Derrama
Ouço canções enquanto as pernas descansam sobre a cadeira.
Canções que me reportam a terras de sol e mar.
O mar, sugado pelo sol, se precipitando como chuva.
Chuva, sou assim, difícil de aprisionar.
O corpo é um limite de carne,
mas o que vem de dentro quer se espalhar.
Hoje eu quero transbordar,
como o rio que contraria os braços das represas,
causando destruição quando tem que se libertar.
A liberdade das águas sempre fere a retidão
do que se constrói pelas margens.
Entenda que não sou recusa,
entenda que não é que não queira que me naveguem calmamente.
Minhas águas seguem seu fluxo natural,
a mudar de estado quando se é necessário mudar.
Até me encaixo perfeitamente entre paredes de vidro,
mas minha natureza me chama de volta para o volume-mar.
Hoje quero me espalhar.
Meu corpo reclama essa vontade,
adoece, murcha e resta apenas a sombra
do mar profundo e cheio de vida que um dia fui.
Ventre emanando vida, ventre úmido-aconchego.
Apenas compreenda que para navegar em minhas águas
é preciso aceitar minhas turbulências,
minhas fúrias e a calma aparente.
Apenas a superfície está à mostra.
Compreenda apenas que quem é filho das águas
até aceita recipientes fechados,
mas até neles consegue criar ondas,
que de tanto forçar derramam,
que de tanto abrir-se em redemoinhos
carregam o que há na margem para o fundo.
E a canção me reporta para lugares longínquos.
Hoje quero me derramar.
