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Noite imaginada

September 24th, 2009 by jana

Os olhos da menina
estão todos postos no céu.
Rodopiando, seu vestido de flores é jardim.
Menina dos seios maduros,
boca entreaberta à espera do beijo,
mãos abertas à espera de outros dedos.
O céu cortado pela cor berrante das bandeirolas.

Nos pés sandálias de couro,
as unhas nuas de esmalte,
vulneráveis às pedras e à poeira
do caminho longo que se põe à frente.
É pedra lisa, é pedra grande,
e ela caminha, rodopiando,
feita de água e labareda,
com seu vestido barato de chita,
a menina sorri sonora.

Casarões coloridos e cheiro de mar,
céu de estrelas novas e antigas,
restos do que foi e do que ainda será.
Mas ela nada sabe do tempo que cada uma viveu,
o que importa para a menina
é o brilho que elas trazem para o negro da noite,
manto brilhante a cobrir seus olhos.

Esta noite imaginada,
de caminhada entre as cores de casas antigas,
com cheiro de brisa de mar,
maçã do amor e canção,
vive na menina como festa.
Ah! Hoje é noite de dança,
dedos à espera de outros dedos,
as flores no vestido
à espera de quem as venha colher.

E por debaixo do tecido barato,
das sandálias gastas de couro,
dos cabelos desgrenhados pelo vento
que lascivo surra a nuca,
o corpo da menina é convite
nesta noite fria de primavera,
entre arranha-céus e carros barulhentos.
A cidade sonora mora longe,
as bandeirolas riscam outro céu,
que ela imagina de olhos fechados,
enquanto o sono chega através da janela do seu quarto,
de cima, do alto, de qualquer lugar.