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Floresta do Navio

January 28th, 2009 by jana

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Ao meu pai

Ali estão minhas raízes,
capilares levando vida às minhas lembranças turvas.
Cheguei com fome de história,
com sede de memórias
e encontro o chão seco e rachado,
fragmentado-profundo-revelado.
Tudo era solidão viva.

Por trás das árvores retorcidas,
do verde pálido pontuado do dourado da seca,
debaixo de um céu profundamente azul,
a velha casa ainda vive,
com seus olhos tristes de janelas antigas,
chão de cimento batido
e velhos potes de água.

Velha Floresta,
do Xique-Xique, Mandacaru e do Facheiro,
do Quipá, Algarobas e Macambiras de boi e anzol,
dos riachos salgados e intermitentes,
dos Caborés aninhados nos cupinzeiros.
Velha Floresta,
mãe de seio murcho e de ventre desértico.

Sentei ali, na cadeira de pernas bambas,
a ver o vento varrer tudo para longe,
da poeira às lembranças,
das folhas às nossas vozes.
O gado pouco e murcho,
a sonhar com um mar de água doce,
caminha lentamente fazendo o chocalho cantar,
e eu, figura destoante,
vertendo rios por dentro,
acaricio o cão dócil,
que de tanto nadar na terra seca,
já ganhou a cor de sua poeira.

Vejo a silhueta dos meus ao longe,
enquanto caminho pela terra,
tentando me enraizar novamente,
desviando-me dos espinhos reais e dos imaginários.
Eles riem.
Muito tempo sem sentir a proximidade do sangue.
O velho tio solve seu café,
meu velho pai revive o tempo das calças curtas,
meu irmão adormece na rede vermelha.

E eu a pensar no momento que todos se vão,
que as janelas e portas são serradas novamente,
deixando a velha casa para trás,
que segue com sua condição de guardiã da memória de todos,
como a mãe que guarda o som do choro de seus filhos.
O que acontece quando todos se vão,
a poeira sobe
e as árvores retorcidas ficam para trás?

É isso que trago em mim,
a Floresta do Navio acenando verde e dourada,
contando-me velhas histórias,
cravejadas no chão e na velha casa.
Ôoooo… êeee…
Sigo aboiando as memórias dos meus,
volto pra casa com os olhos rasos,
o São Francisco todo correndo em mim.

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Voraz

January 26th, 2009 by jana

Assim como a comida esquecida no prato,
recuso uma existência morna.
Digam que há sangue demais correndo,
que em mim não há meio-termo,
só extremos.
Dou de ombros, ah dou,
vivo a fúria desconcertante da urgência do momento.

Os corpos que amei e amo,
nunca os vivo no passado,
são narrados no presente,
como as canções que renascem
cada vez que são tocadas mais uma vez.

Não há como amar com mornidão.
Amores em temperatura ambiente perdem o sabor e a graça.
Então, meu bem, que minha língua quente
desperte o desejo aquietado pela rotina.
Não olhe demais para baixo, a pensar demais na queda,
o importante é caminhar sempre em frente,
de braços abertos,
recebendo da vida o afago ou as fúrias.

Viva apenas o instante,
é tudo que temos.
O instante é a única certeza,
pois o passado é narrativa contaminada e traída pela memória
e o futuro é a junção de sonhos e projetos,
fadados ao sim ou ao não.
Então viva o instante,
como única certeza palpável
e se dispa, não só das roupas que te escondem de mim,
como também de todos os “se” que você acumula.

Venha a mim com o corpo nu de tecidos e moral.
Tudo é construção do homem,
para se proteger da voracidade animalesca do desejo.
O desejo, meu bem, é o que há de mais profundamente sincero.
Não o domestique como os cães selvagens,
fadando-o a uma existência de comida certa e passeios regrados matinais.
O desejo é voraz
e meus olhos acompanham a fome do meu corpo,
que rejeita dias mornos,
banhos frios
e a catarse do esquecimento forçado.

Espero seu corpo como prato saboroso a ser devorado com vontade,
com os póros abertos e a boca acesa.
Carne que é oferenda,
corpo que desejo,
você-instante-presente.
E eu a te dizer, entre sussurros e horas galopantes,
que meu desejo corre livre,
vento desmanchando medos,
entrega, apenas entrega,
apenas isso.