Arquivos dos posts
Pés
Meu tempo é o tempo das lembranças.
O passado rasurando o hoje como tinta,
que se derrama lascivamente
pelas páginas em branco,
prontas para serem escritas.
Meu tempo é o tempo das fotografias.
Instantes aprisionados que ganham apenas o movimento dos slides,
indo-vindo-acendendo-apagando.
Projetam-se em mim como sombras,
que penso ser minha verdadeira realidade,
mas logo vejo que são apenas projeções,
resto do que já foi e que não retorna.
É impossível retroceder o fluxo dos rios.
Não quero ser um amanhã previsível,
não quero ser o ontem.
Quero o instante, quero, quero sim.
E que ele venha dilacerante, luz-sombra-chuva-claridade.
Quero caminhar, embora os pés ainda estejam presos ao chão,
fértil de recordações hoje pintadas com cores solares.
É preciso movimento.
Espero as lembranças ganharem seu lugar
e eu deixar de viver como se estas fossem meu hoje.
Meu sangue segue seu fluxo,
minha carne não rejuvenesce,
tudo caminha, menos eu.
É preciso movimento.
Compreendo a necessidade.
Silenciosa, caminho.
