Não ser
(Imagem: Janaína Calaça)
Ofereceu a carne viva,
um punhado generoso daquilo que não é dito a ninguém.
O caminho do seu corpo,
suas camadas escondidas,
a entrada dos seus sonhos,
o afago dos seus dedos.
Mas tem que deixar de ser…
Cada vez mais viaja por dentro,
tentando encontrar a sensação perdida
de rodopiar livre sobre o chão duro dos dias.
Queria caminhar novamente com os dedos soltos,
cabelos desgrenhados,
tempo escorrendo e ela sem ver.
Mas agora tem que deixar de ser…
Pássaro vermelho de asas cortadas,
raízes enterradas em vaso de barro pintado,
escamas brilhantes cerradas em um aquário,
acreditando ser aquele o seu mar.
Não a concebe mais na beleza do desenlaço,
concebe a menina agora na rede tecida de laços.
E ela tem deixado de ser…
Tem agora que tapar os ouvidos,
os olhos e a boca.
Recolher restos de papéis ensaiados
exaustivamente por tantos.
Tem que ser igual,
seguir o fluxo,
não desviar.
E ela deixa mais e mais de ser…
Do outro lado do espelho,
aquele corpo amado está,
querendo ser extensão dela,
sem entender que já é,
mas que mesmo morando entre paredes de vidro,
óleo e água não se misturam,
e quando acontece,
não pertence mais ao limite deste mundo.
É licença poética e nada mais.
Continuarão sendo dois.
Enquanto isso, o peito entoa canção triste,
notas sufocadas e jorradas para dentro.
Não há como fazer-se entender.
Pássaro vermelho de asas cortadas,
raízes enterradas em vaso de barro pintado,
escamas brilhantes cerradas em um aquário.
E ela silenciosamente deixando de ser…


June 4th, 2008 at 8:11 pm
Não há dia em que me canse de ler você, amiga querida.
Um grande beijo de boas inspirações!