Dia de anos
Ao meu irmão Luiz Fernando, por nosso aniversário
O cheiro das angélicas é o que ficou
da lembrança do dia de anos.
Minha vó espalhava aquelas flores tímidas e brancas pela casa,
perfume delicado de flor não imponente,
que aos poucos se misturava com outros tantos cheiros,
açúcar, chocolate, borracha de balões coloridos.
Era dia de usar colchas de crochê nas camas
e lustrar o chão de tacos de madeira,
que acumulavam em suas falhas
restos de outros dias como este.
Ciclos e ciclos nascidos e encerrados
na extensão plana daquele mesmo chão.
O dia de anos era partilhado
como boas histórias que devem ser lidas em voz alta.
Ele chegou mais cedo,
mas acredito que no tempo certo.
Nestes dias que eram nossos,
e que continuam a ser,
rodeávamos a mesa de doces,
como as esferas coloridas
rodeiam lá em cima o sol incandescente.
Assim embaçado pelo tempo
o dia de anos ganha cores suaves,
aquarela, tons que sempre acompanham as lembranças.
Braços abertos, mãos, afagos,
pai, mãe, avó, avô,
aromas e o brilho dos embrulhos dispostos na cama.
Tudo chega até a mim em dança, movimento.
O dia amanheceu solar
e há distância demais entre estes dias e eu.
Em minha nova cidade,
ainda não encontrei minhas angélicas.
Talvez não as tenha procurado verdadeiramente.
O meu dia é nosso dia
e não me lembro do tempo que não era assim.
Você longe, eu tão perto e tão perdida de mim.
Talvez também, em alguma hora deste dia,
eu abrace uma almofada de chita,
daquelas bem floridas,
para preencher este vazio que um dia senti,
quando você ainda não havia chegado.
Hoje é o nosso dia de anos,
nossa singularidade,
fruto de sua antecipação
em chegar mais depressa aos meus braços pequenos.
Mas você chegou na hora certa,
para preencher meus vazios,
e por isso que minha solidão é apenas aparente.
Estamos de mãos atadas,
laços embaraçados de sangue.
Dançamos agora uma ciranda
em torno da mesa, das angélicas e das lembranças.
Um ciclo novo começa,
seus dedos no ar me sustentam.

