Voraz

January 26, 2009 por jana

Assim como a comida esquecida no prato,
recuso uma existência morna.
Digam que há sangue demais correndo,
que em mim não há meio-termo,
só extremos.
Dou de ombros, ah dou,
vivo a fúria desconcertante da urgência do momento.

Os corpos que amei e amo,
nunca os vivo no passado,
são narrados no presente,
como as canções que renascem
cada vez que são tocadas mais uma vez.

Não há como amar com mornidão.
Amores em temperatura ambiente perdem o sabor e a graça.
Então, meu bem, que minha língua quente
desperte o desejo aquietado pela rotina.
Não olhe demais para baixo, a pensar demais na queda,
o importante é caminhar sempre em frente,
de braços abertos,
recebendo da vida o afago ou as fúrias.

Viva apenas o instante,
é tudo que temos.
O instante é a única certeza,
pois o passado é narrativa contaminada e traída pela memória
e o futuro é a junção de sonhos e projetos,
fadados ao sim ou ao não.
Então viva o instante,
como única certeza palpável
e se dispa, não só das roupas que te escondem de mim,
como também de todos os “se” que você acumula.

Venha a mim com o corpo nu de tecidos e moral.
Tudo é construção do homem,
para se proteger da voracidade animalesca do desejo.
O desejo, meu bem, é o que há de mais profundamente sincero.
Não o domestique como os cães selvagens,
fadando-o a uma existência de comida certa e passeios regrados matinais.
O desejo é voraz
e meus olhos acompanham a fome do meu corpo,
que rejeita dias mornos,
banhos frios
e a catarse do esquecimento forçado.

Espero seu corpo como prato saboroso a ser devorado com vontade,
com os póros abertos e a boca acesa.
Carne que é oferenda,
corpo que desejo,
você-instante-presente.
E eu a te dizer, entre sussurros e horas galopantes,
que meu desejo corre livre,
vento desmanchando medos,
entrega, apenas entrega,
apenas isso.

Um comentário

  1. Anna Sofia Rodrigues diz:

    Sinônimo de lucidez, sensibilidade e alma nua…

    Tão lúcido e vivo que publiquei em uma de minhas páginas…

    Puro desabafo das extremidades (rs), muito parecido com um que escrevi ano passado.

    Sucessos e lucidez sempre!

    Anna

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