Só
A solidão talvez seja a companheira mais fiel do homem.
Não são os cães, com seus olhos marejados,
os amigos, que vão e vêm no ritmo das ondas,
ou o amor, que divide a mesma cama e a mesma noite.
A solidão está em todo lugar,
dentro e fora de você,
te cercando.
A solidão te toca o ombro,
enquanto você caminha embaraçado entre as cordas de corpos,
nas avenidas largas das cidades
ou no amanhecer refletido nas xícaras fumegantes de café.
A solidão te ronda,
soprando vento frio na nuca,
adormecendo seus olhos,
tornando o viver uma dormência.
Quantas vezes pensamos estar profundamente sós,
e ela simplesmente aparece para provar que o vazio ainda é maior,
companheira esta que permanece silenciosa,
mas em seu silêncio tudo se revela,
como uma epifania forçada a acontecer.
Estamos sós, acompanhados momentaneamente,
ludibriados pela ilusão da partilha.
Estamos sós.
Na dor, estamos sós.
No gozo, estamos sós.
Na morte, estaremos sós.
Pois cada experiência desta
é única e intransferível,
vivenciada na arena de cada corpo frágil,
no limite individual de cada ser,
no caminho percorrido a dois pés.
Estamos sós e é por isso que nunca saberemos o quanto dói,
o quanto goza e o que é ser fim no outro.
Só sabemos de nós
e dessa imagem duplicada e perdida na superfície dos espelhos.

September 29th, 2007 at 3:17 pm
“só sabemos de nós…” -às vezesnem isso sei, de mim.
bjs