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Rotina

December 9th, 2009 by jana

Ao meu menino

Não temo a rotina dos dias,
o amanhecer e o anoitecer ao seu lado.
Toda rotina, no fim, tem sua beleza,
mesmo causando temor
a quem sua presença rejeita.

Há beleza em te ver acordar
depois de uma noite de sono,
em que nossos corpos dançaram sonoros
na superfície dos lençóis amassados e limpos,
enquanto as janelas-testemunhas,
abertas e obscenas,
nos traziam a brisa fria,
viajante de terras de longe.

Há beleza em dividir o pão e o café,
os primeiros sons da manhã,
as horas primeiras do dia.
Você me verá com os cabelos revoltos,
eu te verei aninhado em pijamas.
Sem moldura, trilha sonora ou luz de palco,
a vida nua e sem glamour.

Haverá beleza no beijo de despedida,
oferenda dos que se apartam momentaneamente,
a saber que, ao fim do dia,
os lábios se misturam novamente,
trazendo relatos de dor e alegria.

Haverá beleza na comida caseira,
na mesa posta, nos nossos pratos,
nas notícias diárias assistidas,
enquanto meu abraço te acolhe inteiro,
feito casulo,
quente, delicado, seguro.

E no fim de cada semana,
com os corpos cansados e rotos
da labuta diária da sobrevivência,
você me mostrará tua cidade
e eu te lerei velhos textos,
a descobrir, silenciosamente,
que toda rotina tem sim sua beleza,
quando a diferença se faz,
mesmo quando tudo aparenta repetição.

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Janelas

December 4th, 2009 by jana

Este amor-vivência
é força bruta,
húmus,
terra fértil onde mergulho meu corpo,
banhando-me de vida,
preenchendo as linhas vazias de minhas mãos.

Este amor, que já nasceu maduro,
fruto de nossos acertos e erros,
já conhece os caminhos,
é antigo,
posto que por ele sempre esperei.

Nosso amor são duas carnes transitórias,
que se buscam em quereres,
na certeza que nosso tempo é finito
e que é preciso driblar os pontos,
enquanto o pulsar existe no peito.

Nosso amor é canção tocada por mãos machucadas,
não há nos olhos a ilusão da meninice.
Nós somos estes corpos gastos,
que se buscaram entre passos tortos
pela vontade de renascer.

Nos seus olhos castanhos,
nestes olhos castanhos profundos,
húmus-terra fértil,
é onde quero viver,
imagem sempre refletida,
meu corpo, parte sua,
banhado pelo brilho negro
destas janelas por onde entrarei todos os dias.