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Só os loucos são verdadeiramente livres
Só os loucos são verdadeiramente livres,
pois são os únicos cujos pensamentos galopam sem amarras,
sem o cordão umbilical construído entre o corpo e o mundo:
seus valores, seus aprisionamentos,
suas celas-culturas.
Um dia quis enlouquecer verdadeiramente.
Treinei trejeitos, caras, bocas e olhar perdido,
mas tudo não passava de encenação barata exibida em praça pobre e sem platéia.
A loucura se fantasia em mania
e hoje até os loucos duvidam de si.
Uma chuva colorida em pontos cai.
Abra a boca, agora engula.
Um dia quis enlouquecer verdadeiramente,
me tornar a louca da cidade,
aquela que vaga vestida dos restos dos outros,
das roupas, das falas, dos gingados dos corpos emprestados.
Assim seria o que me apetece ser
e ninguém julgaria a arena que é meu corpo,
onde deixo que afundem os pés,
corpos, corpos e corpos.
Nunca enjôo deles.
Meus cabelos foram postos em desalinho,
mas o que adianta tanto esforço em desarrumar,
quando o que é centro de questão
está devidamente organizado em dia.
“Não faça isso, ah não, não faça aquilo”.
“Olhe as boas maneiras, o que os outros vão falar”.
“Não beije outras bocas”.
“Não lamba outras pernas”.
“Não deixem que te salivem o sexo”.
Só os loucos são verdadeiramente livres,
ejaculam vida e despejam no chão,
e ninguém lhes julgará o sexo exposto,
porque é louco, não pensa no que faz.
Mas ele pensa, um pensar diferente,
é verdade, mas pensa.
Enquanto meu corpo pena
dentro da minha cela firme,
a cela que me aprisiona de dentro para fora,
que me tolhe movimentos e que pede para eu me conformar.
Esta cela é a herança que recebo
a troco da adequação imposta.
Fecho as pernas, fecho a boca, tranco os olhos
deixo-me levar.
