Quarta-feira de cinzas

February 3, 2008 por jana

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(Ilustração: Luiz Fernando Calaça)

Duas chuvas caíam. Uma lá fora, alagando tudo, transformando o asfalto em um lago raso artificial. A outra caía dentro do salão enfeitado: chuva de confete colorido. “Vou levar horas para tirar este confete todo do cabelo amanhã”. Tinha relutado em ir. Quando demorava de decidir, alguma coisa mais tarde emperrava. Fosse um detalhe qualquer, do grampo de cabelo que feria o dedo na hora de ajeitar o penteado ou um pneu furado em fim de festa. Alguma coisa emperraria e foi atravessando o salão com aquele pensamento fixo, embaçando a noite.

Achou uma cadeira vazia e sentou-se. Andava meio puta com tudo. O casal de amigos havia a arrastado para aquela festa, para aquele último dia de carnaval, mas ela só conseguia pensar nas contas em cima da mesa, nos pratos empilhados na pia, nas relações mal resolvidas, que sempre acabavam com reticências e sem grandes explicações. Seja o que fosse, trepadas de uma noite, relações longas, amizades, tudo acabava sem explicações e ela pensava naquilo, enquanto o olhar se perdia no meio do confete e da música alta.

Levantou da cadeira e foi atrás de uma bebida no bar. Há tempos não participava de uma festa como aquelas. A moda agora era o retrô. Todo mundo agora buscava o passado, por achar que lá é que estava o melhor. Uma festa como as festas de carnaval de antigamente. Gente fantasiada, mascarada, algumas canções antigas, marchinhas. Todos naquele salão queriam se perder no passado naquela noite, para depois amanhã, na quarta-feira de cinzas, tirarem do rosto as máscaras de papel e continuarem suas rotinas com suas máscaras de carne. Atravessava o salão, quando duas mãos envolveram sua cintura. Não quis olhar para trás. As mãos continuaram lá. Quis virar, ser brusca, dizer algum desaforo de etiqueta, mas as mãos apertaram ainda mais a cintura dela e foram dando ritmo àquele corpo tenso e sempre ancorado ao infinito ontem. Aos poucos foi deixando-se levar. As mãos viraram todo o corpo dela e a deixaram frente a frente com o corpo dono daqueles dedos todos. Ela estava sem máscara, mas o corpo dono das mãos estava mascarado, como a maioria das pessoas na festa. Quis dizer alguma coisa, dar uma desculpa mais uma vez, mas não achou nada demais dançar mais um pouco. Dançando,  esqueceria das mágoas bobas arquivadas. Dançou, dançou livre. Uma chuva de confetes descia com a força dos ventiladores de teto, que espalhavam tudo pelo salão. Lá fora, a chuva lavava o asfalto e alguns corpos bêbados, que se confundiam nos jardins externos.

De repente, as mãos a conduziram pelo salão em direção à porta. O tempo tinha passado, umas canções velhas foram dando uma o lugar à outra e as mãos e o corpo, coberto pela fantasia boba de um Sherlock Holmes, conduziam o corpo dela para aquele pátio banhado de chuva. Resolveu deixar-se ir. Seria uma trepada a mais, como tantas outras. Já se habituara a se desligar em nome do corpo, já que não esperava mais nada. Quanto menor a expectativa, menor a frustração. Nada foi dito. Nada. Nem nome, nem cantada barata, nem signo, nem notas sobre o tempo. Nada. Tudo que conhecia daquele corpo era aquele par de mãos, um corpo coberto pela fantasia e uma máscara, que envolvia todo o rosto. Nada de singular. As mãos recomeçaram sua dança e ela foi se encostando numa das paredes da área externa do salão. As mãos foram passeando pelo corpo dela. E as mãos foram dando lugar a uma língua quente, ponta suave, saliva. Ela, que no salão só pensava na pilha de contas e de pratos, agora só sentia os mamilos forçarem quietos o limite da blusa, o sexo todo se desmanchando e molhando a calcinha de algodão, a boca escancarada acumulando saliva. As mãos e a língua daquele corpo silencioso foram passeando pelo corpo dela. Boca, pescoço, seios, umbigo e se afundou no sexo molhado dela. “Alguém pode ver… Vamos sair daqui…”. A língua misturou saliva aos líquidos dela, aos pêlos finos, que cresciam tímidos. De repente, as pernas dela prenderam o rosto daquele corpo e na confusão a máscara caiu. O corpo ainda tentou pegar a máscara molhada no chão e recolocar no rosto, mas ela já havia visto aqueles olhos, a boca, o conjunto todo. “Você é…”. Tocou o peito coberto pelas camadas de pano e sentiu dois seios, pequenos, mas seios. Seios femininos, seios de carne, uma mulher. A outra, com a máscara molhada nas mãos, não disse nada. Pediria desculpas, inventaria alguma bobagem, mas em vez disso, viu um corpo todo se aninhando nela, virando dedos, mostrando língua, tocando os seios, invadindo pernas. No fim de tudo, era carnaval. A chuva voltou e na confusão de buscar onde se abrigar, cada uma foi para um lado diferente. Ela deixou-se ficar na chuva e a outra se perdeu entre as luzes da fileira de táxis estacionados. Já eram três da manhã, já era quarta-feira de cinzas. A festa iria até o fim da madrugada e elas voltariam para casa. Cada uma vestindo suas máscaras cotidianas de carne, diminuindo ou não a pilha de contas e de pratos, mas ainda era carnaval. Duas chuvas caíam: uma de confete no salão, uma que alagava ruas e tentava, sem sucesso, lavar o cheiro de cada uma impregnado no limite raso de suas peles.

Um comentário

  1. Manu diz:

    Lindo. Intenso. Retrato molhado de carnaval.
    Eu já te disse que você é brilhante, Jana?

    Beijo
    *continue assim, provocadora,

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