Floresta do Navio
Ao meu pai
Ali estão minhas raízes,
capilares levando vida às minhas lembranças turvas.
Cheguei com fome de história,
com sede de memórias
e encontro o chão seco e rachado,
fragmentado-profundo-revelado.
Tudo era solidão viva.
Por trás das árvores retorcidas,
do verde pálido pontuado do dourado da seca,
debaixo de um céu profundamente azul,
a velha casa ainda vive,
com seus olhos tristes de janelas antigas,
chão de cimento batido
e velhos potes de água.
Velha Floresta,
do Xique-Xique, Mandacaru e do Facheiro,
do Quipá, Algarobas e Macambiras de boi e anzol,
dos riachos salgados e intermitentes,
dos Caborés aninhados nos cupinzeiros.
Velha Floresta,
mãe de seio murcho e de ventre desértico.
Sentei ali, na cadeira de pernas bambas,
a ver o vento varrer tudo para longe,
da poeira às lembranças,
das folhas às nossas vozes.
O gado pouco e murcho,
a sonhar com um mar de água doce,
caminha lentamente fazendo o chocalho cantar,
e eu, figura destoante,
vertendo rios por dentro,
acaricio o cão dócil,
que de tanto nadar na terra seca,
já ganhou a cor de sua poeira.
Vejo a silhueta dos meus ao longe,
enquanto caminho pela terra,
tentando me enraizar novamente,
desviando-me dos espinhos reais e dos imaginários.
Eles riem.
Muito tempo sem sentir a proximidade do sangue.
O velho tio solve seu café,
meu velho pai revive o tempo das calças curtas,
meu irmão adormece na rede vermelha.
E eu a pensar no momento que todos se vão,
que as janelas e portas são serradas novamente,
deixando a velha casa para trás,
que segue com sua condição de guardiã da memória de todos,
como a mãe que guarda o som do choro de seus filhos.
O que acontece quando todos se vão,
a poeira sobe
e as árvores retorcidas ficam para trás?
É isso que trago em mim,
a Floresta do Navio acenando verde e dourada,
contando-me velhas histórias,
cravejadas no chão e na velha casa.
Ôoooo… êeee…
Sigo aboiando as memórias dos meus,
volto pra casa com os olhos rasos,
o São Francisco todo correndo em mim.

March 15th, 2009 at 10:59 pm
Bela poesia, tão bela quanto floresta, estive naquela cidade linda e cheia de tamarindos apenas uma vez, mas me surpreendeu, pois imaginava Floresta minúscula que nada é uma cidade desenvolvida diria que é um oásis no sertão.
October 6th, 2009 at 8:10 pm
sempre que posso vou a floresta do navio apesar de mora em sao paulo acho que nao devemos nunca esquecermos de nossas raizes.fiquei muito emocionado com sua poesia prarabens,bacana mesmo
November 23rd, 2009 at 4:35 pm
Adorei teu poema completo e a última estrofe é muito próximo do que sinto. Adoro Floresta, minha terra. Nas férias, nos meses de dezembro sempre volto. A atmosfera florestana me faz bem. Aquela terra, o ar quente e aquele silêncio me alimentam e energizam.
February 25th, 2010 at 9:57 pm
Quem um dia teve a felicidade em conhecer essa cidade “porreta”, jamais esquecerá e levará consigo a saudade e a vontade de um dia retornar.LUÍS GONZAGA cantou:
“…o que eu vou fazer
sem o meu Pajeú não poderei viver…”
AMEI,AMO E SEMPRE AMAREI MINHA QUERIDA FLORESTA