Arquivos dos posts

Bacantes

May 23rd, 2009 by jana

Há muito deixei de querer aprisionar o tempo.
Deixo que ele siga,
rio perene que carrega tudo para longe,
deixando nas margens apenas fragmentos de vivências.

O tempo surra meu corpo
e mais ainda sinto fome de vida,
de não deixar um momento que seja passível ao esquecimento.
Sou uma bacante de taça erguida,
corpo nu e entregue,
esperando o sumo adocicado das uvas,
para solvê-lo entre os dentes.

Minha fome e minha sede são renováveis,
não se extinguem.
Meu desejo é veia sonora, latente.
Pulsa, pulsa,
me impulsionando para frente,
para lembrar que é exatamente este desejo que nos mantém vivos,
dentro da ausência de respostas a que se resume a vida.

Enquanto isso Baco e eu dançamos livres,
e outras mãos se unem às nossas.
Mãos, corpos, peles, cheiros.
A festa de Dionísio é de carne e vinho.
Espalho-me nos corpos que se abrem para mim,
inebriante dança,
cuja canção que nos embala
é o sussurrar de nossas próprias vozes.

Lá fora, o mundo segue sua rotina de idas e vindas,
de café, contas e correria.
Aqui dentro celebramos juntos
a manutenção de nossas vidas,
o desejo em sua forma crua,
fruto vermelho colhido direto do pé.

Aqui, nos despimos não somente da prisão de nossas roupas,
mas também de nossas amarras invisíveis.
Minha existência é a recusa das convenções in vitro.
Dentro de nossa ciranda,
unamos pernas, mãos e suor.
O surrar do tempo ganha outro ritmo,
enquanto nos alternamos no saciamento de nossas sedes.
Dionísio nos observa atento,
seu riso é forte e alto,
e o vinho que ele nos serve é o desejo,
quente, inebriante, adocicado,
pronto para nos saciar
e despertar novamente nossa sede.