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Matéria-prima

February 22nd, 2008 by jana

Descubro-me filha da combinação das palavras
e não da junção aflita de duas carnes.
Não importa à rotina a história do ventre que me abrigou,
o que conta é aquilo que é dito
e digerido como verdade, como história linear.

A palavra antecede
desde o sabor sentido na língua
à aspereza firme e fria do chão durante a queda.
A palavra antecede o azul profundo deste mar que não vejo
e me antecede ao mundo
como cartão de visita desbotado e ultrapassado.

O conforto mora nas definições,
nas certezas feitas de tecido frágil e finito.
Sou feita de transição,
sou rio e chuva,
que passa, segue seu curso e desvia-se.
As palavras são estes recipientes vítreos decorados,
que me oferecem na intenção fria
de conhecerem o início e fim das minhas águas.

Enquanto buscam palavras para definir aquilo que é gerundismo,
meu corpo segue sendo e vivendo
aquilo que escolhe ser e viver.
Minha única bússola é o desejo,
que tanto faz chamar-se desejo ou não,
é o estímulo primeiro, o que faz meu corpo ser movimento.
As palavras… Guardo-as para o meu mundo falho,
o sentir eu lanço na carne como guia,
e sigo livre no bater frenético dos meus olhos
nus de palavras e de suas definições.

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Do lado de dentro

February 16th, 2008 by jana

Só te peço, meu bem,que despeje nossas rotinas nas almofadas espalhadas pelo chão,junto às nossas peças surradas de rua
e da correria da multidão,
que mora entranhada nas solas de nossos sapatos,
divididos em suaves prestações.

Deitemos nossas costas-pele-nua
neste chão mais tarde lavado por nosso suor,
que seja mar e rio onde navegaremos nossos sonhos,
onde misturaremos nossas pernas,
onde perderemos os pontos
em que você acaba e eu começo.

Quero apenas o vento frio adentrando as janelas
para ver você se aninhar na extensão dos meus braços,
na canção que toca suave,
nas palavras ditas como prece.
Saiba apenas o momento de calar
e fazer da língua tocando meu céu fibroso
a única canção que tocará firme para mim.

Só te peço, meu bem,
que enquanto você se despe de suas roupas batidas,
leve junto com a poeira suas negativas,
seus pudores fabricados,
seu medo de extravazar o limite dos rios.
Se vier para meus braços
que venha sem nada a cobrir corpo e vontade,
que o querer seja sua única direção,
a nortear seus passos no caminho entre minhas pernas.

E que esse chão que tem seu fim
ou a vida que um dia será ponto
sejam esquecidos como limite que são
e se tornem apenas palco e platéia,
onde apresentamos em carne nosso ato
e de quem não esperamos nem um aplauso.
E do lado de fora só esta brisa fria de fim de dia
adentra os espaços vazios entre nossas carnes.
O resto continua lá,
morando na velocidade diária das ruas.

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Chuva

February 14th, 2008 by jana

Como a chuva que se derrama pela cidade
e nunca retornará novamente como a mesma chuva,
assim sou eu, que me derramo pelos dias,
construindo meu passado,
vendo o agora ser notícia de ontem
logo quando me distraio a pensar demais
no que vem depois.

Como a chuva que se derrama pelas calçadas,
também sou movimento que um dia cessará,
mas enquanto isso transbordo até o limite,
sou excessiva,
busco vida em cada fresta que se abre,
em cada corpo que se faz de concreto
e dureza aparente.

Sou oblíqua como estas gotas que caem surrando minha janela,
minha retidão é apenas aparente,
mas sigo sempre direções contrárias àquelas
que esperam de mim.
Eu dou a direção das minhas águas,
eu escolho onde desembocar.

Não tente me aprisionar no limite das suas mãos em concha,
conceba-me como este rio vertical que só quer correr livre.
Então beba de mim, sacie-se,
carregue no seu sangue um pouco de minhas águas,
mas não queira ser as margens que limitam os meus braços.
Pois sou esta chuva oblíqua, que molha e acarinha sua carne,
que se faz beber pela sua língua fibrosa,
mas que nem sempre cai vertical,
da mesma forma, na mesma direção.
Sou a chuva que descarta qualquer retidão,
que cai livre e que nunca mais será a chuva
que você vê agora.
Serei sempre uma queda diferente.

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Terra-carne e semente

February 7th, 2008 by jana

day_light_deleite.jpg

(Imagem: Janaína Calaça)

Hoje eu rasgo, semente, essa terra-carne
que me cobre olhos e narinas.
É hora de crescer,
ele me disse sem mexer os lábios,
e eu apenas sujei minhas mãos de vida.

É hora de crescer, baby.
O óbvio por ser explícito demais é posto de lado
como constatação menor,
mas não é.
E eu sujei ainda mais minhas mãos de vida.

Então ele foi arrancando as rodas da bicicleta velha
e me fez andar só, por mais que as quedas viessem,
por mais que a carne doesse,
por mais que eu pedisse pra parar.
A dor é fina, mas um dia passa,
nada permanece tão igual,
nem aquilo que fere.

Então eu quis rasgar a terra-carne de uma vez só,
e ele me disse, sem mexer os lábios,
que basta receber a primeira gota de luz,
que o restante vem com o tempo.
Tudo é produto do impulso primeiro,
das mãos cruzadas por baixo dos pés finos,
a ajudar a escalada pueril das mangueiras.
Vai, ele disse,
e eu quis sujar ainda mais minhas mãos de vida.

Semente rompendo a terra,
inseto quieto rompendo casulo,
seio minando as blusas cor de infância.
É hora de crescer.
E agora que a luz já aponta, mesmo tímida,
guardo-a no meu vidro velho de perfume
e faço dela vagalume,
a me guiar no caminho para romper de vez a terra,
pra deixar de ser semente,
pra crescer e me cumprir
como filho que sou do tempo.

