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Delírios de uma quarentona em perigo em “Sex Shop”

October 27th, 2007 by jana

Meu pai sempre me dizia, com aquela cara de quem entende as coisas, “minha filha, aquilo que Deus esqueceu de dar, o homem dá um jeito e faz”. Velho sábio o meu. Talvez seja esta a gênese dos Sex Shops, o templo do sexo solitário ou da ajudinha a mais para levantar os ânimos ou despencar de vez. Mas o que, este ser humano que vos fala, tem haver com o famigerado templo dos falos coloridos e polimorfos? Talvez minha maior missão em Terra, se é que temos alguma, é cair de pára-quedas em situações esdrúxulas. Não poderia ser diferente desta vez.

Minha vida resume-se ao funcionalismo público, idas ao supermercado, a uma vodka talvez no fim de semana com velhas amigas, aquelas do tempo em que não pensava em colar um durex na testa e revolucionar a indústria do Botox caseiro e sem dor. A dor só existiria na hora de puxar o durex e deixar tudo despencar novamente. Minha filha me liga quando está com tédio, meu ex-marido me trocou por uma mulher que deve sofrer de escoliose, devido ao empinamento constante da bunda e às vezes ligo no automático, para não dançar tango com meu próprio tédio. Mas como ia dizendo, ainda conservo amigas de longas datas, todas recauxutadas, modelo Airbag Power. Na nossa geração, nos orgulhávamos dos nosso peitos naturais, hoje vivemos a ditadura dos peitos tamanho Pamela Anderson. Eu sou a única que resistiu ainda às aplicações da gelatina do tesão, como uma das minhas amigas falam. Gelatina do tesão… Cada uma, viu. Pois bem que me ligaram para a tal vodka do fim de semana. Eu já estava acostumada à idéia de passar mais um sábado em frente à TV, assistindo a um canal entediante, para dormir mais rápido e profundamente, mas  o telefone tocou. “Querida, se arruma aê, que vamos te pegar”. “Ah, não, Lilu. Não saio daqui nem a reboque…”. “Vai sair sim. Você precisa. Tá pensando que não sei que você tá doida pra achar um coroa, que te dê uns malhos?”. “Lilu, só os esquizofrênicos acreditam no que vêm e você deve ser uma, porque não estou caçando homem algum”. “Ah, querida, você engana quem hein? Vai dizer que depois que do divórcio, você já deu umas escapadas?”. “Lilu, eu não tenho saco, mas você está enchendo a inexistência dele”. “Te pego em 40 min”. Tu, tu, tu, tu. Fui me arrumar. Fazer o que? Não tava afim mesmo de assistir a reprise do acasalamento dos leões marinhos.

Fomos a um bar mix. Casais héteros, casais gays, jovens, trintões, quarentões, ou seja, a pluralidade estava na moda e eu, com meu olhar de antropóloga de botequim, resolvi me desligar da conversa das minhas amigas recauxutadas e observar o lugar no geral. Fazia pouco tempo que o local havia sido aberto. O atendimento ainda era bom e a decoração era interessante. Depois descobri que a grande novidade do bar era contar com uma espécie de cabines do amor, onde casais mais assanhadinhos iam dar uns malhos. Era quase como um Cyber Café da sinestesia. Tempo contado para o malho e buzininha dizendo que o tempo acabou. Para os voyeurs de plantão, as cabines acabaram com sua alegria de observar os frequentadores ensaiando a dança do acasalamento pelos cantos escuros do bar. Era um bar grande, tinha uma pista de dança pequena, as cabines no andar de cima, já que se tratava de um sobrado antigo e, por fim, descobri que o bar plural, mix, fashion, contava ainda com um discreto Sex Shop, onde as pessoas poderiam adquirir uns temperos a mais para a noite. Tomei minha primeira dose de vodka com coca cola e resolvi ir ao banheiro. Provavelmente quando eu saísse da mesa, minhas amigas iriam falar que minha abstinência forçada está me fazendo perder o senso de humor. Mal sabem elas que ouvir falar das mil maneiras de ter uma bunda dura é que me fazem perder o humor. Quando saí do banheiro, resolvi conhecer mais de perto o bar. Subi, tateando o escuro, ao andar de cima. Era lá que ficava a parte apimentada do sobrado. O local ficava parcialmente escuro, para que a identidade dos casais fosse levemente mantida em segredo, se bem que quando eles descessem a escada, já era não? Enfim, dei uma olhada cumprida para o corredor que dava para as cabines e ia descendo a escada novamente, quando vi o letreiro da lojinha de artigos eróticos, que ficava próxima à escada. Resolvi dar uma olhada pelo vidro, quando a atendente da loja me viu e me chamou. Eu disse que só estava olhando e ela insistiu que eu entrasse. “Olá”. Disse ela. “Olá”. “À procura de algo?”. “Não, não, eu só estava olhando mesmo…”. “Sei…”. “Funciona mesmo ter uma loja dessas num bar?”. “Olha, as pessoas gostam de novidades e muitas delas não têm coragem, como a senhora mesmo, de entrar em um Sex Shop, sem que estejam pelo menos com umas gotas de álcool na cabeça, então aqui já fica perto…”. “Olha, eu não tô procurando nada aqui não, só estava olhando por curiosidade…”. “Não se preocupe, todo mundo que vem aqui sempre diz estar olhando por curiosidade, mas sempre acaba levando uma “lembrancinha” pra casa”. “Bom, o papo está bom, mas tenho que voltar para a mesa…”. ” Que tal ver umas lingeries quentes? Temos modelos diversos. Freiras, enfermeiras, diabinhas, bombeiras…”. “Bombeiras?”. “Sabe como é né? Manuseia mangueiras grandes e potentes?”. “Nossa, que simbólico… Mas tenho que ir mesmo”. “Que tal uns cremes?”. “Não”. “Calcinhas comestíveis?” “Não, eu tenho que ir mesmo”. “Deixe só eu te mostrar a nossa vitrine da magia!”. “Depois disso você me deixa ir, pelo amor de deus?”. “A senhora não vai se arrepender!”.

