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Recomeços

October 25th, 2009 by jana

Meus personagens estão todos no chão,
peles-vestes-fantasias,
seda vermelha-lantejoulas,
finas e espessas camadas,
arrancadas pela suavidade de suas mãos.

Aos poucos vou me resgatando,
jornada em busca de mim,
o que sou, o que quero, o que espero
surram meu corpo,
arrancando-me da dormência.

A inquietação presente nos meus olhos
não é guerra hormonal, entenda…
Sou eu, rasgando as últimas camadas,
nascendo de novo,
me descobrindo, reinventando rituais,
tecendo novos sonhos,
rompendo a aceitação passiva dos dias.

Não é à toa que quem nasce berra.
Renascer envolve também uma parcela de dor.
Não me debato ou busco novamente
a aparente proteção de pseudo-úteros.
E sei que do seu lado também a pele sente.
As velhas articulações estalam.
Movimentar-se também envolve dor.

Meus olhos nunca mais serão os mesmos,
levo hoje flor vermelha no cabelo,
saia rodada e pés descalços.
Veja, estou aqui, vulnerável,
o peito aberto para receber o que vier.
Veja, hoje danço entre minhas máscaras caídas,
entre meus discursos puídos,
entre minha aparente rigidez.

Veja, que depois da chuva
sempre há vida a brotar do chão.
Nada permanece todo o tempo em suspensão.
Não há lágrimas que não sequem,
não há dor que não cesse,
não há vida, meu bem,
que não recomece.

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Regresso

October 23rd, 2009 by jana

Regresso ao chão de onde parti um dia,
terra a que não pertenço mais.
Sei apenas de onde vim,
para onde vou é lacuna.

Como guia, apenas os olhos e minhas contas baratas.
Como certeza, apenas o que levo no peito.
Na mala, poucas mudas de roupa,
enquanto sigo muda,
tentando tornar audível
todas minhas perguntas sem respostas.

Sigo,
com os cabelos embaraçados ao vento,
pés nus, mãos vazias,
esperando quem as tome
e as envolva entre os dedos.

Entenda… Não queria caminhar só.
Seu lado na calçada está guardado.
E se tropeçar, em pedra ou em flores,
desta vez terei de levantar sozinha,
lavando, com minhas próprias mãos, as feridas.

Que venha a chuva forte,
cascata a derramar-se do céu,
volumosa o suficiente para abafar minhas águas,
que caem molhando o chão por onde piso,
deixando como marcas minhas pegadas,
duas apenas, a querer que sejam quatro.
Seu lado na calçada está guardado.

Regresso,
já não sei a que pertenço,
se a uma terra ou ao corpo que me espera.
Regresso,
dois pés e a carne surrada de lembranças,
o peito a gotejar saudades,
os olhos a procurar seu reflexo em outros espelhos.

Regresso,
o familiar já tão desconhecido,
os lugares de infância redescobertos,
eu, a mesma, tão distinta.
E as mãos sempre estendidas,
os pés em dois ainda
e um lado na calçada
mantido, cuidado… guardado pra você.

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Não falo de amor por costume

October 22nd, 2009 by jana

Não falo de amor por costume,
no automático,
como quem reza oração
em que não se crê.

Falo de amor com carne e sangue,
corpo em sintonia,
com a voz grave dos olhos abertos,
desnudos,
entregues,
e descobertos.

O amor não é moeda de troca,
nem objeto de escambo.
O amor é certeza,
crua-bruta-direta,
sem contornos e sem meias palavras,
sem teatro e sem cortinas.

O amor para mim é entrega.
Nada peço em troca,
apenas a compreensão de minha doação.
Meu amor segue embalado em minha carne,
transitória, refém do tempo,
mas aquilo que emana de mim continuará,
mesmo que, um dia, eu me torne ausência.

E eu… eu não banalizo essas palavras,
que entôo como canto livre,
pássaro de asas longas.
Amor é palavra dita quando há certeza
e não suposição.
Ninguém supõe que ama.
Quem ama, ama
e é ponto final,
não reticências.

Carrego meu amor, maduro como fruta caída do pé.
Carrego meu amor como flor vermelha na lapela.
Carrego em mim esta palavra sonora,
que tem seu peso,
tem sua graça,
seu gracejo, seu encanto.
Mas não carrego dúvidas, só certezas.
Porque aprendi, na labuta dos dias,
que não se fala de amor por costume.