Arquivos dos posts

Só os loucos são verdadeiramente livres

November 22nd, 2007 by jana

Só os loucos são verdadeiramente livres,
pois são os únicos cujos pensamentos galopam sem amarras,
sem o cordão umbilical construído entre o corpo e o mundo:
seus valores, seus aprisionamentos,
suas celas-culturas.

Um dia quis enlouquecer verdadeiramente.
Treinei trejeitos, caras, bocas e olhar perdido,
mas tudo não passava de encenação barata exibida em praça pobre e sem platéia.
A loucura se fantasia em mania
e hoje até os loucos duvidam de si.
Uma chuva colorida em pontos cai.
Abra a boca, agora engula.

Um dia quis enlouquecer verdadeiramente,
me tornar a louca da cidade,
aquela que vaga vestida dos restos dos outros,
das roupas, das falas, dos gingados dos corpos emprestados.
Assim seria o que me apetece ser
e ninguém julgaria a arena que é meu corpo,
onde deixo que afundem os pés,
corpos, corpos e corpos.
Nunca enjôo deles.

Meus cabelos foram postos em desalinho,
mas o que adianta tanto esforço em desarrumar,
quando o que é centro de questão
está devidamente organizado em dia.
“Não faça isso, ah não, não faça aquilo”.
“Olhe as boas maneiras, o que os outros vão falar”.
“Não beije outras bocas”.
“Não lamba outras pernas”.
“Não deixem que te salivem o sexo”.

Só os loucos são verdadeiramente livres,
ejaculam vida e despejam no chão,
e ninguém lhes julgará o sexo exposto,
porque é louco, não pensa no que faz.
Mas ele pensa, um pensar diferente,
é verdade, mas pensa.
Enquanto meu corpo pena
dentro da minha cela firme,
a cela que me aprisiona de dentro para fora,
que me tolhe movimentos e que pede para eu me conformar.
Esta cela é a herança que recebo
a troco da adequação imposta.
Fecho as pernas, fecho a boca, tranco os olhos
deixo-me levar.

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Sou

November 10th, 2007 by jana

Sou apenas por mera burocracia.
Seria complicado demais registrar-me no mundo em multiplicidade.
Então sou por convenção, por facilidade.
Sou indíviduo por necessidade didática de compreensão,
mas descubro-me tantas a cada confronto
com minha imagem duplicada e
com os tantos corpos que atravessam a superfície côncava dos meus olhos.

Posso ser o que quiser no jogo cotidiano da existência,
o que quero ser e aquilo que esperam que eu seja.
Não alimento ilusões quanto a um eu fixo,
uma essência que se descobre com convivência.
Convivo comigo e desconheço minha última camada ou face.
Sei apenas que sou palco vivo,
que caminha apresentando-se como espetáculo,
monólogo ou diálogo,
tragédia ou comédia,
posso chover e ser sol quando me apetece o gosto.

Querem me aprisionar,
moldar atitudes, treinar minhas emoções.
Deixo que a ilusão do controle se faça,
mas por baixo de tudo corro como menina,
sem medo de arranhar mãos e joelhos,
ou sujar as unhas de vida.
O que mais quero é voltar suja pra casa
de tudo aquilo que colho pelo caminho.

Se querem que eu seja uma,
uma serei como exercício de prestidigitação.
Não há mágica maior que crescer
e viver entre a sisudez convencional da rotina dos adultos.
Mas por dentro sou menina,
que sabe caminhar por muitos mundos,
sem medo de ser arrastada e vestida com camisas brancas.
As crianças sabem ser múltiplas e
ninguém lhes questiona aparente esquizofrenia.

Seria mais fácil substituir sujeito,
deixar de ser eu, passar a ser nós.
Eu e minhas tantas faces.
Sou apenas um corpo,
mas o que me define são minhas personagens.
Somos o melhor e o pior.
Você me vê e me transforma naquilo que seus olhos ditam.

Sou um oceano,
que se veste de horizonte límpido,
mas esconde por dentro tanta vida em formas diferentes.
Mergulhe em mim,
migre entre minha superfície e meus abissais,
mas não espere que haja um fim ao tocar o fundo,
há camadas e camadas escondidas por baixo.
O nada é enfim minha existência.
Somos… somos sim.
Eu, ela, ele e tudo o que demais me habita.

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Pedido

November 5th, 2007 by jana

Não pinte meu corpo com essas cores pardas, meu bem,
sou assim explícita, uns borrões de vermelho,
de sangue sou feita e pulso sonora,
sou coração e boca escancarada,
olhos brilhantes e pés buscando sempre o alto.

Não me aprisione na rotina dos dias,
renove-me como fonte que precisa de espaço para ser rio,
como luz artificial que deseja ser sol.
Aceite o desgrenho dos meus cabelos,
minha loucura sadia, minhas párabolas,
meus altos e meus poços.

Pule comigo sem medo das alturas.
Pule, com os dedos misturados aos meus,
pule, que a vida nos espera,
esqueça os almoços em família,
a conta do banco, as contas de luz,
sente-se ao meu lado e balance seu corpo
por cima de um mar de acertos e erros,
não tenha medo da queda,
estou aqui para ralar os joelhos e sangrar junto.

Ah, meu bem, não me pinte com as cores pardas da repetição,
não espere de mim exatidão, planos para o futuro, previdência privada.
Espere de mim movimento, tudo levado ao limite,
choro-riso-gozo-dor,
aceite o melhor e o pior de mim,
e entenda que tudo é complemento, parte,
um pouco pelo todo.
Aceite estas linhas, rabiscadas de madrugada,
que só te pedem um dia após o outro,
um minuto vivido sem à espera do seguinte,
apenas o agora,
apenas o momento,
apenas aquilo que for possível viver.

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Dança das marés

November 1st, 2007 by jana

Misturemos nossos finitos
nesta dança muda de corpos,
diminuindo distâncias,
invertendo lógicas,
zombando do tempo,
que teima passar e nos lembrar
da urgência-limite dessas nossas vidas.

Misture seu finito ao meu,
alongaremos assim nossos limites,
seremos oceano.
Renove-se em mim,
desague-se,
assim como bebo de sua fonte
e dela me alimento,
cresça entre minhas margens
e corra pra longe,
seja movimento,
afaste-se da quietude que nos ronda.

Ah, meu bem,
encurte essa distância que se coloca agora,
estreite-se nestes braços que te aguardam sempre,
como desejo cíclico que se renova
com a chuva silenciosa do nosso suor.

Venha que te espero como a barca perdida nos mares,
a esperar que um vento mais forte a leve para longe.
Venha que sou essas águas paradas esperando pelo milagre das ondas,
que busca o fundo,
que mistura terra,
que arrebata vida,
que faz a quietude cessar
e se fazer movimento.