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Pele
Descobri, logo cedo, que para renovar a pele queimada pelo sol,
teria que enfrentar a dor primeiro,
deixar que ela surrasse a carne, ardesse vermelha e explícita,
para aos poucos ver a pele nova crescer por cima,
à espera de outras dores possíveis e das novas camadas finas,
que depositam-se ao corpo silenciosamente.
Deixei minhas dores arderem a carne o quanto podiam
e agora vejo esta pele nova nascer fina e brilhante.
Talvez se eu metesse a unha impaciente
e quisesse arrancar a pele velha de uma só vez,
nunca esta pele, que se forma agora, nasceria.
É preciso deixar a dor se pronunciar por completo
para que um ponto qualquer não se abra mais em novas feridas.
Vejo esta pele nova, uma camada entre as tantas que há em mim,
se formar e fechar mais este ciclo,
trazendo a certeza de que por mais que tenha ardido, cicatrizei.
Estou pronta para novas quedas, arranhões profundos nos joelhos,
e pedaços do que pulsa espalhados pelo chão.
Agora renovo-me como qualquer limite entre margens,
que inundou-se de chuva e fez-se oceano,
a espalhar vida pelos cantos e estar pronto para correr,
rejeitando o tédio das águas paradas.
O sol surra esta pele nova, mas como deixei-a cicatrizar por inteiro,
vejo-a hoje mais resistente,
tão distante daquela camada fina e frágil,
que imaginei carregar por toda a vida.
Não ganhei a impenetrabilidade risível das armaduras medievais,
pois não renuncio o que faz de mim sempre humana,
a dor, seguida da certeza do prazer.
Carrego ordenadamente por fora então
esta camada fina renovada,
que esconde e reveste o caos silencioso que há em mim.
E é esta pele fina, feita de palmas abertas às carícias e às rasteiras,
que se lança ao mundo, à sua velocidade, à sua impaciência,
aos seus cafunés e a tudo que se derrama
pelos dedos certeiros e retos do tempo,
que esmaga, que arranha,
mas que traz a chuva, que leva tudo embora
e que ainda faz o que está inerte renascer.
