Bacantes
Há muito deixei de querer aprisionar o tempo.
Deixo que ele siga,
rio perene que carrega tudo para longe,
deixando nas margens apenas fragmentos de vivências.
O tempo surra meu corpo
e mais ainda sinto fome de vida,
de não deixar um momento que seja passível ao esquecimento.
Sou uma bacante de taça erguida,
corpo nu e entregue,
esperando o sumo adocicado das uvas,
para solvê-lo entre os dentes.
Minha fome e minha sede são renováveis,
não se extinguem.
Meu desejo é veia sonora, latente.
Pulsa, pulsa,
me impulsionando para frente,
para lembrar que é exatamente este desejo que nos mantém vivos,
dentro da ausência de respostas a que se resume a vida.
Enquanto isso Baco e eu dançamos livres,
e outras mãos se unem às nossas.
Mãos, corpos, peles, cheiros.
A festa de Dionísio é de carne e vinho.
Espalho-me nos corpos que se abrem para mim,
inebriante dança,
cuja canção que nos embala
é o sussurrar de nossas próprias vozes.
Lá fora, o mundo segue sua rotina de idas e vindas,
de café, contas e correria.
Aqui dentro celebramos juntos
a manutenção de nossas vidas,
o desejo em sua forma crua,
fruto vermelho colhido direto do pé.
Aqui, nos despimos não somente da prisão de nossas roupas,
mas também de nossas amarras invisíveis.
Minha existência é a recusa das convenções in vitro.
Dentro de nossa ciranda,
unamos pernas, mãos e suor.
O surrar do tempo ganha outro ritmo,
enquanto nos alternamos no saciamento de nossas sedes.
Dionísio nos observa atento,
seu riso é forte e alto,
e o vinho que ele nos serve é o desejo,
quente, inebriante, adocicado,
pronto para nos saciar
e despertar novamente nossa sede.

June 7th, 2009 at 1:41 pm
Oi Jana…o poema é muito belo a (in) definir como o desejo sempre se renova, fugidio e intenso. Imagino que você esteja com os dias corridos agora no final de semestre mas queria saber notícias suas, me escreva. Saudade. beijos, Lika
August 27th, 2009 at 9:30 pm
Janaína,
Nem lembro como cheguei à sua página, mas ainda me recordo que achei seus poemas tão belos que a salvei em meus favoritos.
E hoje encontrei uma imagem tão linda, que merece um poema como o seu, posso postar no meu blog? Com os devidos e merecidos créditos, claro.
um abraço!