A atendente me conduz a uma prateleira e quando me dou conta, estou diante de um arsenal de falos. “Vê só que maravilha, minha amiga! Vê só que maravilha”. “Tá bom, mas tenho que ir mesmo!”. “Não quer nem pegar em um? Eu deixo. São tão macios”. “Não, obrigada”. “Pegue, é bom!!!”. “Ai, meu pai”. Mal respondi, ela já foi tirando da prateleira um modelo 25 cm, grosso, realista. “Tá vendo? Tem até as veias. Eu tenho um destes. Aqui eu tenho desconto”. A atendente falava e olhos brilhavam. “Sabe o que é bom nisso tudo? Você não espera o dono do pinto te ligar no dia seguinte? Hahahahahahaha”. “Senhor, tirai-me desta saia justa”. “Pegue, vamos pegue!”. E eu peguei. Peguei mesmo. Pensei que assim  me livraria da atendente, que levava a sério seu estar no mundo como vendedora de sex shop. “É… É… intumescido!”. “Quê?”. “Inchado!”. “Ah, eles exageram mesmo. Sabe como é né? Se é difícil achar um de qualidade por aí, a gente vende de primeira aqui”. “É, meu pai tinha razão… O que Deus não fez, o homem deu seu jeito”. Comecei a relaxar. A mesa estaria entediante mesmo. “Ah, a senhora tem que ver este daqui. Dupla penetração!”. “Filha, calma. Essas coisas me assustam!”. A atendente riu e puxou uma coisa que deveria ter sido inspirada na cobra de duas cabeças. “Você pode usá-lo na senhora mesmo ou compartilhar”. “Tudo bem, querida… Já entendi”. Quanto mais atenção eu dava, mais a atendente solitária (será que ela usava um daqueles para passar o tempo?), me mostrava as peças. Pintos, de todos tamanhos, cores e diâmetros, pomadinhas, que segundo ela, faziam a dita cuja ferver e o pinto inchar. Calcinhas, cuecas com carinha de elefante e lugar para colocar a tromba. Estava rolando um verdadeiro Workshop erótico e nenhum conhecimento a mais deve ser dispensado, não?

Fiquei com pena da garota, que havia sido tão prestativa em suas explicações detalhadas, que resolvi levar um mimo pra cama, ops, pra casa. Ato falho, ou será ato fálico mesmo? Mandei embrulhar. Não sei se os anos de repressão sexual familiar me faria usá-lo, mas mesmo assim, paguei o mimo, me despedi da moça, que ficou na loja arrumando os falos múltiplos com todo carinho que a profissão exigia.

