Terra-carne e semente
(Imagem: Janaína Calaça)
Hoje eu rasgo, semente, essa terra-carne
que me cobre olhos e narinas.
É hora de crescer,
ele me disse sem mexer os lábios,
e eu apenas sujei minhas mãos de vida.
É hora de crescer, baby.
O óbvio por ser explícito demais é posto de lado
como constatação menor,
mas não é.
E eu sujei ainda mais minhas mãos de vida.
Então ele foi arrancando as rodas da bicicleta velha
e me fez andar só, por mais que as quedas viessem,
por mais que a carne doesse,
por mais que eu pedisse pra parar.
A dor é fina, mas um dia passa,
nada permanece tão igual,
nem aquilo que fere.
Então eu quis rasgar a terra-carne de uma vez só,
e ele me disse, sem mexer os lábios,
que basta receber a primeira gota de luz,
que o restante vem com o tempo.
Tudo é produto do impulso primeiro,
das mãos cruzadas por baixo dos pés finos,
a ajudar a escalada pueril das mangueiras.
Vai, ele disse,
e eu quis sujar ainda mais minhas mãos de vida.
Semente rompendo a terra,
inseto quieto rompendo casulo,
seio minando as blusas cor de infância.
É hora de crescer.
E agora que a luz já aponta, mesmo tímida,
guardo-a no meu vidro velho de perfume
e faço dela vagalume,
a me guiar no caminho para romper de vez a terra,
pra deixar de ser semente,
pra crescer e me cumprir
como filho que sou do tempo.


February 9th, 2008 at 10:32 am
Como o baralho disse há um ano (lembra-se?), necessário é deixar algumas coisas do passado para trás, abrir mão em busca do novo, não sem um pouco de sofrimento - este sim nos faz crescer de fato. Preciso é consultar novamente o oráculo agora
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