Arquivos dos posts

Derrama

November 29th, 2008 by jana

Ouço canções enquanto as pernas descansam sobre a cadeira.
Canções que me reportam a terras de sol e mar.
O mar, sugado pelo sol, se precipitando como chuva.
Chuva, sou assim, difícil de aprisionar.

O corpo é um limite de carne,
mas o que vem de dentro quer se espalhar.
Hoje eu quero transbordar,
como o rio que contraria os braços das represas,
causando destruição quando tem que se libertar.
A liberdade das águas sempre fere a retidão
do que se constrói pelas margens.

Entenda que não sou recusa,
entenda que não é que não queira que me naveguem calmamente.
Minhas águas seguem seu fluxo natural,
a mudar de estado quando se é necessário mudar.
Até me encaixo perfeitamente entre paredes de vidro,
mas minha natureza me chama de volta para o volume-mar.
Hoje quero me espalhar.

Meu corpo reclama essa vontade,
adoece, murcha e resta apenas a sombra
do mar profundo e cheio de vida que um dia fui.
Ventre emanando vida, ventre úmido-aconchego.
Apenas compreenda que para navegar em minhas águas
é preciso aceitar minhas turbulências,
minhas fúrias e a calma aparente.
Apenas a superfície está à mostra.

Compreenda apenas que quem é filho das águas
até aceita recipientes fechados,
mas até neles consegue criar ondas,
que de tanto forçar derramam,
que de tanto abrir-se em redemoinhos
carregam o que há na margem para o fundo.
E a canção me reporta para lugares longínquos.
Hoje quero me derramar.

Arquivos dos posts

Se pontos invísiveis aprisionassem as águas

November 7th, 2008 by jana

Costuro camadas sobre mim,
tentativa de esconder a multiplicidade de eus
que me habitam.
Costuro rente, firme.
Há que se dar acabamento perfeito,
pois os olhos que nos fitam
são juízes,
acreditando ser a perfeição algo possível.
Não há lugar para os dionisíacos.

Então costuro essas camadas,
para esconder as imperfeições,
tão humanas e tão negadas,
o caos machuca os olhos sensíveis.
Não há lugar para os falhos,
para os tortos, para os extravagantes.
Retidão, voz modulada,
sentidos comedidos,
sensações aprisionadas.

Cada vez que aplico essas camadas artificiais,
sedas-pontos-invisíveis,
mais me afasto das minhas de carne,
as que pulsam verdadeiramente,
as irrigadas de sangue,
que escorrem vermelho-vida,
por minhas corredeiras.
Vou construindo barragens, criando margens,
limites feitos para aprisionar o extravasamento que sou.

Perco-me entre tantas camadas polidas,
logo eu, sempre tão dionisíaca,
adestrando-me em uma existência apolínea,
tentando viver sem traços tortos, sem rasuras,
por adequação.
Um dia ainda estouro ponto a ponto,
essa costura rente e invisível
e extravaso, filha das águas que sou.
Qualquer dia ainda navego em mim,
deixando essas camadas de pele abandonadas
em minhas margens.
E correrei livre,
arranhando a carne nas descidas,
corredeira sou.

Arquivos dos posts

Cinza-castanhinho

November 5th, 2008 by jana

(À minha vó)

De repente aqueles olhos surgem,
pequenos e claros,
misturados ao tecido fino das lembranças,
dolorosos,
pedindo que não os esqueça.

Tento dizer que não os esqueço,
olhos assim entre o cinza e o castanho,
olhos que me carregaram ainda menina,
corpo frágil, dependente,
corpo este que apenas cresceu,
mas não mudou sua condição de fragilidade.

Você surge, assim, primeiro os olhos,
nos dias de riso e dor,
todos os dias então.
Procuro seu colo, que já não mais existe,
mas procuro assim mesmo,
como quem não entende o limite imposto
à nossa inevitável transitoriedade.

Cada dia engolido pelo entardecer
é um dia a mais de lembrança.
Sigo vivenciando palavras, cafunés
e até sinto o gosto do pão com açúcar das tardes infantis.
Eu simplesmente não esqueci.
Segui porque a vida me impulsiona para a frente,
é apenas minha condição,
mas busco seu colo todos os dias
e os olhos claros que sempre me enxergaram menina,
por mais que minhas mãos mudassem,
que meu corpo envelhecesse.
Você vive em mim,
olhos claros-cinza-castanhos,
vida sem ponto final.