Arquivos dos posts

Carne exposta

November 19th, 2009 by jana

Entre nossos corpos surrados,
nosso amor pulsa sonoro.
Em meus olhos o medo,
em seus olhos um caminho de desligamentos dolorosos.

Se a procura se fez
é que algo havia se perdido, entenda.
Não nos encontramos por acaso,
numa dessas tardes banais e sonolentas de inverno,
entre o cinza e o concreto,
entre café quente e conversas ensaiadas.
Sabíamos o que buscávamos
e do vazio que preenchia os dias.

Uma vez você me disse
que sou intensa demais.
Talvez seja mesmo, não sei ser de outra forma.
Por isso meu corpo dói tanto
quando você está longe,
quando sei que silenciosamente você também chora,
tentando juntar as peças
neste mar de estilhaços em que te vejo agora.

Sim, meu corpo dói.
Cabeça, estômago, garganta.
Tudo dói.
Mas não há dor maior
que te ver encolhido em meus braços,
homem transformado em menino,
braços que me acolhem,
a pedir que o carregue e faça a dor cessar.

Não tenha tanto medo das mudanças.
Movimentos são necessários para a vida acontecer.
O que seria da vida sem o movimento?
Uma espera?
Talvez.

De nada adianta tantas certezas,
se as mesmas não nos fazem rir
e nos sentir vivos,
meio crianças até.
Não tema voltar ao início.
Às vezes é preciso começar novamente
para sentir o corpo pulsar.
É como nascer e ter um mundo diante dos olhos.

Lembra quando você me ensinou
a forma mais eficaz de caminhar de mãos dadas?
Se eu cair, você me segura.
Deixe eu te ensinar agora,
que se você cair,
eu já terei aprendido a te segurar.

Não, meu amor,
não estou sangrando por nada.
Não estou aqui para uma foda e um adeus.
Estou aqui para a vida,
para os cafunés e para as lágrimas,
para o riso e para a dor.

Estou aqui por você
e te espero com a carne rôta e surrada,
com um corpo que é seu abrigo,
corpo perdido, que agora é só seu.
Por escolha,
por vontade.
Seu…
Não rejeite o que te ofereço,
mudanças são necessárias para a vida continuar.

Arquivos dos posts

Águas

November 15th, 2009 by jana

Pedimos a chuva e ela veio,
forte, sonora, fazendo-se notar.
Enquanto uns temem o poder das águas,
sua forma vertical de alcançar o solo,
recebo a chuva como presente,
assim como este amor que sempre pedi,
que chegou como garoa suave
e que agora se espalha volumoso,
trazendo vida às minhas margens.

Enquanto a chuva lava as ruas e calçadas,
macula o branco desprevenido das roupas,
enxarca os sapatos despreparados,
eu estico os dedos através da janela,
na tentativa inútil de aprisionar estas águas férteis,
assim como faço com o tempo,
vivido-sentido ao seu lado.

Assim como  a chuva,
o tempo se vai entre minhas mãos.
Não há razão para tentar aprisioná-los.
Eles sempre retornam,
tanto a chuva, quanto o tempo,
embora se apresentem distintos.

Banho-me então neste amor
e dele extraio vida.
Vejo em mim brotar o que desconhecia,
um fruto saboroso, agridoce,
que me alimenta
e que sacia minha fome.

Não sinto mais o corpo faminto.
Sinto-me plena,
como aqueles que são alimentados a todo o tempo.
Mas, não é por não haver mais fome,
que não haja movimento.
Sigo em frente,
fluxo-corrente,
chuva-rio-mar no horizonte,
profundo-azul-intenso.

Este amor, costurado com os fios das águas,
tecido leve e brilhante,
é movimento,
vida que recusa o simples caminhar sonolento para a frente.
Nosso amor, meu bem,
em sua superfície aparentemente quieta,
esconde em nós tanta beleza,
cor, texturas e movimento.

Nosso amor é este mar,
alimentado pela chuva que cai lá fora,
pelo rio, que é o tempo,
por nossos corpos que se procuram
e que se acham,
carregando, cada um deles,
a força silenciosa e que dá vida,
a força azul cristalina das águas,
que vertem de mim,
que vertem de você.

Arquivos dos posts

Da sacada

November 14th, 2009 by jana

Quando a noite chega
e tudo que vejo são luzes ao longe,
penso em você sozinho na sacada de sua casa.
Fecho os olhos e tento ser novamente
a criança de riso despreocupado,
que acreditava poder estar em todos lugares que quisesse,
apenas no abrir e fechar dos olhos.

Enquanto você caminha em seu pijama macio
e eu caminho nua pelo quarto,
tento colher a brisa silenciosa que sai de seus lábios.
Silenciosamente espero
o momento que nossas mãos se unirão
e caminharemos juntos,
deixando para trás tudo aquilo que nos causa dor.
O amor sempre atenua as feridas mais profundas.

Sim, fecho os olhos e você está ao meu lado.
Mesmo ausente,
sinto seus dedos caminharem entre meus cabelos,
seus braços afastarem o frio,
seu colo abrigar meu corpo surrado.
Minha pele silenciosa espera a sonoridade do seu corpo,
a entoar nosso amor como canção suave e intensa.

E quando a dor é intensa e o corpo parece não suportar,
me refugio em nossas linhas, canções e lembranças.
O amor não foi feito para desistentes.
Para se amar é preciso caminhar rente,
com o peito aberto e a alma em festa,
com as mãos livres para o enlaçar de dedos,
com os olhos brilhantes a alimentar chamas.

Logo eu… Logo eu que sempre temi falar do amor,
com o risco de parecer piegas ou ridícula,
agora não só entoo meu canto
como assumo todo o prazer e a dor
a ele alinhavados.

Não, meu amor, não há medo, não há dúvidas,
só uma espera.
Pacientemente te aguardo,
debruçada na janela deste quarto estranho,
colhendo no vento o pólen de seus beijos.
Espero, espero sim.
O corpo todo em festa,
eu vestida de amor,
os olhos gritando alegria
e todas as dores a se tornarem jornal de ontem.
Sigamos.
O amor não foi feito para desistentes.