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Recomeços
Meus personagens estão todos no chão,
peles-vestes-fantasias,
seda vermelha-lantejoulas,
finas e espessas camadas,
arrancadas pela suavidade de suas mãos.
Aos poucos vou me resgatando,
jornada em busca de mim,
o que sou, o que quero, o que espero
surram meu corpo,
arrancando-me da dormência.
A inquietação presente nos meus olhos
não é guerra hormonal, entenda…
Sou eu, rasgando as últimas camadas,
nascendo de novo,
me descobrindo, reinventando rituais,
tecendo novos sonhos,
rompendo a aceitação passiva dos dias.
Não é à toa que quem nasce berra.
Renascer envolve também uma parcela de dor.
Não me debato ou busco novamente
a aparente proteção de pseudo-úteros.
E sei que do seu lado também a pele sente.
As velhas articulações estalam.
Movimentar-se também envolve dor.
Meus olhos nunca mais serão os mesmos,
levo hoje flor vermelha no cabelo,
saia rodada e pés descalços.
Veja, estou aqui, vulnerável,
o peito aberto para receber o que vier.
Veja, hoje danço entre minhas máscaras caídas,
entre meus discursos puídos,
entre minha aparente rigidez.
Veja, que depois da chuva
sempre há vida a brotar do chão.
Nada permanece todo o tempo em suspensão.
Não há lágrimas que não sequem,
não há dor que não cesse,
não há vida, meu bem,
que não recomece.