Fui descendo as escadas, quando esqueci do detalhe que não havia trazido bolsa grande e não teria como esconder o pacote sem ser questionada. Tentei acreditar na sorte de que levemente alteradas, elas nem iriam perceber o pacote, tão mergulhadas em seus momentos altistas que giravam em torno de plásticas e coroas que ainda davam no coro. Sentei-me à mesa e foi exatamente Lilu, aquela que me acusa de estar em seca profunda, que sem que eu tivesse tempo, arrebata o pacote de minha mão. “O que é issoooooooo?”. “Devolve, Lilu. Devolve que é vexame”. “Devolvo nadaaaaaaaaa. Eu te vi subindo a escada. Hahahahaha”. “Por que vocês deixam esta mulher beber desta forma. Devolve esta caceta, Liluuuuuu”. “Ah, então é uma caceta? Hahahahaha”. “Não!!!! É forma de dizer. Devolve!”. “Nãooooooooo”. “FAÇAM ALGUMA COISA!!!”. “Passa pra cá, Lilu”. Gritaram as traidoras. Quando dei por mim, o pacote já estava aberto e em um impulso tentei arrebatar da mão de Lilu, quando o pacote rasgou de vez e Lilu ficou com aquele falo de 25 cm balançando como uma anaconda agonizante (gostaram da métafora?). O bar já havia parado para nos observar, tal o alvoroço que havia sido instaurado naquela mesa. Lilu, lívida, deixou o consolo cair e os copos que estavam sobre a mesa foram caindo em cima do Ricardinho, como minha mãe dizia. Viramos a atração da noite e obviamente tivemos que pagar a conta e sair correndo, antes que alguém tentasse nos oferecer algo a mais como brinde e cortesia da casa. Saí com o pinto na mão. A merda já tinha sido feita, mas ficou para o Bar que a dona do moço era a Lilu. Saí apenas como a amiga que apoia. Lilu perdeu aquele riso de hiena e eu voltei pra casa com um pau molhado de vodka e coquetel de frutas. Cheguei em casa, tomei um banho e lavei o dito cujo. Deixei-o ao lado da cama. Qualquer coisa, digo que sigo alguma religião cujo ídolo é o falo. Às vezes a noite até falo com ele. Meu gato às vezes se assusta quando ver, mas como meu velho mesmo dizia, “o que Deus não dá, o homem dá um jeito e faz”. E fez…

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Dor

October 24th, 2007 by jana

Dor não se partilha,
não por avareza,
mas por impossibilidade.
Cada um sabe da intensidade de sua dor
e do limite de sua tolerância.

A dor é minha e a palavra não é paleativo.
Posso gastar dias tentando descrevê-la,
mas a palavra é limite,
não dá conta daquilo que é sentido
ou cura através da combinação livre das letras.

Queria não ser tecida por tantos filamentos nervosos,
mas abriria mão também do prazer,
então pago o direito do gozo
com a possibilidade irrefutável da dor por vir.
Negar a possibilidade da dor
nos faz abrir a mão da experiência do prazer.

A dor é minha e dela apenas eu sei.
Sei a cor e a sua intensidade,
sei do espaço que ocupa no meu peito,
sei das lágrimas que ela me faz verter,
tal qual ácido a queimar as retinas,
tal qual fel a ferver por dentro
o vermelho-vida que me sustenta.

A dor é sentida no silêncio ou no grito,
dissolvida pelo tempo, rio que ele é,
a fazer tudo que é pó misturar-se às superfícies líquidas das horas,
que nunca alteram seu curso rígido-sempre-pra-frente.
Vai, vai rio,
corre tempo,
cura minha dor,
transforme-a em pó,
desapareça,
sedimente-se no fundo do leito,
junte-se às minhas margens.

Vai, vai tempo,
cumpra-se como um funcionário burocrático,
que carimba papéis automaticamente.
Vai, tempo, não questione nada,
aperte seus parafusos, faça sua parte,
leve minha dor para longe
e depois me traga outras,
porque é este o preço que pago por insistir,
porque é este o preço que pago por viver
na tensão silenciosa do gozo,
na certeza avassaladora da dor,
que quando chega, espalha-se
e demora-se, como visita indesajada,
a ocupar o espaço que escolhe para se fixar,
ignorando o riso que antes existia lá,
ignorando os sonhos que moravam na extensão limitada do meu peito.

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Não

October 22nd, 2007 by jana

Para minha vó

Queria crer,
entenda, só por você,
queria crer sim.
Mas sou só sentidos,
só creio naquilo que me atinge a carne,
sou vazia de milagres,
não creio na inversão da água,
tentando subir os morros.

Entro naquele cubo branco,
você deitada, olhar perdido,
e tento te resgatar para o tempo seguro,
aquele em que me guiava segurando minhas mãos,
e impedindo meus tropeços, arranhões e feridas.
Agora você dói e eu não sei te conduzir,
estancar os olhos,
te livrar da queda.

