Se pontos invísiveis aprisionassem as águas

November 7, 2008 por jana

Costuro camadas sobre mim,
tentativa de esconder a multiplicidade de eus
que me habitam.
Costuro rente, firme.
Há que se dar acabamento perfeito,
pois os olhos que nos fitam
são juízes,
acreditando ser a perfeição algo possível.
Não há lugar para os dionisíacos.

Então costuro essas camadas,
para esconder as imperfeições,
tão humanas e tão negadas,
o caos machuca os olhos sensíveis.
Não há lugar para os falhos,
para os tortos, para os extravagantes.
Retidão, voz modulada,
sentidos comedidos,
sensações aprisionadas.

Cada vez que aplico essas camadas artificiais,
sedas-pontos-invisíveis,
mais me afasto das minhas de carne,
as que pulsam verdadeiramente,
as irrigadas de sangue,
que escorrem vermelho-vida,
por minhas corredeiras.
Vou construindo barragens, criando margens,
limites feitos para aprisionar o extravasamento que sou.

Perco-me entre tantas camadas polidas,
logo eu, sempre tão dionisíaca,
adestrando-me em uma existência apolínea,
tentando viver sem traços tortos, sem rasuras,
por adequação.
Um dia ainda estouro ponto a ponto,
essa costura rente e invisível
e extravaso, filha das águas que sou.
Qualquer dia ainda navego em mim,
deixando essas camadas de pele abandonadas
em minhas margens.
E correrei livre,
arranhando a carne nas descidas,
corredeira sou.

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