos. Voltei para casa, descarreguei todas as compras e lembrei, já com carro na garagem e chinelos nos dedos, que havia esquecido da segunda parte, não menos importante, dessa nova vida de mulher diagnosticada como estressada e fora do peso, que faltava dois itens e que, por alguma razão, o meu sistema de autodefesa havia bloqueado na minha mente: a inscrição em uma academia e a compra de uma roupa própria para a nova vida saudável. Houve um tempo em que eu acreditava que hipocondríacos eram glamourosos, mas o tempo passou e acabo de descobrir, no auge das minhas quarenta primaveras, que a moda agora é frequentar academias e comida macrobiótica.
Calcei meu sapato novamente, tirei o carro da garagem e lá se vou eu à procura de uma academia, templo este que nunca ousei pôr os pés. No caminho eu pensava em comprar uma esteira ou uma daquelas bicicletas, mas logo desisti por saber que virariam cabides externos de luxo. A figura irônica do meu médico me assustava e eu precisava provar a ele que eu podia sim me tornar uma mulher equilibrada e saudável novamente. Era uma questão de vida, morte ou decadência. Parei em uma dessas academias de bairro e devo ter levado alguns bons minutos lutando contra meu superego que me mandava entrar e achando que meu ID estava certo em me fazer pular na jugular de meu médico e com ele fora de circulação, eu dormiria em paz novamente, mas meu superego venceu e eu acabei entrando na academia.
Espelhos por todos os lados, ferros, ferros, ferros, esteiras, ferros, bicicletas, ferros e um professor a me acenar com a cabeça. “O que deseja?”. Errr… “Sim???”. Eu vim fazer a inscrição na academia - sussurrei. “Como?”. Inscrição! Eu vim me matricular. “Ah, sim! Me acompanhe, por favor!”. Fichas, fichas, altura, idade (ai, meu deus), peso, problemas cardíacos??? Depois de preencher uma ficha que mais parecia o protocolo de entrada direta para o inferno, ele me deu uma carteirinha e as sugestões de horário. Peguei tudo aquilo e voei para o shopping mais perto para procurar uma malha que coubesse em mim. Obviamente as malhas mais discretas não existiam no meu número, então tive que me contentar com uma bermuda rosa shocking e um blusão que me engolia. Tênis, meia e cara de pau, lustrada com o melhor dos óleos de Peroba. Eu estava pronta.
Era o meu primeiro dia de dieta e de malhação, e sem razão alguma, exagerei nas fibras e nos chás verdes antes de ir para a academia. Depois de passar uma manhã inteira e uma tarde igualmente migrando entre minha mesa e o vaso sanitário, tudo o que meu corpo pedia era a fofura horizontal de uma cama, mas a figura medonha do meu médico fez com que eu me deslocasse naquele estado para a academia. Tentando me esconder atrás da minha ficha de acompanhamento, fui falar com o instrutor, que resolveu começar a minha noite com uma série de alongamentos. Eu estava lesada, desgrenhada, com meus cabelos em desalinho e mesmo assim ele não se sensibilizou. Puxa perna, puxa braço, eu lerda, eu já ficando vesga e ele lá, firme. Pedi licença, fui ao banheiro novamente. “Fibras, malditas fibras”. Voltei e ele já me esperava. Faríamos um trabalhinho com as panturrilhas. Foi então que ele apontou uma bancada próxima à janela e pediu que eu fosse buscar aqueles pesinhos de atar às pernas. Eu estava moleeeeee. As fibras, malditas fibras. Mas fui lá, fui pegar aqueles malditos pesos, quando pus uma força descomunal para puxar apenas dois quilos de pesos. Foi tudo muito rápido. Peso, força descomunal, parábola, gravidade, peso voando, uma senhora em cima de uma bicicleta, peso no meio da cara da senhora, grito, nariz quebrado, sangue, vexame, senhora boazinha me xingando em pelos menos dez idiomas diferentes, meu instrutor correndo, pessoas correndo, eu com a boca escancarada.
Sim, meus caros, as fibras, as visitas constantes ao sanitário, os chás, me deixaram cronicamente lerda naquela estréia catastrófica na academia. Eu não esperei meu instrutor virar, nem a pobre senhora levantar, nem dar espaço para as pessoas acharem que eu fazia parte de algum grupo terrorista contra o culto à saúde do corpo. Peguei meu carro, joguei a bolsa no carona e uma semana depois voltei ao meu médico. “Não vou freqüentar academias”. Eu disse confiante. “Mas por que?”. “Mulheres, fibras e chás fazem mal à saúde alheia. O Ministério da saúde esqueceu de me advertir”.