Queria poder te mostrar o sol,
ele brilha indiferente a tudo,
mas ainda assim é lindo de se ver,
principalmente quando ele se deita
ao fim da tarde de nossa cidade,
dando lugar à noite,
onde descarrego minhas dores
e disfarço a tristeza firme no meu olhar.

Não te fiz voar,
não te ajudei a ver mais de perto o céu que tanto ama,
não sentei ao seu lado no fim da tarde,
andava esquecida de tudo,
inclusive de mim mesma.

Só te peço pra abrir os olhos,
só te peço pra não ir
e pra deixar acarinhar seus cabelos de prata,
me redimir, nos redimir,
recomeçar, reviver, recordar,
e tecer novas linhas,
e criar novos planos,
advinhar novos dias,
continuar, ser reticências, ser parágrafo inacabado.

Faça este coração continuar,
bombeando vida em nossas vidas,
preenchendo vazios,
compartilhando riso.
Nunca gostei de despedidas,
não repare em minha intransigência,
mas este poema é um nariz torcido,
é um não sonoro,
é apenas um grito-pedido
para que fique,
para que continue,
para que não se vá.

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Hoje, no Brutti, “Desértico”

October 7th, 2007 by jana

Procure algo que desconhece, algo que não se conhece forma-cheiro-sabor, e terá idéia vaga da procura dele. Lasque unhas, sangre dedos, esfole carne, e terá vaga idéia da dor. Num mundo transbordando amor de boutique, ele talvez fosse o único, talvez o único mesmo que ousava mesmo, na cara, no ato, nos dentes, dizer que desconhecia essa coisa toda de amor. Do início ao fim ou reticências (…).

Hoje, no Brutti, “Desértico”.

Abraços,

Jana.

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Delírios de uma quarentona em perigo em “Férias”

October 2nd, 2007 by jana

Serviço público, colegas de trabalho animados todas às sextas-feiras, pilhas de papéis formando uma barreira natural entre eu e a realidade, e só uma vez no ano, durante um mês, permaneço longe de tudo isso. Meu estagiário se movimenta na cadeira, como se houvesse uma reunião de pulgas atacando seu santo traseiro. Uma vez no ano, uma só, me livro desta visão do inferno. Mas vamos ao que interessa: os planos.

Geralmente eu tiro férias em uma época esdrúxula do ano para não ter que enfrentar dois tipos de problemas: os preços, que deveriam ser cobrados apenas a Deus (já que estão em uma altura humanamente impossível para um servidor público alcançar) e a manada de turistas alegrinhos e cheios de disposição. Já disse uma vez que tenho medo dos excessivamente felizes. Duvide deles! Pessoas que sorriem demais ou têm algum problema na arcada dentária ou são bestas. Peguei o carro depois do expediente e fui procurar uma agência de viagens com pacotes em conta. Sou uma mulher só, mãe de uma ex-adolescente antecipada aos 20 anos, que se mudou para outro país por causa de um intercâmbio. Só me resta o controle remoto e um gato, que me procura apenas na hora da comida. Independência maior que essa? Não existe. Pesquisei alguns nomes de agências e lá fui eu com o meu contra-cheque na bolsa para não fugir à minha realidade de funcionária pública.

“Boa tarde…”. “Boa tarde, senhoraaaaaa, sente-se”. Nota mental… Pessoas alegres, efusivas e que falam como atendentes de telemarketing são dignas de desconfiança. “O que a senhora deseja?”. “Eu gostaria de dar uma olhada em alguns pacotes. Pode me mostrar os nacionais e os internacionais, por favor. Os que estejam mais em conta de preferência…”. “Ahhhh, mas podemos facilitar muitooooooooo para a senhora. Dividimos sua viagem em até 36 vezeeeeeeeeees e …”. “Não, entenda, eu só quero algo em conta. Não quero passar minha vida inteira pagando minhas férias. Não é pra tanto…”. “Haroldoooooooo… Traz os panfletos, por favor!”. De dentro de outra salinha aparece o famigerado Haroldo com uma pilha de panfletos. “Aqui está… Vou te explicar detalhadamenteeee cada pacote e…”. Nota mental… Não peça todas as opções… “Veja bem, este pacote aqui é maravilhosooooooooo. A senhora poderá fazer um cruzeiro com todo o conforto e…”. “Pera, filha… Olhe, é o seguinte… Cruzeiros para mim podem parecer maravilhosos nos primeiros quinze minutos, enquanto ainda você não percebeu que passará dias observando a variação dos tons da água. Não, obrigada! Prefiro me deslocar por terra mesmo”. “Ah, então a senhora quer um pacote de viagem com ônibus!”. “Não, não é isso… (AI, MEU PAI!). Eu quero viajar de avião, mas quero ir para algum lugar em que eu possa circular livremente e…”. “Tem certeza que não quer o cruzeiro?”. “Tenho sim, obrigada!”.

