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Em cinza

October 9th, 2008 by jana

Pinto circunferências com cores berrantes,
tentativa qualquer de trazer vida ao vazio.
Preencho vazios externos, enquanto os meus se multiplicam,
cacos espalhados que ferem meus pés.

Não é dor fingida, dor de poeta buscando preencher linhas.
Essa dor é confissão, apenas isso… Confissão.
Nunca me encontro nesta terra de chão sufocado por concreto.
Meus pés se acostumaram à maciez da terra-mãe e do sol quente.
Encinzentando estou.

Busco em filmes novos e antigos o riso perdido
e o sofá laranja é calor artificial.
Pinto circunferências com as cores que desejo,
o monocromático tomou conta de mim,
ou serão escalas de cinza,
escalando meu corpo,
mudando silenciosamente a cor do meu sangue.

As canções me acompanham no metrô cheio,
até a pilha vagabunda morrer e levar as melodias embora.
Então tudo vem… Barulho de ferro lutando contra ferro,
de conversa estúpida sobre caixas de cerveja
e sobre as últimas tendências da moda.
Eu lá… Na solidão possível apenas pelos fones de ouvido.

Mergulho em mim e volto à superfície para enfrentar a rotina.
Do lado de fora um meio-sorriso, do lado de dentro enchente,
arrastando e desalojando sonhos,
levando tudo embora,
tirando as certezas do lugar.

Enquanto isso pinto vazios com cores berrantes
no trajeto diário para um futuro incerto.
Pinto os lábios de vermelho,
finjo vida,
caminho, tropeço, caminho,
até quando o corpo suportar.