Sou

November 10, 2007 por jana

Sou apenas por mera burocracia.
Seria complicado demais registrar-me no mundo em multiplicidade.
Então sou por convenção, por facilidade.
Sou indíviduo por necessidade didática de compreensão,
mas descubro-me tantas a cada confronto
com minha imagem duplicada e
com os tantos corpos que atravessam a superfície côncava dos meus olhos.

Posso ser o que quiser no jogo cotidiano da existência,
o que quero ser e aquilo que esperam que eu seja.
Não alimento ilusões quanto a um eu fixo,
uma essência que se descobre com convivência.
Convivo comigo e desconheço minha última camada ou face.
Sei apenas que sou palco vivo,
que caminha apresentando-se como espetáculo,
monólogo ou diálogo,
tragédia ou comédia,
posso chover e ser sol quando me apetece o gosto.

Querem me aprisionar,
moldar atitudes, treinar minhas emoções.
Deixo que a ilusão do controle se faça,
mas por baixo de tudo corro como menina,
sem medo de arranhar mãos e joelhos,
ou sujar as unhas de vida.
O que mais quero é voltar suja pra casa
de tudo aquilo que colho pelo caminho.

Se querem que eu seja uma,
uma serei como exercício de prestidigitação.
Não há mágica maior que crescer
e viver entre a sisudez convencional da rotina dos adultos.
Mas por dentro sou menina,
que sabe caminhar por muitos mundos,
sem medo de ser arrastada e vestida com camisas brancas.
As crianças sabem ser múltiplas e
ninguém lhes questiona aparente esquizofrenia.

Seria mais fácil substituir sujeito,
deixar de ser eu, passar a ser nós.
Eu e minhas tantas faces.
Sou apenas um corpo,
mas o que me define são minhas personagens.
Somos o melhor e o pior.
Você me vê e me transforma naquilo que seus olhos ditam.

Sou um oceano,
que se veste de horizonte límpido,
mas esconde por dentro tanta vida em formas diferentes.
Mergulhe em mim,
migre entre minha superfície e meus abissais,
mas não espere que haja um fim ao tocar o fundo,
há camadas e camadas escondidas por baixo.
O nada é enfim minha existência.
Somos… somos sim.
Eu, ela, ele e tudo o que demais me habita.

3 comentários

  1. fao diz:

    andei pensando, ontem, coicidencias?… quantas Adrianas já habitam em mim

  2. Jana diz:

    Amei!! Quantos somos em intervalos? quem somos nós em cada hora do dia? Somos um por fora, vários por dentro, e muitos pelos infinito…!!!

  3. Ana Cecília diz:

    oi Jana, deixo aqui um abraço pra você, com um carinho especial nesse momento que vocês estão vivendo.
    Amei o seu “Sou”, que belo poema. E, de quebra, dialógico como somos todos, mas que você diz de forma tão intensa.
    Ana

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