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Quarta-feira de cinzas

February 3rd, 2008 by jana

os_corpos.jpg

(Ilustração: Luiz Fernando Calaça)

Duas chuvas caíam. Uma lá fora, alagando tudo, transformando o asfalto em um lago raso artificial. A outra caía dentro do salão enfeitado: chuva de confete colorido. “Vou levar horas para tirar este confete todo do cabelo amanhã”. Tinha relutado em ir. Quando demorava de decidir, alguma coisa mais tarde emperrava. Fosse um detalhe qualquer, do grampo de cabelo que feria o dedo na hora de ajeitar o penteado ou um pneu furado em fim de festa. Alguma coisa emperraria e foi atravessando o salão com aquele pensamento fixo, embaçando a noite.

Achou uma cadeira vazia e sentou-se. Andava meio puta com tudo. O casal de amigos havia a arrastado para aquela festa, para aquele último dia de carnaval, mas ela só conseguia pensar nas contas em cima da mesa, nos pratos empilhados na pia, nas relações mal resolvidas, que sempre acabavam com reticências e sem grandes explicações. Seja o que fosse, trepadas de uma noite, relações longas, amizades, tudo acabava sem explicações e ela pensava naquilo, enquanto o olhar se perdia no meio do confete e da música alta.

Levantou da cadeira e foi atrás de uma bebida no bar. Há tempos não participava de uma festa como aquelas. A moda agora era o retrô. Todo mundo agora buscava o passado, por achar que lá é que estava o melhor. Uma festa como as festas de carnaval de antigamente. Gente fantasiada, mascarada, algumas canções antigas, marchinhas. Todos naquele salão queriam se perder no passado naquela noite, para depois amanhã, na quarta-feira de cinzas, tirarem do rosto as máscaras de papel e continuarem suas rotinas com suas máscaras de carne. Atravessava o salão, quando duas mãos envolveram sua cintura. Não quis olhar para trás. As mãos continuaram lá. Quis virar, ser brusca, dizer algum desaforo de etiqueta, mas as mãos apertaram ainda mais a cintura dela e foram dando ritmo àquele corpo tenso e sempre ancorado ao infinito ontem. Aos poucos foi deixando-se levar. As mãos viraram todo o corpo dela e a deixaram frente a frente com o corpo dono daqueles dedos todos. Ela estava sem máscara, mas o corpo dono das mãos estava mascarado, como a maioria das pessoas na festa. Quis dizer alguma coisa, dar uma desculpa mais uma vez, mas não achou nada demais dançar mais um pouco. Dançando,  esqueceria das mágoas bobas arquivadas. Dançou, dançou livre. Uma chuva de confetes descia com a força dos ventiladores de teto, que espalhavam tudo pelo salão. Lá fora, a chuva lavava o asfalto e alguns corpos bêbados, que se confundiam nos jardins externos.

De repente, as mãos a conduziram pelo salão em direção à porta. O tempo tinha passado, umas canções velhas foram dando uma o lugar à outra e as mãos e o corpo, coberto pela fantasia boba de um Sherlock Holmes, conduziam o corpo dela para aquele pátio banhado de chuva. Resolveu deixar-se ir. Seria uma trepada a mais, como tantas outras. Já se habituara a se desligar em nome do corpo, já que não esperava mais nada. Quanto menor a expectativa, menor a frustração. Nada foi dito. Nada. Nem nome, nem cantada barata, nem signo, nem notas sobre o tempo. Nada. Tudo que conhecia daquele corpo era aquele par de mãos, um corpo coberto pela fantasia e uma máscara, que envolvia todo o rosto. Nada de singular. As mãos recomeçaram sua dança e ela foi se encostando numa das paredes da área externa do salão. As mãos foram passeando pelo corpo dela. E as mãos foram dando lugar a uma língua quente, ponta suave, saliva. Ela, que no salão só pensava na pilha de contas e de pratos, agora só sentia os mamilos forçarem quietos o limite da blusa, o sexo todo se desmanchando e molhando a calcinha de algodão, a boca escancarada acumulando saliva. As mãos e a língua daquele corpo silencioso foram passeando pelo corpo dela. Boca, pescoço, seios, umbigo e se afundou no sexo molhado dela. “Alguém pode ver… Vamos sair daqui…”. A língua misturou saliva aos líquidos dela, aos pêlos finos, que cresciam tímidos. De repente, as pernas dela prenderam o rosto daquele corpo e na confusão a máscara caiu. O corpo ainda tentou pegar a máscara molhada no chão e recolocar no rosto, mas ela já havia visto aqueles olhos, a boca, o conjunto todo. “Você é…”. Tocou o peito coberto pelas camadas de pano e sentiu dois seios, pequenos, mas seios. Seios femininos, seios de carne, uma mulher. A outra, com a máscara molhada nas mãos, não disse nada. Pediria desculpas, inventaria alguma bobagem, mas em vez disso, viu um corpo todo se aninhando nela, virando dedos, mostrando língua, tocando os seios, invadindo pernas. No fim de tudo, era carnaval. A chuva voltou e na confusão de buscar onde se abrigar, cada uma foi para um lado diferente. Ela deixou-se ficar na chuva e a outra se perdeu entre as luzes da fileira de táxis estacionados. Já eram três da manhã, já era quarta-feira de cinzas. A festa iria até o fim da madrugada e elas voltariam para casa. Cada uma vestindo suas máscaras cotidianas de carne, diminuindo ou não a pilha de contas e de pratos, mas ainda era carnaval. Duas chuvas caíam: uma de confete no salão, uma que alagava ruas e tentava, sem sucesso, lavar o cheiro de cada uma impregnado no limite raso de suas peles.