Diante de mim, uma atendente animada e um estagiário chamado Haroldo. O que mais posso querer? “Veja só, este pacote é maravilhooooooooso. Muita gente opta por ele nesta época do ano. Há até um grupo fixo, que sempre viaja pela nossa empresa. Gente animada, senhores distintos … Quem sabe a senhora não arranja até um paquera, hein?”. Estava demorando… Estava demorando. Agora ela acha que porque me mostrou uma dezena de panfletos já pode ser minha personal cafetina. Puta que pariu! “Não estou interessada em grandes grupos, querida, quero apenas algo dentro do meu orçamento e que eu tenha privacidade e liberdade de ir e vir. Da última vez que viajei em grupo foi para a Espanha e a experiência não foi das melhores. Duas das minhas acompanhantes gritavam no restaurante para que o garçom entendesse os pedidos delas, até que eu tive que  intervir dizendo que os garçons não eram surdos, só falavam outra língua!”. “Que lamentável…”. “Pois então… Nada de Cruzeiros, cheios de animadores e de bingos, nem grupões… Por favor!”.

O tempo ía passando e minha paciência se esgotava. A grande verdade é que minha paciência anda tão escassa quanto a camada de Ozônio em cima de  nossas  cabeças. Depois de olhar pacotes internacionais e perceber que meu salário, sem reajuste há mais de dez anos, mal daria para cubrir as despesas de uma viagem para a cidade vizinha, eu já perdia as esperanças. “Que tal fazer o Nordestão em 7 noites? É maravilhosooooooooooo”. “Como assim fazer o Nordestão em 7 dias?”. Ah, a senhora passará uma noite em cada estado do Nordeste! Imagine que maravilha!”. “Filha, isso para mim é humanamente impossível. Viajar envolve aproveitar as cidades. Não vou me meter em um pacote que me faça conhecer as dunas de Natal passando de longe no ônibus e comer um acarajé de baixo do ar-condicionado do mesmo ônibus, enfrentando aqueles banheiros minúsculos, que são no mínimo constrangedores. Você deve achar uma experiência transcendental fazer xixi saculejando, com o risco de que sua bunda fique totalmente molhada ou que você tenha traumatismo craniano enquanto estiver tentando levantar as calças e o ônibus acidentalmente passar à louca por um buraco. Ou também você deve achar que vale a pena molhar o dedo no mar de Maceió enquanto o motorista reabastece o ônibus e canta a frentista. Não, obrigada”. Foi aí que comecei a perceber que o tom efusivo e articulado da atendente se perdia. A mulher já mordiscava o fundo do lápis e ela olhava para Haroldo com cara de quem está pagando pecados. “Olha, desculpe, mas não encontrei nada que me agradasse nesta agência…”. Eu já disse e repito… Duvide dos excessivamente felizes. Há uma hora que o fio que divide a sanidade aparente da loucura iminente simplesmente parte. “O queeeeeeeeeeee?”. “Ahn?”. “A senhora me fez mostrar todooooooooos estes pacotes maravilhosos e vai sair daqui sem nenhum? A senhora acha que eu sou o que, hein?. “Olha, não me leve a mal, eu sei que é seu trabalho, mas…”. “Sabe é o carambaaaaaaaa. A senhora não trepaaaaaaaaaa”. Comecei a olhar desesperada para Haroldo. “Calma, moça. Calma…”. Calma, o cacete!!!! A senhora vai escolher uma merda de um pacote nem que eu tenha que deixar umas marcas de unha na sua cara!!!!”. “Haroldo, socorroooooooooo!”. Haroldo chamou o gerente da agência e foi bem na hora que a atendente-super-articulada de penteado impecável já quase ensaiava para aparecer como protagonista mor das páginas policiais. Confusão desfeita, água com açúcar para a garota e o gerente tentando me explicar que ela era novata, que ainda não tinha o traquejo para lidar com certas situações e blá, blá, blá. Resultado: desisti de viajar. O jeito é circular pela cidade e assistir o National Geographic. Uma semana depois passei na frente da agência. A menina ainda estava lá. Haroldo havia sido promovido, eu acho. Olha só como eu mudo a vida dos estagiários? Hahahaha. Vou ali comprar “A volta ao mundo em 80 dias”. Depois de uma certa idade, viciamos em seguros.