Cinza-castanhinho

November 5, 2008 por jana

(À minha vó)

De repente aqueles olhos surgem,
pequenos e claros,
misturados ao tecido fino das lembranças,
dolorosos,
pedindo que não os esqueça.

Tento dizer que não os esqueço,
olhos assim entre o cinza e o castanho,
olhos que me carregaram ainda menina,
corpo frágil, dependente,
corpo este que apenas cresceu,
mas não mudou sua condição de fragilidade.

Você surge, assim, primeiro os olhos,
nos dias de riso e dor,
todos os dias então.
Procuro seu colo, que já não mais existe,
mas procuro assim mesmo,
como quem não entende o limite imposto
à nossa inevitável transitoriedade.

Cada dia engolido pelo entardecer
é um dia a mais de lembrança.
Sigo vivenciando palavras, cafunés
e até sinto o gosto do pão com açúcar das tardes infantis.
Eu simplesmente não esqueci.
Segui porque a vida me impulsiona para a frente,
é apenas minha condição,
mas busco seu colo todos os dias
e os olhos claros que sempre me enxergaram menina,
por mais que minhas mãos mudassem,
que meu corpo envelhecesse.
Você vive em mim,
olhos claros-cinza-castanhos,
vida sem ponto final.

Um comentário

  1. Ana Cecília diz:

    Lindo, Jana!
    um beijo pra você.

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