Só os loucos são verdadeiramente livres
Só os loucos são verdadeiramente livres,
pois são os únicos cujos pensamentos galopam sem amarras,
sem o cordão umbilical construído entre o corpo e o mundo:
seus valores, seus aprisionamentos,
suas celas-culturas.
Um dia quis enlouquecer verdadeiramente.
Treinei trejeitos, caras, bocas e olhar perdido,
mas tudo não passava de encenação barata exibida em praça pobre e sem platéia.
A loucura se fantasia em mania
e hoje até os loucos duvidam de si.
Uma chuva colorida em pontos cai.
Abra a boca, agora engula.
Um dia quis enlouquecer verdadeiramente,
me tornar a louca da cidade,
aquela que vaga vestida dos restos dos outros,
das roupas, das falas, dos gingados dos corpos emprestados.
Assim seria o que me apetece ser
e ninguém julgaria a arena que é meu corpo,
onde deixo que afundem os pés,
corpos, corpos e corpos.
Nunca enjôo deles.
Meus cabelos foram postos em desalinho,
mas o que adianta tanto esforço em desarrumar,
quando o que é centro de questão
está devidamente organizado em dia.
“Não faça isso, ah não, não faça aquilo”.
“Olhe as boas maneiras, o que os outros vão falar”.
“Não beije outras bocas”.
“Não lamba outras pernas”.
“Não deixem que te salivem o sexo”.
Só os loucos são verdadeiramente livres,
ejaculam vida e despejam no chão,
e ninguém lhes julgará o sexo exposto,
porque é louco, não pensa no que faz.
Mas ele pensa, um pensar diferente,
é verdade, mas pensa.
Enquanto meu corpo pena
dentro da minha cela firme,
a cela que me aprisiona de dentro para fora,
que me tolhe movimentos e que pede para eu me conformar.
Esta cela é a herança que recebo
a troco da adequação imposta.
Fecho as pernas, fecho a boca, tranco os olhos
deixo-me levar.

November 23rd, 2007 at 6:39 am
Minha doida!
November 23rd, 2007 at 3:08 pm
Saudades, Janis.
Mande um sinal de fumaça pra cá hehuehusheusa
:***
November 26th, 2007 at 1:52 pm
Minha flor, parece até uma homenagem!
Sei bem da dor e da delícia da loucura. Eu já experimentei, sabe? Mas no momento prefiro saber onde estou pisando e que dia é hoje. Para os loucos o calendário não faz sentido porque todos os dias são inventáveis - uma folha em branco pra colorir, recortar, colar…
Beijo!
November 26th, 2007 at 1:54 pm
Poema lindo!
November 30th, 2007 at 7:55 am
que belos estes dois últimos poemas, Jana!
passo aqui correndo, mas ainda dá tempo de saber disso, de verdade.
Beijo!
December 1st, 2007 at 9:49 am
“hoje até os loucos duvidam de si”.
é bem o retrato do nosso tempo.
já te disse: você tem essa atenção fina de poeta-etnógrafa. muito legal isso.
beijos.
December 3rd, 2007 at 9:46 am
Como sempre, mais um texto de excelente qualidade.
Parabéns, realmente isso é verdade, viver nas regras e obedecer as regras de um grupo de pessoas que as definiu como: “ideal para uma vida longa e feliz”, mas os ideais de felicidade são diferentes pra alguns. O único jeito de nos livrarmos disso é mostrarmos que somos loucos a vista deles.
Muito bom linda, adorei!
Beijos!!
December 12th, 2007 at 12:51 pm
Lindo poema. Lembrou-me um trecho do monólogo ‘dionísio - o grande grito’. Nele é feita a pergunta:
‘Sim. e se eu dissesse sim à loucura? Ser o deus do novo,… o êxtase do sublime!’
Mas não é fácil… nunca é fácil deixar para trás a capa da mesmice para a qual somos treinados.
Grande abraço, Poetisa!